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Vítimas de caçadores, peixes-bois são salvos e levados para semicativeiro

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Quatro peixes-bois que viviam nos tanques do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia foram levadas para um lago seminatural em Manacapuru, no Amazonas — Foto: Ive Rylo/ G1 AM

O sol nem tomava o horizonte quando a “pequena” Anibá – uma fêmea peixe-boi de 100 quilos e 1,73 metros – já fazia “bagunça” no tanque do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), em Manaus. Na terça-feira (2), ela e mais três fêmeas – vítimas de caçadores – iniciaram uma nova jornada rumo à liberdade. Os animais deixaram os tanques do Instituto e foram levadas para um lago seminatural na zona rural de Manacapuru, município a 99 km de Manaus. A ação faz parte do programa de reintrodução de peixes-bois do “Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia”, realizado pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa).

De dentro do tanque, Anibá observava a movimentação da equipe do Inpa envolvida na terceira e última translocação do ano para o semi cativeiro. Com 8 anos e medindo 1.73 metro, ela e Poraquequara são as mais velhas do grupo. Anibá veio do município de Silves, a 206 km da capital, após ser encontrada às margens do rio, sozinha, perdida da mãe que havia sido caçada.

Na capital, ela ficou por 2 anos no tanque com as outras fêmeas resgatadas, até obterem as características e habilidades importantes para a transferência para o semi-cativeiro e, em seguida, serem liberadas para a natureza.

“Aqui vai ter, mais ou menos, as mesmas condições da natureza e a gente espera que se adaptem da melhor maneira possível. Depois, vamos recapturar todos os animais para avaliar”, disse o veterinário Anselmo Fonseca.

Anibá de 8 anos e 119 quilos fez festa durante a soltura, em lago no interior do Amazonas — Foto: Ive Rylo/ G1 AM

No semi cativeiro – Lago do Belarmino, que fica na Fazenda Seringal 25 de Dezembro, localizada na área rural de Manacapuru, – elas devem ficar por, pelo menos, por um ano.

“É uma etapa anterior à soltura definitiva. Aqui, vamos saber quais animais vão se readaptar ao novo ambiente de uma forma mais lenta. Eles vão ter contato com alimento natural, temperatura, transparência da água. Vão ver outras espécies como quelônios e outros peixes. Espero que os animais possam se adaptar e, aí sim, os candidatos selecionados vão ser devolvidos definitivamente na natureza”, explicou o responsável pelo programa de reintrodução dos peixes-bois do INPA, o biólogo Diogo Souza.

As fêmeas – Anibá, Ajuricaba, Puraquequara, Iúna – têm em média 100 quilos e idades entre 3 a 8 anos.

Oito anos após ser resgatada e “muitos quilinhos a mais”, Anibá estava pronta para passar para a adaptação do semi cativeiro.

Antes das 5h da manhã, uma equipe do Inpa se aglomerou ao redor do tanque para transpor as fêmeas do tanque para o caminhão. Retirar as “meninas” do fundo do tanque não foi tarefa fácil. A “euforia” de Anibá exigiu certa paciência e força dos dois tratadores que a tiveram que colocá-la em uma maca e levantar nada menos que 119 quilos.

Na borda do tanque, outros cinco homens ficaram responsáveis por segurar e acomodá-la em colchões dentro de um caminhão. Foi assim com as outras três mamíferas. A caçula, Iúna, foi a última a entrar no caminhão e – ao contrário de Anibá, que se agitou com toda a movimento antes mesmo do raiar do sol – atravessou o tanque e entrou sozinha na rede.

Antes das 5h da terça-feira (2), as peixes-bois foram transferidas do tanque no Inpa para um lago no interior do Amazonas — Foto: Ive Rylo/ G1 AM

A caçula foi batizada pelos alunos do 6º ano da Escola Estadual Nilo Peçanha durante a Campanha “Peixe-boi sem nome não tem graça” realizado pelo Inpa, no final de setembro. O nome significa “águas negras” e tem a origem na língua Tupi.

