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Prática cruel criticada por especialista, confinamento para 16 mil bois é inaugurado em RO

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Confinamento de animais é cruel, devasta a natureza e prejudica a saúde humana (Pixabay)

Um empreendimento de confinamento para 16 mil bois explorados para consumo foi inaugurado em março na cidade de Vilhena, em Rondônia. O objetivo é obter maior produtividade em detrimento do bem-estar animal.

Ao contrário do que dizem os pecuaristas, não existe “abate humanitário”. Isso porque, além do animal vivenciar dor física e psicológica ao ser morto, exploração será sempre exploração e morte será sempre morte. Não há nada que amenize isso.

Há, no entanto, o que piore essa situação. O confinamento é uma dessas atividades capazes de transformar a realidade dos animais em um terror ainda maior. E não são apenas os ativistas, comprometidos com o direito à vida dos animais, que apontam essa crueldade, mas também especialistas.

Em entrevista ao portal Ecycle, a especialista da área de saúde global, comportamento animal e ecologia pela Universidade de Oxford, Cynthia Schuck, confirmou que o confinamento submete os animais a sofrimento, inclusive psicológico, devasta o meio ambiente e também representa um risco à saúde humana.

Mestre pela Universidade de São Paulo, Cynthia foi co-fundadora e diretora científica da Origem Scientifica de 2005 a 2017, tendo elaborado projetos de consultoria na área de saúde pública e global. Ela também produziu mais de 50 artigos científicos na área de saúde global, comportamento animal e ecologia. Seus trabalhos foram publicados em revistas internacionais.

A especialista explicou que o confinamento se caracteriza pela restrição da área de movimentação de um ou mais animais. “O confinamento animal implica na manutenção de animais em situação de espaço limitado, inadequado para que eles se movimentem ou expressem padrões normais de comportamento para a espécie. A grande maioria dos animais criados como alimento no Brasil, hoje em dia, estão em situação de confinamento intensivo, com restrições extremas de espaço, movimentação e comportamento”, disse.

Os bois, no entanto, não são os únicos animais mantidos em confinamento. No Brasil, a prática é muito utilizada na criação de frangos e porcos, que sofrem as terríveis consequências da exploração para consumo humano.

Frangos vivem amontoados em espaço minúsculo – o confinamento é padrão da indústria brasileira (Mercy For Animals)

“Os frangos, por exemplo, são, na maioria dos casos, mantidos em grandes galpões fechados, em altas densidades, em condições que chegam a mais de 12 animais por metro quadrado, onde até mesmo a dissipação do calor corporal é comprometida”, explicou.

Os porcos machos, lembrou Cynthia, passam a vida toda presos em baias de cimento. Para as fêmeas, a situação é ainda pior. “As fêmeas suínas em idade reprodutiva são mantidas isoladas em gaiolas metálicas de cerca de 60 x 220 cm (espaço que impede movimentos básicos, como dar um giro em torno do próprio corpo) durante toda a sua vida. Situação semelhante ocorre com as galinhas poedeiras, mantidas em gaiolas metálicas onde o espaço disponível por animal é menor do que uma folha de papel sulfite: não há possibilidade de ciscar, construir ninho ou mesmo abrir as asas”, reforçou.

Os bezerros também são submetidos a sofrimento inimaginável na produção de carne de vitela – consequência da indústria leiteira que, ao considerar inúteis os bezerros machos (por não terem condição de produzir leite), decidiu aprisioná-los em espaços extremamente pequenos para produzir carne.

Bois em confinamento vivem em espaço reduzido (Sepaf-MS)

“No caso da indústria leiteira, a produção de carne de vitela, o ‘baby beef’, é feita por meio do confinamento de bezerros machos que são separados de suas mães e confinados sem possibilidade de mover-se, para que não desenvolvam a musculatura e sua carne se mantenha macia. Para que a carne tenha as características desejadas, estes bezerros também são mantidos em estado de anemia profunda, obtida pela restrição do ferro e outros nutrientes na dieta”, disse.

No confinamento, os animais vivenciam sentimentos dolorosos que, conforme explicou a especialista, não são sentidos apenas por humanos. “Sentimentos como dor, medo, tristeza, alegria, frustração e ansiedade não são exclusivos da espécie humana. Qualquer pessoa que conviva com um animal pode atestá-lo, e é de fato difícil achar hoje um ramo da ciência que discorde desta afirmação”, afirmou. “Sendo assim, o sofrimento físico e psicológico são consequências óbvias e esperadas de todos os sistemas que impedem o animal de se movimentar de modo adequado, de expressar seus comportamentos naturais, de ver a luz do sol, ou de interagir em um ambiente social apropriado”, completou.

Esses animais também costumam desenvolver problemas de saúde. Conforme expôs Cynthia, a maior parte deles “provêm do desenvolvimento de linhagens de crescimento rápido ou de produtividade mais alta”, caracterizadas “por alta incidência de problemas ósseos, de articulação, e outras disfunções anatômicas e fisiológicas associadas a dor”.

O estresse ao qual são submetidos é tamanho que os animais acabam se mutilando. Para evitar a mutilação, procedimentos cruéis são adotados. “Nesse ambiente, medidas como a remoção de dentes, bicos, caudas e chifres, com o objetivo de evitar a mutilação e o canibalismo devido ao estresse, dor e frustração crônicos, são comumente empregadas pela indústria de forma paliativa. Galinhas têm seus bicos cortados, e porcos suas caudas e dentes”, explicou. Todos os procedimentos são realizados sem uso de anestesia, condenando os animais à dor intensa.

