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Investigação expõe investimentos bilionários questionáveis na indústria pecuária

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Dois dos maiores bancos de desenvolvimento injetaram bilhões de dólares no setor global da pecuária, apesar de advertências de que reduzir o consumo de carne e laticínios é essencial para lidar com a crise climática.

A Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC) – o braço comercial de empréstimos do Banco Mundial (World Bank) – e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (European Bank for Reconstruction and Development – EBRD) forneceram US$2,6 bilhões para fazendas de criação de porcos, aves e bovinos, como também para o processamento de laticínios e carne, nos últimos 10 anos.

O governo do Reino Unido é um dos maiores financiadores de ambos os bancos e seu próprio banco de desenvolvimento, CDC, também investiu dezenas de milhões de dólares no setor mundial de pecuária na última década, incluindo financiar o confinamento de bovinos em escala industrial na Etiópia e as empresas de avicultura na Nigéria e Uganda.

Os bancos de desenvolvimento fornecem meios e o capital de longo prazo para promover o crescimento econômico em países mais pobres. Ambos os IFC e o EBRD se comprometeram publicamente em lidar com as mudanças climáticas provocadas pelo homem e a tomar decisões de investimento com o clima em mente.

Porém, uma investigação conduzida pela Agência de Jornalismo Investigativo (Bureau of Investigative Journalism) e pelo jornal The Guardian revelou que as finanças da IFC e EBRD – que envolve investimentos diretos, empréstimos e outros apoios financeiros – foram usaram para mega fazendas em escala industrial, abatedouros e expansão de corporações multinacionais de carne e laticínio.

Em um caso recente, um rebanho de confinamento em Madagascar, propriedade de um conglomerado de mais de 20 empresas, conseguiu um financiamento de US$3,5 milhões para produzir carne para exportação do Oriente Médio e o comércio doméstico. Em outro caso, Smithfield Foods, a maior empresa de suínos do mundo, recebeu uma injeção substancial de dinheiro da IFC para suas atividades na Romênia.

Cientistas repetidamente soaram o alarme da considerável pegada climática derivada de fazendas de criação animal – elas produzem aproximadamente 15% das emissões de gases de efeito estufa originadas da ação humana – e, dito isso, a menos que o consumo global se reduza os esforços para lidar com a mudança climática irão falhar.

“Expandir a produção e o consumo de carne e laticínio é incompatível com os objetivos do acordo climático de Paris”, disse o professor Pete Smith, da cátedra de Ciência de Plantas e Solo da Universidade de Aberdeen e autor principal de um relatório marco das Nações Unidas a respeito dos impactos do uso de terras e da agricultura sobre as mudanças climáticas. Ele citou uma pesquisa mostrando que é necessário que metade da população mude para dietas vegetarianas ou veganas até 2050, além de outras mudanças do setor alimentício e de uso da terra, para que se conquistem os objetivos de Paris.

“Enquanto alguns investimentos das agências e bancos de desenvolvimento em agricultura animal para aumentar a segurança alimentar nas nações mais pobres do mundo pode ser justificável, os investimentos massivos em sistemas de produção pecuária em países que já têm altos níveis de consumo e em companhias multinacionais de carne e laticínios claramente não o são”, acrescentou.

Produtos de origem animal tendem a ter pegada ambiental maior – em alguns casos de 10 a 100 vezes maior – do que alimentos à base de plantas por conta da quantidade de terra, água, fertilizantes emissores de gases de efeito estufa e energia necessários para produzir uma porção de proteína. A pecuária utiliza mais de 80% das terras cultiváveis do mundo – seja como pasto, seja como terra para produção de alimento para os animais -, ainda que proveja apenas 18% da caloria mundial.

Na última semana de junho, em um relatório marco o Banco Mundial empenhou-se em trabalhar com clientes para incentivar dietas sustentáveis e “abordar os fatores motivadores do aumento do consumo de carne” e disse que estava considerando advogar por um imposto sobre o carbono no setor pecuário. O relatório exaltou os benefícios climáticos dos substitutos à base de plantas para a carne.

Jeremy Coller, diretor da firma de investimento Coller Capital e criador da rede de financiamento responsável Fairr, disse que enquanto o financiamento mundial estava começando a desempenhar seu papel em diminuir os gases de efeito estuda, era “loucamente desconexo e inconsistente para a IFC e o ERBD investirem fundos públicos em agricultura animal intensiva, uma das indústrias de maior emissão do mundo.”

A análise de registros públicos e dados da indústria, feitos pela Agência de Jornalismo Investigativo e The Guardian, ressaltou como os bancos financiaram companhias que operam na Europa Orienta, Ásia, África, Oriente Médio e América Latina. Alguns investimentos foram em países onde o suprimento de carne era baixo, como na Etiópia, mas em outros foram em lugares onde o consumo de carne per capita já é alto ou na média, como na Ucrânia, China e Romênia.

O setor de laticínios foi o maior receptor do financiamento da IFC e do EBRD, com companhias e fazendas de processamento recebendo mais de US$ 1 bilhão. Os setores suínos e de aves receberam cada um cerca de US$ 500 milhões.

A IFC disse à Agência que está intencionalmente provendo para o aumento da demanda global por carne e laticínio e que o setor pecuário é um pilar chave de segurança alimentar e redução de pobreza em muitos países. É sabido, no entanto, que o setor tem uma “grande pegada ambiental e climática.”

O Banco Europeu disse que os setores de carne e laticínios representam a parte mais importante da dieta de muitas pessoas, mas que os projetos de pecuária representam cerca de 1% de seu total de investimento em negócios. Ambos os bancos disseram que estão trabalhando para reduzir a emissão em projetos que eles financiam.

