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Óleo no Nordeste afeta corais, tartarugas, aves, peixes e outros animais

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Foram encontrados 107 animais oleados e 81 deles morreram, segundo dados do Ibama


O óleo derramado no Nordeste atingiu corais, tartarugas, aves, peixes, ostras e mariscos prejudicando vários ecossistemas.

“Todos os ambientes costeiros foram afetados em diferentes intensidades, dependendo do tamanho da mancha que os atingiu, densidade no momento em que encostou, estágio da maré e hora do dia. Isso porque o calor ajuda a amolecer a mancha e, durante a noite, é mais difícil o trabalho de remoção”, explicou ao UOL a oceanógrafa Mônica Costa, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Pedro Accioly/Divulgação

“Inicialmente havia poucos registros de encalhes —vivos e mortos. Mas isso vem crescendo significativamente agora. Devem estar ocorrendo em toda parte. Mas nós não temos registro e acesso à informação. Ainda”, afirmou.

Segundo ela, relatos indicam que parte do óleo está se enterrando na areia. “A mancha já pode ser detectada a alguns centímetros da superfície da areia. Isso era esperado, pois é o comportamento que foi registrado em outros eventos que atingiram praias”, explicou.

“Isso é extremamente preocupante, pois demonstra que esse óleo deverá permanecer na praia por algumas décadas, subindo e descendo no pacote sedimentar, mas com um movimento líquido para baixo”, completou.

De acordo com o último levantamento do Ibama, foram encontrados 107 animais oleados e 81 deles morreram. Foram 74 tartarugas marinhas, 22 aves e 11 animais de espécies diversas.

Secretaria de Justica e Direitos Humanos de Pernambuco / Divulgação

Esses dados, porém, são subdimensionados. “Desses 107 temos apenas vertebrados. Estamos falando de tartarugas, aves, golfinhos, animais de grande de porte que conseguiram ser vistos. Não se tem uma conta dos invertebrados ou dos vertebrados de menor porte. Então esse é um número que reflete apenas os chamados animais relacionados à megafauna marinha”, disse Flávio Lima, do projeto Cetáceos da Costa Branca, ligado à UERN (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte), que trabalha resgatando os animais afetados.

De acordo com pesquisadores da UFPE e da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), o óleo se decompõe em partículas microscópicas e afeta a alimentação de pequenos invertebrados. A descoberta foi feita após uma análise de uma baía habitada por corais na APA (Área de Proteção Ambiental) Costa dos Corais, na praia de Tamandaré (PE).

“Encontramos microfragmentos de óleo em torno de 2 milímetros nas amostras de plâncton”, afirmou Mauro de Melo Junior, professor do Departamento de Biologia da UFRPE e um dos coordenadores do estudo. “Da mesma forma que os micro e nanoplásticos estão entrando na teia alimentar marinha, acredito que já esteja ocorrendo com o óleo que chegou a nossa costa”, acrescentou.

Cláudio Sampaio/Ufal Penedo

O petróleo prejudicou ainda 11 das 16 principais áreas para aves migratórias na região, afetando as viagens dos animais. Um alerta sobre o assunto foi feito em uma carta assinada por 14 especialistas do Grupo de Assessoramento Técnico e colaboradores do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias.

“Essas aves têm um comportamento: se reproduzem no hemisfério Norte no verão deles, mas essas regiões congelam no inverno. Elas chegam lá e, em um intervalo de três meses, geram filhote, os alimentam e, assim que começa a esfriar, voltam. As aves começam a chegar por aqui em setembro e outubro”, afirmou o professor Renato Gaban-Lima, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Ufal (Universidade Federal de Alagoas).

A contaminação pelo óleo, no entanto, não afetou apenas os animais, mas também os rios. Óleo foi encontrado a 7 km da foz do rio Coruripe no dia 24. Em uma ação de limpeza, 75 kg do material foram retirados do rio e de suas margens.

Corais também foram atingidos. Amostras foram coletadas no estuário do rio Pium, que é berçário das espécies, a até 5 km mar adentro. As coletas foram feitas no dia 16 por equipe do Laboratório de Geologia e Geofísica Marítima e Monitoramento Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Manchas de óleo também foram encontradas em corais e sedimentos marinhos nos parrachos (conjunto de recifes de coral que formam piscinas naturais) de Pirangi do Sul, no litoral leste do estado. Havia óleo em corais a três metros de profundidade.

“Foram coletadas 30 amostras e em 28 delas havia indícios de óleo”, disse a pesquisadora Patrícia Eichler, professora visitante de geologia na UFRN e da pós-graduação em ciências ambientais da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), líder do estudo.

“Houve uma penetração nas camadas mais internas do solo marinho. O que isso acarreta é que não mata apenas a epifauna —que vive sob o fundo do mar—, mas também a infauna —que vive dentro do sedimento marinho a até 10 cm [de profundidade]. É um impacto ambiental violento”, explicou.

Em Alagoas, óleo foi encontrado por pesquisadores nos recifes do Pontal do Peba, que fica próximo à foz do rio São Francisco. O local é um estuário de espécies marinhas de grande importância.

Os mangues também foram afetados e a dificuldade para limpá-los é grande. Óleo foi encontrado em manguezais nas praias de São José da Coroa Grande, Tamandaré e Rio Formoso, em Pernambuco, e em outros estados, como Alagoas e Bahia.

Reprodução

“É muito difícil limpar o mangue. Ele é, talvez, o ecossistema mais vulnerável, pois não existe protocolo no mundo para retirar a contaminação. De suas raízes, não se consegue tirar, pois o óleo, quando chega à lama, acaba afundando e contaminando tudo”, disse Clemente Coelho, doutor em oceanografia biológica e professor da UPE (Universidade de Pernambuco).

O petróleo também matou milhares de mariscos em Feliz Deserto (AL). Os corpos dos animais foram encontrados na segunda-feira (28) por uma equipe da Ufal.

“Ainda chega pouco petróleo lá, mas suficiente para matar esses moluscos, que são parecidos com ostras, mas que aqui na região recebem o nome de massunim. Havia milhares de mortos lá”, contou o professor Cláudio Sampaio, da unidade Penedo da Ufal.

Pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisaram amostras de 38 animais entre peixes, moluscos e crustáceos, e encontraram óleo em todos eles.


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