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Tigres na Malásia enfrentam grave perigo de extinção

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Mark Rayan Darmaraj, cientista da WWF, passou quase 15 anos rastreando tigres na Malásia. Mas ele só viu uma vez um tigre-malaio, uma das cinco subespécies de tigres restantes do mundo.

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Foto: WWF Malaysia

Isso foi em 2009, e o animal estava em agonia. Preso na armadilha de um caçador, sua pata direita quase foi cortada. Darmaraj nunca esquecerá os rugidos de angústia do tigre e o medo em seus olhos.

“Testemunhar o sofrimento de um tigre invocou uma sensação de desgosto e choque”, disse à Al Jazeera Darmaraj, líder da WWF Malásia. “Eu me senti entorpecido por um tempo e comecei a pensar que salvar tigres era uma causa perdida.” A espécie está lutando para sobreviver ao desmatamento da floresta tropical, que é seu habitat, ficando cada vez mais vulnerável à ameaça dos caçadores.

Grupos conservacionistas estimam que restam menos de 250 tigres na Malásia, metade do que foi estimado há uma década quando o governo divulgou seu “Plano de Ação Nacional do Tigre” visando dobrar a população do animal até 2020.

“É o nosso emblema nacional. É para representar a coragem. Se deixarmos este animal escorregar, vamos mostrar que não tivemos coragem de proteger a espécie. Devemos aos nossos tigres-malaios a salvação de sua espécie e de seu habitat,” disse Damaraj.

Milhares de tigres habitaram vastas florestas da Península da Malásia, mas agora estão confinados principalmente a três áreas protegidas: Belum-Temengor, no norte, Taman Negara, no centro, e Endau-Rompin, no sul.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Florestal da Malásia mostrou que as florestas naturais do país diminuíram cerca de 200 mil hectares entre 2010 e 2015, uma área equivalente a quase o triplo do tamanho de Cingapura, localizada no extremo sul da Península da Malásia.

Os “corredores” florestais destinados a permitir que os tigres se movimentassem entre as principais selvas – um elemento crucial do Plano de Ação – também foram destruídos, enquanto a expansão das estradas madeireiras em áreas remotas da floresta tornou mais fácil para os caçadores explorarem áreas que antes eram inacessíveis.

O animal agora está à beira da extinção, de acordo com Kae Kawanishi, que lidera a Aliança de Conservação da Malásia para os Tigres, uma colaboração entre o governo e as ONGs da vida selvagem.

“Não há crise maior do que a extinção dos tigres na história da conservação da natureza na Malásia”, escreveu a bióloga em uma carta neste mês à mídia local. Ela estima que provavelmente só existam 150 indivíduos da espécie no mundo.

Neste momento, a Malásia tem cerca de 100 pessoas patrulhando suas florestas. Estas incluem guardas florestais empregados pelos estados onde os parques estão localizados, bem como patrulhas organizadas pela WWF que não estão armadas e não têm voz de prisão. Com poucos guardas no chão, a Malásia tem lutado para enfrentar os criminosos.

armadilhas circulares de ferro
Armadilhas encontradas nas florestas da Malásia. Foto: WWF Malaysia

“Absolutamente, sem dúvida, a prática da caça é uma crise”, disse Elizabeth John, da Traffic do Sudeste Asiático. São muitas armadilhas espalhadas, representando um risco não apenas para os tigres, mas também para suas presas, acrescentou ela.

“Essa espécie realmente não pode suportar mais problemas. Mas agora estamos descobrindo que sua principal fonte de alimento está desaparecendo. Definitivamente precisamos de muito mais pessoas para ajudar.”

Xavier Jayakumar, ministro dos Recursos Naturais, diz que o novo governo está negociando para que o exército passe a procurar armadilhas e capturar caçadores, uma medida que ajudou as populações de tigres no Nepal, onde a população dobrou, e na Índia, que contém a maior população de tigres do mundo. Os soldados podem estar em patrulha até o primeiro trimestre de 2019, disse.

“As negociações estão em pleno andamento e mostrando que poderemos chegar a um acordo”, disse Jayakumar. “Estamos falando de centenas de milhares de hectares de terra e terreno muito hostil, no que diz respeito a humanos. Quanto mais [soldados], melhor, mas tem que ser dividido em três áreas. Se eu conseguir 500 em cada dessas [áreas], então é um bom começo.”

