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No mundo todo, crise de incêndios reacende, alimentada por ações humanas

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Um aumento nos alertas de incêndio este ano em comparação com o ano passado pode ter consequências graves para a saúde, a biodiversidade e a economia, de acordo com um relatório recém-divulgado pelo WWF e Boston Consulting Group.

Embora alguns incêndios florestais aconteçam de forma natural, o homem é responsável por cerca de 75% de todos os incêndios florestais.

No Hemisfério Norte, isso é atribuído à negligência, enquanto nos trópicos, os incêndios costumam ser intencionais com o intuito de limpar terras para a agricultura.

O relatório sugere várias ações urgentes para enfrentar os incêndios, incluindo investir na prevenção de incêndios, impedir o desmatamento, aumentar as metas nacionais de redução de emissões, trazer o fogo a paisagens dependentes do fogo, esclarecer a governança e coordenar políticas, incluir o setor privado e confiar na ciência.

Pixabay

Houve mais alertas de incêndios em todo o mundo este ano do que no ano passado, trazendo consequências graves para a saúde, a biodiversidade e a economia – e as ações humanas são a maior causa.

“O mundo testemunhou as consequências devastadoras dos incêndios do ano passado: bilhões de animais selvagens perdidos e pessoas perdendo suas casas e meios de subsistência, sem mencionar o impacto no clima”, disse Fran Price, Líder Global para Florestas do WWF. “E mesmo assim, aqui estamos nós de novo”.

Krasnoyarsk, na Sibéria, é apenas uma região dentre outras por todo o país onde há incêndios em 2020. Imagem do Greenpeace International.

Os alertas de incêndio em abril foram 13% maiores neste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com um relatório recém divulgado pelo WWF e Boston Consulting Group.

Em 2019, o mundo observou horrorizado quando um quinto de todo o bioma de floresta decídua temperada da Austrália foi queimado, uma área quase do tamanho da Inglaterra. No ano passado, a Rússia teve o segundo maior índice de incêndios florestais registrados e a previsão é de que 2020 seja pior.

Em abril deste ano, quase 20% da área florestal do norte da Tailândia queimou, causando níveis perigosos de poluição do ar em Chiang Mai. No mesmo período, a Ucrânia viu o início dos piores incêndios florestais da história da região de Chernobyl, com incêndios aumentando 30% em todo o país este ano.

As análises do relatório são baseadas em dados da NASA Fire Information (VIIRS) e do Global Forest Watch (GFW), que usam satélites para detectar “pontos quentes” no solo. Estas informações, podem ser úteis para comparar incêndios de ano para ano, mas às vezes também enganosas, pois se detecta anomalias térmicas, incluindo pequenos incêndios ou queimadas agrícolas controladas.

De acordo com o relatório, em junho, o número de incêndios na Amazônia brasileira bateu o recorde em 13 anos no início da estação seca, um aumento de 28% em relação ao ano passado. Análises sem relação com a anterior, realizadas pela organização sem fins lucrativos Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), usaram emissões de aerossol em vez de dados de pontos quentes e detectaram cerca de 650 grandes incêndios na Amazônia desde maio.

O que está causando os incêndios?

Os humanos são responsáveis por cerca de 75% de todos os incêndios florestais nos últimos anos. Nos trópicos, os incêndios costumam ser intencionais com o intuito de limpar terras para a agricultura. Este método, às vezes conhecido como agricultura de corte e queima, faz parte de um ciclo no qual as florestas são derrubadas na estação chuvosa e, à medida que a estação seca avança, são incendiadas para enriquecer o solo e se preparar para o plantio ou para pastagem de gado.

Os incêndios na Amazônia que chamaram a atenção internacional em 2019 não foram naturais, em geral, seguiram um padrão de desmatamento, com as chamas provocadas por fazendeiros e grileiros como um meio de transformar florestas desmatadas em pastagens e terras agrícolas.

Alguns incêndios florestais são desencadeados pela própria natureza e desempenham um papel importante em ecossistemas adaptados ao fogo, como no oeste dos Estados Unidos, eliminando arbustos e ajudando no crescimento de algumas plantas. Mas, como a mudança climática leva a estações de seca mais intensas, essas áreas estão se tornando mais suscetíveis a grandes incêndios. A Califórnia, por exemplo, passou recentemente por algumas das mais severas temporadas de incêndios florestais de sua história.