Mortes de animais que sucumbem ao sofrimento são comuns (Mercy For Animals)

Além disso, as péssimas condições nas quais são mantidos aumentam a vulnerabilidade dos animais a doenças infecciosas que, conforme reforçou a especialista, são tratadas “com o uso massivo de antibióticos, administrados de forma profilática” para que o maior número possível de animais sobreviva até o dia em que serão mandados ao matadouro.

Risco à saúde pública

Não bastassem as doenças inerentes aos produtos de origem animal, há um risco à saúde pública na prática de confinamento. “Além do aumento no risco de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer associados ao consumo de carnes e derivados em geral, o consumo de produtos de sistemas intensivos de criação representa hoje um enorme risco à saúde pública”, explicou Cynthia.

Segundo a especialista, “o uso massivo de antibióticos nestes sistemas acelerou – e continua acelerando – o processo de desenvolvimento de resistência a antibióticos, ou seja, o desenvolvimento das chamadas super-bactérias, resistentes a múltiplos antibióticos. Essas bactérias são transmitidas para a população através do ambiente e pelo consumo da carne destes animais”.

Os argumentos de Cynthia Schuck são baseados em diversos estudos. Alguns deles, citados por ela na entrevista ao portal Ecycle, são: um estudo do Sistema Nacional de Vigilância a Resistência a Antibióticos nos EUA que “mostrou que a maioria da carne vendida em supermercados continha bactérias resistentes a antibióticos importantes para a saúde humana” e outro que encontrou “níveis recorde de bactérias resistentes a vários antibióticos na carne de frango vendida na Inglaterra”.

Em galpões, frangos são criados amontoados, em condição de maus-tratos (Mercy For Animals)

A especialista citou ainda uma pesquisa recente que realizou uma análise cuidadosa de DNA e provou que “as bactérias encontradas na carne de frango em supermercados eram as mesmas detectadas em amostras de pacientes internados nos hospitais da mesma cidade onde a carne era vendida”.

E embora os estudos tenham sido feitos em outros países, Cynthia alerta que a realidade é a mesma no Brasil. “Não há razão para supor que a situação no Brasil é diferente – o Brasil é o terceiro maior consumidor global de antibióticos na pecuária. Conforme artigo da Organização Mundial da Saúde, estima-se que as infecções por bactérias multirresistentes serão a principal causa de mortalidade em alguns anos, matando mais do que o câncer e a diabetes”, reiterou.

Devastação ambiental

O problema ambiental não se resolve no confinamento porque os bois não são criados na natureza, como acontece, por exemplo, na Amazônia – que teve, em 2018, 81% de suas áreas desmatadas ocupadas por pastos para bois, segundo a organização Trase. De acordo com a especialista em ecologia, a devastação ambiental persiste mesmo no confinamento, o que prova que a exploração de animais para consumo é uma prática insustentável que tem que ser extinta não só por ser cruel, mas também para garantir a sobrevivência do planeta, do qual a espécie humana depende para viver.

“Embora o confinamento em si retire o animal do meio ambiente, transferindo-o para um sistema industrial fechado, os impactos ambientais da criação em confinamento ainda permanecem, dada a necessidade do uso extenso de terras para a produção de ração para alimentá-los. De toda a proteína produzida no Brasil, estima-se que somente 16% é usada na alimentação humana; cerca de 80% é usada como ração, principalmente para porcos e galinhas [confira aqui estudo a respeito: 1]”, explicou.

Porcos machos vivem em espaço reduzidos, o que os condena a sofrimento (Getty Images/iStockphoto)

“Esses sistemas têm impactos importantes também na poluição dos recursos hídricos nas regiões onde são implantados e na emissão de gases de efeito estufa em função da quantidade massiva de dejetos gerados nas granjas – são mais de 5 bilhões de animais terrestres mortos por ano no Brasil [confira aqui estudos a respeito: 2 e 3]”, completou.

Cynthia citou ainda um relatório do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável que mostrou que a pecuária é o setor da economia no Brasil com os maiores custos ambientais – 371% a mais do que a receita que geram. No caso da criação de peixes para consumo, a porcentagem sobe para 388% [confira aqui estudo a respeito: 4].

A especialista refuta ainda o argumento de que a pecuária é economicamente importante para o país. “O confinamento animal típico dos sistemas intensivos tem poucos beneficiários, e vários perdedores. A lucratividade do setor está vinculada à produção em larga escala: ganham os integradores e grandes companhias, porém a margem de lucro do produtor trabalhando diretamente com os animais é baixa, e os riscos altos”, disse.

Porca grita em desespero ao ver seu filhote ser castrado sem anestesia (Mercy For Animals)

“Apesar de representar boa porcentagem do PIB brasileiro, a atividade é amplamente subsidiada, e tem saldo negativo quando as externalidades (como os custos de perda de capital natural) são computadas. Perdem os cofres públicos, o potencial produtivo do país em um futuro não tão distante, e as futuras gerações”, acrescentou.

Além disso, Cynthia relatou que os riscos financeiros para os investidores também são altos. “Incluem-se aí os riscos de imagem associados às crescente objeções em relação ao bem-estar e saúde dos animais, os riscos à saúde pública, e aqueles associados aos danos ambientais”, concluiu.


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