Às 5h22 os animais deixaram o Inpa, local onde moraram nos últimos anos. Dentro do caminhão, elas seguiram viagem pela AM 070 até chegar a fazenda. Um comboio com a equipe de pesquisadores e imprensa acompanhou o trajeto.

Dentro do caminhão, o tratamento foi Vip. Além do colchão, elas eram molhadas com água para hidratar e estavam cobertas por uma toalha, para manter a temperatura.

A viagem teve que ser lenta em alguns pontos onde a estrada permanece sem asfalto. No quilômetro 72, uma parada rápida antes de entrar no ramal do Calado e percorrer os últimos 10 km de estrada de chão batido, antes do tão esperado “tibum” no lago. Às 7h13, a espera chegou ao fim e Anibá pode voltar a um ambiente muito parecido com o que tinha no município de Silves, quando foi separada de sua mãe.

Dentro do lago, ela deu aos pesquisadores uma última palinha do que mais gosta de fazer, jogar água para cima molhando quem estiver perto. A bagunça arrancou aplausos da equipe confiante na adaptação dela no novo lar.

A vida no semicativeiro

No lago, os peixes-bois terão o acompanhamento semanal da equipe. Um vez por ano, elas são capturadas para passar por uma bateria de exames e, se estiverem aptas, serão soltas no rio.

“A gente coleta o sangue, analisa as fezes, o peso, o crescimento e ai dentro dos critérios estabelecidos pelo projeto, a gente seleciona os animais mais aptos para a soltura. De todos os animais que a gente trouxe, apenas uma fêmea teve dificuldade de se adaptar às condições do rio e tivemos que levá-la de volta pro cativeiro. Os animais têm comportamentais condições individuais. Trouxemos 40 animais para cá e só um animal não se adaptou”, disse o biólogo Diogo Souza.

De acordo com o biólogo, apesar do peixe-boi ser protegido na Amazônia desde 1967, a caça ainda ocorre. Por isso ele é uma espécie em extinção.

“Tanto a caça quanto o comércio é ilegal. O que a Ampa em parceria com o Laboratório de mamíferos aquáticos do Inpa busca, é mudar um pouco as gerações com a atividade da educação ambiental, para que possamos no futuro ter o peixe-boi”, disse Souza.

A espécie é endêmica na região Amazônica e sua caça ocorre desde o período da colonização no Brasil. “A carne dele é muito apreciada. É um animal grande, oferece grande quantidade de carne e por ser uma délicatesse na região ele é bastante caçado”, afirmou.

Ele lembrou que a espécie é importante para o equilíbrio dos rios da Amazônia.

“Ele é o maior herbívoro dos rios, se alimenta de plantas aquáticas e consegue controlar toda a biomassa de macrófitas aquáticas que tem no rio. Além disso, a gente considera ele um fertilizador das águas da amazônia, porque pelas fezes e urina ele libera vários nutrientes para espécies menores que são a base da cadeia alimentar. Se ele desaparecer da Amazônia a gente vai ter um prejuízo bem grande”, salientou.

Mamíferas estavam em ranque no Inpa ha dois anos. Elas foram resgatadas da pesca ilegal pelo “Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia”, realizado pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa); AMazonas — Foto: Ive Rylo/ G1 AM

Sobre o projeto

Nos últimos três anos, 19 peixes-bois foram devolvidos para a natureza. Com os 12 animais transferidos para o semi-cativeiro em 2018, há agora 25 indivíduos que estão sendo acompanhados e após adaptação gradual e lenta devem ser soltos no rio, em 2019.

Neste ano, o Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia, “Programa de Reintrodução de Peixes-bois” completou 10 anos. Ele recebe o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, renovado neste ano (2018). O projeto é executado pela Associação Amigos do Peixe-boi – AMPA e tem como principais objetivos resgatar, reabilitar e reintroduzir peixes-bois (Trichechus inunguis) aos rios da Amazônia, além de auxiliar o projeto Boto do Inpa.

Fonte: G1

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