A maioria dos incêndios no Hemisfério Norte é resultado de negligência, como queima de lixo, transbordamento das fronteiras agrícolas e acidentes; locais de conexão entre áreas urbanas e florestas estão em maior risco.

Saúde humana, biodiversidade e economia

Os incêndios florestais têm consequências para a saúde humana, biodiversidade e economias, afirma o relatório. Embora as fatalidades humanas causadas diretamente por incêndios sejam estimadas entre 100 e 400 por ano, o que é um número relativamente baixo em comparação com outros desastres naturais, os efeitos secundários da fumaça na saúde são significativos.

Bem depois das chamas se apagarem, a saúde pública e o bem-estar ainda estarão comprometidos. Por ano, estima-se que 340.000 das mortes prematuras por problemas cardiovasculares e respiratórios são causadas pela fumaça de incêndios florestais, 80% delas no sudeste da Ásia e na África Subsaariana. E em 2017, quase 550.000 pessoas foram forçadas a fugir de suas casas por causa dos incêndios florestais. Comunidades rurais e indígenas, incluindo as da Amazônia, correm risco enquanto a temporada de incêndios avança.

Os incêndios também têm um impacto econômico: interrompendo as cadeias de abastecimento e o turismo, danificando instalações e reduzindo o valor das propriedades. Os incêndios de 2019 na Austrália, por exemplo, custaram à indústria de turismo do país cerca de US $ 2,9 bilhões. Nos Estados Unidos, as áreas afetadas por incêndios florestais apresentam uma queda de 10 a 20% nos valores das propriedades.

A biodiversidade é gravemente atingida pelos incêndios, que matam e expulsam animais de seu habitat, assim como interferem nas cadeias alimentares e prejudicam o equilíbrio dos ecossistemas dos quais os animais e as plantas dependem.

Os incêndios florestais do ano passado na Austrália mataram ou desabrigaram cerca de 3 bilhões de animais. Com 30% de seu habitat queimado, 26 espécies nativas, incluindo o coala, a cacatua preta brilhante, o northern long-nosed potoroo (potoroo de nariz longo do norte, em tradução livre) e o Dunnart-da-Ilha-Kangaroo – que está em perigo crítico -, estão agora mais próximos da extinção.

Os incêndios na Indonésia afetaram também orangotangos em perigo crítico, destruindo parte de seu habitat e suprimentos de comida. E, assim como nos humanos, a fumaça pode enfraquecer o sistema imunológico dos macacos e afetar sua saúde respiratória.

A mudança climática e o ciclo do fogo

Fogo e mudança climática alimentam-se mutuamente em um ciclo vicioso. O tempo quente e seco causado pelas mudanças climáticas aumenta a frequência e intensidade dos incêndios, assim, o dióxido de carbono liberado contribui para o aquecimento global.

“Temos visto a frequência e a gravidade dos incêndios aumentando”, disse Meg Symington, diretora sênior do WWF Amazônia, ao Mongabay. “Então, nossa opinião é que isso só vai piorar com o tempo, à medida que a mudança climática continua seu curso.”

De acordo com o relatório, a mudança climática influencia o tamanho da área queimada e a frequência e gravidade dos incêndios. As temporadas de incêndios estão se tornando mais longas e cada vez mais extremas, principalmente nas florestas e savanas da África Oriental e do Brasil. As ocorrências de incêndio estão cada vez mais imprevisíveis, dando cada vez menos tempo para ações preventivas e ocorrendo fora das épocas usuais.

No mundo todo, os incêndios florestais emitem tanto dióxido de carbono quanto as emissões anuais da União Europeia, de acordo com as análises do Boston Consulting Group. E enquanto os incêndios florestais correspondem a apenas 10% da área total queimada da superfície da Terra a cada ano (85% ocorrem nas savanas), o carbono liberado como consequência é desproporcionalmente grande: quase um quarto de todas as emissões de carbono relacionadas ao fogo provêm de incêndios florestais (florestas tropicais, boreais e temperadas).

Mais carbono é armazenado sob o solo do que em toda a vegetação acima e na atmosfera em conjunto. Incêndios cada vez mais graves penetram nessas reservas de carbono subterrâneas, liberando carbono que está armazenado há milênios.

