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Chimpanzés preferem se alimentar de cultivos e é melhor para eles

Imagem de chimpanzé

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Pixabay

Alimentar-se de cultivos é um trabalho perigoso para os chimpanzés, que correm riscos de sofrer ferimentos e até mesmo de morrer se forem pegos pelos fazendeiros, os quais visam proteger seus meios de subsistência. Contudo, pesquisas mostram que as colheitas podem ter benefícios nutricionais importantes para os chimpanzés, o que explica a disposição de colocarem a si mesmos em perigo.

“Os cultivos geralmente oferecem aos primatas benefícios maiores que os dos alimentos silvestres”, disse Nicola Bryson-Morrison, pesquisadora da University of Kent, no Reino Unido, e autora principal de um artigo no “American Journal of Primatology” sobre as dietas dos chimpanzés do Oeste Africano (Pan troglodytes verus), que vivem em ambientes adaptados para o ser humano.

“Cultivos são selecionados pelos humanos para ser palatáveis, fácil de digerir e ser uma boa fonte de energia”, diz, “além de ser saboroso e fornecer mais energia, eles também são convenientes. Trabalhar nas plantações do óleo de palma garante o almoço de muitos, pois é mais fácil do que gastar horas procurando uma figueira para colher os frutos.”

Claro que nem sempre vai funcionar para todos os fazendeiros. Bryson-Morrison descreve o forrageamento dos cultivos como uma “ameaça, principalmente à coexistência da vida humana selvagem em uma paisagem antropogênica”. Ela sugere manter a calma: “Isso só será preferível se os chimpanzés forem capazes de encontrar seus requisitos nutricionais do ambiente ao redor sem precisar das colheitas”.

Todavia há claramente benefícios para os chimpanzés que frequentemente comem alimentos de colheitas, tais como: crescer, viver mais, perder menos filhotes, reproduzir em uma idade mais jovem e serem menos suscetíveis a parasitas, de acordo com a observação de Bryson-Morrison de leituras anteriores sobre o assunto. Além disso, eles parecem mais relaxados. Chimpanzés adaptados a comer de cultivos geralmente gastam menos tempo procurando por comida e mais tempo descansando.

Entendendo o forrageamento das lavouras

As pesquisas feitas por Bryson-Morrison comparam o teor de macronutrientes (gorduras, proteínas e carboidratos) de comidas silvestres e de fazendas forrageadas pelo chimpanzés em Bossou, Guinea, área que foi parcialmente tomada pela agricultura.

Quando isso acontece as opções de comidas silvestres diminui e são substituídas por uma abundância de outras comidas encontradas nas fazendas. Isso gerou outro conflito para a vida humana selvagem: os agricultores não podem perder as lavras que trabalharam tanto para que dessem resultados e com margens de lucros reduzidos, mas os chimpanzés e outros animais ainda precisam comer para sobreviver.

Bryson-Morrison e sua equipe observaram a alimentação de 13 chimpanzés durante 568 horas. Coletando amostras de 24 espécies selvagens de uma mesma árvore, plantas, restos de comida e 11 espécies de cultivos. Depois de executar as análises, processaram relatórios do que os chimpanzés faziam: removiam a pele de alguns frutos e camadas resistentes de raiz deixando só a polpa da fruta e a parte macia interna, eles os mastigavam e engoliam.

Os estudos mostram que colheitas consumidas pelos animais, contém carboidratos que são mais fáceis de digerir e menos fibras indigestíveis, dando a eles uma maior fonte de nutrientes básicos.

Além disso também mostra que os chimpanzés de Bossou comem regularmente de plantios, como abacaxi, mandioca, arroz e milho, essas comunidades de chimpanzés ignoram outras em áreas de cultivo, apesar de o conteúdo dos nutrientes serem similares. Isso sugere que eles não pegam o que comer apenas pelos macronutrientes.

Chimpanzés comem de plantios por algumas razões: falta de diversidade no conteúdo das comidas, necessidade de nutrientes específicos, acesso fácil a um grande volume de alimentos, ou até mesmo preferência cultural de alguns grupos. “Cada um desses cenários requer uma gestão de estratégia diferente em razão da implantação eficaz, técnicas e estratégias de mitigação com uso da terra”, diz Bryson-Morrison.

Coexistência pacífica

Em áreas que pessoas e animais precisam conviver juntos, entender o impulso nutricional por trás do cultivo e forrageamento é a chave para aplicar medidas conservadoras de sustentabilidade para ambos, dizem os pesquisadores.

Para os macacos e outros animais, é sempre uma troca entre evitar a predação e conseguir mais comida. “O fato dessas plantações garantirem mais benefícios energéticos para os primatas, mais até que os alimentos silvestres, faz com que fiquem dispostos a correr maiores riscos para consegui-los”, a pesquisadora diz. Para os fazendeiro, isso pode ser uma dor de cabeça. “O forrageamento deles pode não ser eficiente se os chimpanzés perceberem que os benefícios energéticos superam os riscos”, complementa.

De fato, os chimpanzés de Bossou foram observados se movimentando em massa nos campos, ao invés dos seus pequenos grupos como é de costume, eles fazem isso por baixo, sem nenhum barulho, de acordo com Bryson-Morrison. Isso significa que encontraram cultivos que valem a pena, apesar do risco de serem pegos pelos fazendeiros.

Essa não é a única possibilidade para solucionar o problema. Há fatores que influenciam o forrageamento e a reação dos humanos, isso pode variar entre as comunidades e as regiões. Como resultado, os esforços devem considerar a variedade de locais, e as necessidades dos animais e dos humanos também devem ser levadas em conta, ela diz, defendendo uma maior e mais abrangente aproximação da sustentabilidade ecológica a nível local.

“A localidade deve ter uma voz ativa em relação aos meios de proteção que devem ser impostos”, diz Susana Kosta, uma pesquisadora da University of Coimbra, em Portugal, e vice presidente da Associação Portuguesa de Primatologistas. Kosta, que não está envolvida nas pesquisas de Bryson-Morrison, diz que as pessoas, frequentemente mulheres e crianças, que trabalham diretamente nas colheitas deveriam estar mais envolvidas nas decisões de proteção que serão tomadas. “Os conhecimentos sobre o comportamento e os hábitos de alimentação da vida selvagem devem ser levados mais a sério”.

Kosta diz que uma possível solução seria selecionar os plantios que esses primatas achem menos atraentes, expandir as plantações para uma maior produção, nas quais os animais vão poder comer, e fazê-las afastadas dos demais cultivos.

Para Bryson-Morrison, isso começa com entendermos as decisões do forrageamento e as aquisições de nutrientes como um contexto de perturbação humana. Ela diz que é “vital para o planejamento balancear as necessidades de ambos os lados”.

Citações:

Bryson‐Morrison, N., Beer, A., Gaspard Soumah, A., Matsuzawa, T., & Humle, T. (2020). “The macronutrient composition of wild and cultivated plant foods of West African chimpanzees (Pan troglodytes verus) inhabiting an anthropogenic landscape”. American Journal of Primatology82(3).

Warren, Y., Higham, J. P., Maclarnon, A. M., & Ross, C. (2010). “Crop-raiding and commensalism in olive baboons: The costs and benefits of living with humans”. Primates of Gashaka, 359-384. 


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