O impacto de cada projeto deveria ser considerado de acordo com o orçamento de emissão nacional e mundial, de acordo com o professor Tim Benton, diretor do programa de Energia, Meio Ambiente e Recursos da Chatham House.

Porém, ele alertou que tentar reduzir a pegada de carbono de um litro de leite ou de uma única galinha é inútil quando a demanda por esses produtos continua aumentando. “Só porque a eficiência da produção de gás de efeito estufa de uma unidade de carne ou laticínio melhorou, se todo mundo está comendo mais disso, a emissão total advinda de carne ou laticínio pode aumentar.”

Ambos os bancos de desenvolvimento disseram à agência que eles avaliam projetos individuais por sua emissão de carbono. O EBRD acrescentou que ele introduziu práticas para avaliar os riscos climáticos em todo o seu portfólio.

Algumas das companhias financiadas pelos bancos de desenvolvimento são agronegócios multinacionais ou suas subsidiárias ou afiliadas. Em 2010, o EBRD fez uma aposta nas subsidiárias europeia e da Ásia central do grupo francês Danone, uma das maiores companhias de laticínios do mundo, o que gerou vendas de €25,3 bilhões em 2019. O EBRD disse que esses investimentos – que agora acabaram – foram projetados para expandir o mercado de laticínio e as operações da Danone na Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão.

Entre os projetos recentemente aprovados pela IFC está um empréstimo de US$ 54 milhões para a gigante de aves Suguna, baseada na Índia, a maior fornecedora de frango do país e uma das 10 maiores produtoras de aves do mundo. A companhia fornece para o mercado de exportação como também para consumidores indianos.

O empréstimo da IFC é parcialmente projetado para ajudar a expansão da companhia no Quênia e Bangladesh, com financiamento destinado à construção de fábricas de ração e incubadoras.

Todo o agronegócio integrado, que diz trabalhar com 39 mil fazendas em 18 estados indianos, anteriormente foi apanhado em uma controvérsia depois que foi alegado que um antibiótico, cujo uso a OMS disse que deveria ser reduzido, foi encontrado no uso em uma de suas fazendas de contrato. A companhia negou.

Suguna disse ao The Guardian que “o ator principal da avicultura na Índia [Suguna] tem se esforçado totalmente para reduzir ou remover os antibióticos do sistema de produção, usando diferentes ingredientes promovidos por pesquisas. Suguna usa apenas antibióticos registrados para tratamento e não para promoção de crescimento.”

Suguna não é a única companhia de aves da Índia a ter sido apoiada pela IFC, com sua rival, a Srinivasa, recebendo uma injeção de mais de US$ 20 milhões em 2018.

Smithfield Foods – agora parte do conglomerado chinês WH Group – também se beneficiou de financiamento da IFC, com empréstimos de US$ 60 milhões em suas operações na Romênia.

Smithfield é a maior produtora e processadora de suínos do mundo, e recentemente alcançou às manchetes mundiais depois de a pandemia de Covid-19 a forçar fechar sua principal fábrica de embalagem de carne em Dakota do Sul, que dizem fornecer 18 milhões de refeições por dia aos consumidores estadunidenses.

Uma pesquisa recente conduzida pelo Coller FAIRR Index indicou que 77% dos maiores produtores de carne, peixe e laticínios, incluindo grande parte das maiores companhias de carne listadas da Ucrânia e China, caíram na categoria “alto risco” no que diz respeito a dedicar-se as mudanças climáticas. Em outras palavras, elas não medem adequadamente todas as emissões de gases de efeito estufa e não têm metas significativas de reduzi-las.

O governo do Reino Unido comprometeu-se em usar sua presidência da COP26, as palestras anuais sobre o clima, a “tornar verde as cadeias de produção de alimentos e principais commodities locais e internacionais” e “aumentar o alinhamento dos fluxos financeiros com a Rede Zero Carbono” (tradução livre de net-zero, que são empreendimentos imobiliários ecológicos e com energias sustentáveis).

O CDC disse à agência que estava prestes a publicar uma nova estratégia de mudança climática para ter certeza de que companhias agrícolas nas quais investia incorporassem “práticas agrícolas inteligentes em termos climáticos de forma a diminuir as emissões e aumentar a resiliência a um clima mais quente… É importante também lembrar que uma em cada cinco pessoas vivendo na África passa fome. Aliviar níveis crônicos de desnutrição e melhorar a segurança alimentar permanece como objetivos de desenvolvimento vitais.”

A IFC aceitou que a proteína animal tem “uma pegada ambiental e climática grande, ainda assim é importante frisar que seu crescimento é impulsionado pela demanda e ligado às preferências de consumo de laticínios e carne das pessoas.”

Ela justificou o investimento na indústria pecuária dizendo que “na maior parte dos países em desenvolvimento existe uma significativa porção da população que luta para satisfazer sua necessidade mínima diária de nutrição, incluindo proteína.”

Um porta-voz do EBRD disse que o banco está “principalmente investindo em aumentar a eficiência, melhorias no uso de energia ao longo da cadeia de produção, melhor bem-estar animal, gestão e uso de resíduos (incluindo manejo de esterco), e produção de energia verde.”

O banco também disse que buscava ativamente reduzir as emissões de gases de efeito estufa, “incluindo melhorar a eficiência de recursos ao longo da cadeia de produção de carne, da fazenda à distribuição.”

Nota: Os números citados na reportagem foram baseados em dinheiro reservado para projetos específicos. Alguns foram convertidos para dólares a partir de outras moedas.


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