Da exploração à conservação

Alguns governos estaduais da Malásia também começaram a tomar iniciativas para proteger as florestas – e a vida selvagem – dentro de suas fronteiras.

Depois de uma pressão exercida pela Rainforest Trust e Rimba, uma ONG local, o governo do estado de Terengganu declarou em agosto como área protegida 10.385 hectares de floresta tropical na fronteira nordeste de Taman Negara, o principal parque nacional do país.

Acredita-se que o Parque Estadual Lawit-Cenana abriga cerca de 12 tigres malaios, bem como outros animais ameaçados de extinção, como as antas-asiáticas e os elefantes-asiáticos, mas o espaço foi originalmente destinado à exploração madeireira.

No estado central de Perak, o governo comprometeu-se em novembro de 2017 a “proteger” o complexo florestal de Belum e a proteger os vínculos florestais vitais para garantir a sobrevivência do tigre.

A Declaração Real de Belum também prometeu implantar pelo menos três guardas florestais para cada 10.000 hectares de floresta e estabelecer uma “Equipe de Resposta Rápida bem equipada para acabar com a caça em Belum até 2020”.

A WWF informou que seus pesquisadores e guardas florestais encontraram 553 armadilhas em Belum-Temengor nos últimos cinco anos, período em que estima-se que o número de tigres caiu pela metade. E, certamente, ainda há muitas outras que não foram descobertas.

um tigre carregado numa maca. suas patas estão presas numa armadilha
Foto: WWF Malaysia

Evidências sugerem que os caçadores são, principalmente, estrangeiros vindos da Tailândia, Vietnã e Camboja, que alimentam um comércio ilegal sustentado por pessoas, principalmente na China e em outras partes da Ásia, que acreditam que consumir partes de animais ameaçados curará inúmeras doenças ou melhorará sua força e virilidade.

Operando em grupos de até 10 pessoas, os caçadores montam acampamentos improvisados ​​de bambu e lona, ​​às vezes gastando até quatro meses na selva. As armadilhas são baratas e fáceis de fazer, custando em torno de cinco dólares cada uma, de acordo com Jayakumar. Como tigres são animais territoriais, é relativamente fácil para os caçadores descobrirem onde posicionar as armadilhas.

Punição pelos crimes

Além de pressionar o governo a implantar mais guardas florestais, as ONGs têm trabalhado com investigadores e promotores para garantir que os caçadores não escapem dos seus crimes.

“Sem um sistema de legislativo eficiente, os infratores vão continuar cometendo crimes contra a vida silvestre”, disse Lam Wai Yee, da Rimba, que faz parte do projeto Justice for Silent Victims, cujo objetivo é aumentar as penas e multas nesses casos.

A iniciativa visa ajudar as autoridades a construir casos persuasivos, coletando melhores evidências no local e conduzindo interrogatórios mais eficazes com os suspeitos. Também se concentra na redução do comércio de animais selvagens e em punições adequadas aos criminosos.

Lam disse que dois juízes que participaram do esquema disseram que eles impuseram sentenças mais duras como resultado do que aprenderam.

As multas por crime contra a vida selvagem aumentaram sob o governo anterior para um máximo de 100 mil ringgits malaios, mais de 92 mil reais, e/ou uma pena de três anos. Mas Jayakumar diz que as leis mais rigorosas em relação ao comércio de animais selvagens devem ser apresentadas ao Parlamento até março.

Tais iniciativas foram tarde demais para o tigre que Darmaraj viu preso em 2009. Veterinários especialistas tentaram desesperadamente salvar o animal, mas ele morreu uma semana depois.

Conservacionistas esperam que uma ação decisiva agora garanta que os tigres restantes da Malásia não sofram o mesmo destino sombrio. “O tigre não é apenas mais uma espécie carismática”, disse Darmaraj. “Quando eu era criança, eu costumava ler livros que retratam o tigre como o rei da selva. Isso significa para mim, desde a infância e até agora, que os tigres são os protetores da floresta e de todos os seres que nela habitam.”

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