O ecossistema das florestas boreais no Canadá mudou em apenas alguns anos devido a incêndios cada vez mais preocupantes. Os incêndios removeram uma camada de matéria orgânica do solo, permitindo que uma espécie de pinheiro (Pinus banksiana) dominasse a floresta, prejudicando a biodiversidade do local. Na Rússia, mais de 2 milhões de hectares de floresta foram queimados em 1998, perdendo sua capacidade de armazenar carbono e realizar outras funções importantes por até 100 anos.

“Embora as manchetes se concentrem na Amazônia brasileira, igual atenção deve ser dada a países como Canadá, Estados Unidos, Austrália e Rússia. Nos últimos 20 anos, todos viram um aumento na média anual de área queimada, com incêndios ocorrendo repetidamente, deixando pouco ou nenhum tempo para a recuperação entre eles”, diz o relatório.

O que pode ser feito?

“Estima-se que os humanos sejam responsáveis por cerca de 75% de todos os incêndios florestais”, diz o relatório. “Isso significa que as soluções também estão ao nosso alcance. Não há solução mágica que consertará o problema da noite para o dia, mas há maneiras de avançar se os comportamentos do passado forem alterados”.

O relatório sugere várias ações urgentes para enfrentar os incêndios, incluindo investir na prevenção de incêndios, impedir o desmatamento, aumentar as metas nacionais de redução de emissões, trazer o fogo a paisagens dependentes do fogo, melhorar a transparência do governo e coordenar políticas, incluir o setor privado e confiar na ciência.

“A proatividade e o comprometimento devem estar no cerne de uma resposta global aos incêndios e devem ocorrer nos níveis local, subnacional, nacional e regional”, disse Price, do WWF. “Prevenir os incêndios antes que ocorram é fundamental e preferível em todos os aspectos em vez de apagá-los quando já estão queimando. Boas intenções no papel não significam ações efetivas na prática – e estas ações precisam estar focadas em primeiro lugar nas florestas e nas mudanças climáticas”.

Nos relatórios, são enfatizados os investimentos na previsão e prevenção de incêndios e o foco nas causas das queimadas, assim como a conversão da floresta em terras agrícolas e a parceria com as comunidades para reduzir o risco, além de administrar as terras de forma sustentável. Os governos são incentivados a definir metas mais altas em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) – sob o Acordo de Paris – para a mitigação das mudanças climáticas.

O Acordo de Paris deve melhorar a contabilização das emissões provindas de incêndios de causa não antropogênica (em tradução livre), afirma o relatório. As políticas atuais operam com o pressuposto de que as emissões de C02 de incêndios “naturais” são reabsorvidas pelas florestas à medida que crescem, mas essa noção tem sido contestada por cientistas à medida que o campo de estudos sobre o clima se desenvolve.

Proteger a floresta em pé, seja por meio de parques ou territórios indígenas, é importante, diz Symington. Blocos maiores de floresta intacta contínua oferecem resistência diante da diminuição da precipitação e do aumento das temperaturas, o que tem elevado a probabilidade de incêndio.

Os incêndios não devem ser apagados em ecossistemas adaptados ao fogo, como parte do Mediterrâneo e o oeste dos Estados Unidos, mas administrados para que não fiquem fora de controle. As queimadas controladas podem reduzir a quantidade de combustível e melhorar o armazenamento de carbono das florestas. Os povos indígenas também podem desempenhar um papel fundamental no manejo florestal sustentável e a melhor maneira é dando-lhes o controle de suas próprias terras.

As empresas também têm um papel a cumprir. Uma das medidas mais eficazes que o setor privado pode tomar é implementar compromissos de não desmatamento e não conversão, o que significa que eles não comprarão de fornecedores envolvidos em práticas de desmatamento.

“Governos e empresas precisam construir uma resposta global coordenada com nível de importância e urgência adequados a questão dos incêndios”, disse Jesper Nielsen, diretor administrativo e sócio sênior do Boston Consulting Group, “antes que haja danos irreversíveis para o nosso planeta”.

Citação:

World Wide Fund for Nature & Boston Consulting Group. (2020). Fires, forests and the future: A crisis raging out of control? https://wwfeu.awsassets.panda.org/downloads/wwf_fires_forests_and_the_future_report.pdf.


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