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A pandemia é uma oportunidade para reconsideramos o que torna a vida boa

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O coronavírus foi devastador para aqueles que adoeceram ou perderam entes queridos. As restrições impostas à vida cotidiana para controlar sua propagação tem sido particularmente difíceis para às pessoas que vivem em acomodações apertadas, aquelas que fazem de tudo para gerenciar os cuidados com as crianças e o trabalho, e as que perderam seus empregos. Mas, apesar dessas enormes perdas, a pandemia nos permitiu vislumbrar como pode ser termos uma economia e um ritmo de vida diferentes — um que é mais lento, mais sustentável e menos focado no crescimento e no consumo. Uma pesquisa do YouGov no final de junho revelou que 31% das pessoas agora querem ver “grandes” mudanças na economia, três quartos querem a opção de trabalhar mais em casa e apenas 6% favorecem o retorno a uma economia pré-Covid.

No auge da crise do coronavírus em junho, cerca de 7,5 milhões de pessoas estavam temporariamente desempregadas — a maior queda trimestral (18,4%) no total de horas semanais desde o início dos registros em 1971. Por meio do esquema de folgas, o estado tomou a decisão sem precedentes de pagar os salários aos desempregados. Os que tiveram sorte trabalharam em casa e tiraram férias hipotecárias. É claro que isso não se aplicava igualmente: muitos trabalhadores da linha de frente não tinham outra opção a não ser ir para seus locais de trabalho e colocar suas vidas em risco.

Mas a redução no tempo de trabalho e a queda no deslocamento em todas as linhas nos deu uma visão sobre o que uma sociedade menos voltada para o trabalho poderia oferecer, onde trabalhos importantes que há muito tempo foram subvalorizados e mal pagos, como enfermeiras, cuidadores e equipes de supermercados, são vistos — e com razão — como muito mais úteis e importantes do que empregos de “alto status” bem pagos. À medida que a economia desacelerava, tínhamos novos motivos para questionar o velho normal, com sua produtividade frenética e busca sem sentido pelo crescimento econômico.

Durante anos, o estilo de vida do consumidor, o qual depende do crescimento econômico, não foi questionado. Fora do Partido Verde, a esquerda tem sido reticente em se envolver em debates sobre escolhas de estilo de vida — não importa o quão insustentáveis ​​possam ser. Embora a maioria de nós reconheça que os veículos que consomem muita gasolina e a moda rápida são prejudiciais ao meio ambiente, raramente questionamos os aspectos negativos do consumismo para os próprios consumidores, incluindo estresse, depressão e poluição.

A Covid-19 pode ter nos levado a reexaminar esse status quo. De acordo com o ONS, os gastos das famílias diminuíram em um quinto durante o lockdown. Durante décadas, o liberalismo econômico afirmou a ideia do consumidor egoísta como um estado humano quase natural. Mas durante a pandemia, um espírito mais voltado para o público parecia emergir. Pessoas se inscreveram como voluntários para o NHS — Serviço Nacional da Saúde do Reino Unido — em massa e grupos de ajuda mútua floresceram. À medida que o trânsito diminuía, as pessoas tinham mais tempo para ficar em casa e em suas comunidades.

O lockdown também beneficiou momentaneamente nossos ambientes físicos. As cidades tornaram-se menos poluídas e congestionadas, e caminhantes e ciclistas experientes desfrutaram da experiência utópica de se mover sem ser molestado em estradas geralmente repletas de carros, enquanto outros começaram a andar de bicicleta pela primeira vez. Por um breve período, a vida selvagem recuperou parte de seu antigo território e os atropelamentos caíram drasticamente. Muitos relataram ter ouvido mais o canto dos pássaros. Aqueles que viviam sob as rotas de voo, saborearam a experiência de céus silenciosos sem aviões. À medida que as pessoas se aglomeravam nos parques, ficou mais claro do que nunca por que precisamos defender nossos espaços públicos verdes.

Para que fique claro, a pandemia não é um modelo de como tornar a economia mais ecológica. Essas mudanças não foram baseadas em uma estratégia de longo prazo para descarbonizar, mas uma paralisação drástica da atividade econômica que teve efeitos dolorosos e trágicos. Os políticos já estão pedindo um retorno aos negócios como de costume e a “agitação” que Boris Johnson lamentou ter perdido rapidamente recomeçou.

Parece improvável que as promessas limitadas, embora encorajadoras, do governo sobre ciclismo seguro e transporte mais ecológico sejam totalmente honradas. E, a longo prazo, poderíamos ver políticos e empresas colocando a recuperação econômica à frente da crise climática, renegando os compromissos existentes e aumentando as emissões de carbono com pacotes de estímulo.

Evitar o retorno ao velho normal exigirá uma política alternativa de prosperidade: uma que defenda maior igualdade, dê prioridade ao bem-estar sobre o crescimento econômico e esteja disposta a desafiar a visão consumista da vida boa. Pode ser tarde demais para começar a se mover em direção a esses objetivos — e a jornada certamente será difícil. Mas o coronavírus nos mostrou que grandes mudanças sociais que antes eram consideradas impossíveis podem ser implementadas de maneira relativamente fácil. Alguns dos experimentos testados durante a pandemia podem se tornar permanentes, como o trabalho domiciliar (home office).

Essa ideia alternativa de prosperidade também significaria trabalhar de maneiras e ritmos diferentes. Talvez tivéssemos mais troca de habilidades e banco de tempo, uma semana de trabalho mais curta ou reutilizaríamos métodos antigos de fazer as coisas, renovando práticas agrícolas mais antigas e ecológicas, mesmo quando tiramos proveito das mais novas tecnologias sustentáveis em áreas como energia e medicina. Claro, tornar a economia mais ecológica iria muito além dos hábitos pessoais. Entre outras coisas, novas formas de propriedade e controle sobre as maneiras como fazemos o que precisamos, incluindo o controle democrático sobre a energia renovável e o controle nacional de serviços e utilidades públicas, seriam centrais para essa visão.

Como disse o historiador, socialista e defensor da paz EP Thompson em seu livro Customs in Common (Costumes em Comum), “a prontidão da espécie humana para definir suas necessidades e satisfações em termos de mercado material — e para lançar todos os recursos do globo no mercado — pode ameaçar a própria espécie (norte e sul) com catástrofes ecológicas”. A pandemia nos deu uma breve visão de um ritmo de vida mais lento e de satisfações que não foram definidas em termos de mercado. Mas será necessário muito mais imaginação e compromisso político para construir uma economia mais ecológica a longo prazo.


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