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Vetada por lei, cirurgia mutiladora é danosa a animais

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Muito comuns até o início da década de 2000, as cirurgias de corte de cauda e de orelhas, em cães, e de extração das unhas, nos gatos, têm se tornado cada vez menos frequentes. Consideradas mutiladoras, já que são feitas com finalidade meramente estética, já foram proibidas por decreto federal que completa, neste ano, dez anos.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Além de interferir na expressão natural dos animais, caudectomia, conchectomia e onicectomia, como são, respectivamente, denominadas, podem deixar sequelas, alertam médicos veterinários.

Presidente da Comissão Nacional de Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Cassio Ricardo Ribeiro reforça que são proibidas as intervenções que não têm indicação profissional.

“Ao entender que são procedimentos desnecessários para o animal, cai por terra qualquer tentativa de justificá-los. O animal precisa expressar suas características naturais, como balançar a cauda, arranhar e latir”, comenta o veterinário, mencionando, ainda, a cordectomia ou remoção das cordas vocais – um dos procedimentos vetados no decreto do CFMV.

Expressão natural

Cadela da raça schnauzer (uma das mais populares quando o assunto é o encurtamento do rabo), Nina, de 4 anos, não foi impedida de expressar alegria nem medo, por exemplo, ao balançar a cauda. Tutora do animal, a arquiteta Maria Carolina Couri, de 33 anos, conta que a adotou aos 8 meses e optou por não fazer a cirurgia.

“O rabo é um componente importante para o cão, pois é por ele que se comunicam e expressam sentimentos. Uma vez, descobri que a Nina não estava se sentindo bem porque começou a andar com o rabinho baixo”, lembra a arquiteta, que teve outro cão da mesma raça, cuja cauda foi cortada.

A designer gráfico Érica Maldonado Galassi, de 28 anos, compartilha da mesma percepção ao observar o comportamento dos cães que tem em casa. “É visível a diferença entre o Chico (mestiço de sheepdog e schnauzer), os vira-latas e a poodle, que quase não têm rabo. Quando estão felizes, chacoalham desesperadamente os rabos; com medo, colocam-nos entre as patas. Já com a Belinha (poodle) só percebemos alguma demonstração de medo quando ela fica encolhida”, detalha Érica.

Presidente do Clube Mineiro de Rottweiller (RottMinas), Márcio da Silva Pinto é tutor de nove animais, incluindo um cuja idade é exatamente a mesma da resolução publicada pelo CFMV. Assim como os demais cães, Jecki, de 10 anos, teve a cauda mantida – decisão pessoal adotada por Márcio.

“A mudança de comportamento é nítida. Fora a manifestação de alegria, que fica prejudicada, tem a questão do equilíbrio. Com certeza faz diferença na vida do animal”, afirma o criador.

Intervenções podem gerar dor permanente e levar à morte

Quando realizadas com finalidade puramente estética, as cirurgias consideradas mutiladoras prejudicam não só a expressão do comportamento natural dos animais, como podem ocasionar sequelas graves e dolorosas por toda a vida, levando, inclusive, à morte.

Prolongamento da coluna vertebral, a cauda, por exemplo, quando retirada ou encurtada após três dias de nascimento do cão pode provocar sensibilidade e dor. “É uma parte do corpo extremamente sensível, cheia de terminações nervosas”, justifica o médico veterinário Cassio Ricardo Ribeiro, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do CFMV.

Ele explica, ainda, que até os três meses, fase em que os tutores buscavam a cirurgia, o fígado do animal não está completamente formado e, portanto, não metaboliza perfeitamente medicamentos usados para evitar dor ou antiinflamatórios.

Outro procedimento bastante arriscado é a remoção das cordas vocais. De acordo com o presidente do CRMV-MG, Bruno Divino Rocha, há risco, inclusive, de morte. “Já acompanhei casos de cirurgias mal-sucedidas em que o animal teve pneumonia e acabou morrendo. Outro malefício é a perda da capacidade de comunicação e de demonstrar dor ou fome, por exemplo”, reforça o profissional.

No caso do corte de orelhas, há risco para a saúde auditiva do animal, cujos ouvidos ficam mais suscetíveis a infecções. “Cada curvinha do ouvido serve para direcionar o som para dentro do canal auditivo. Se a cirurgia é realizada, não conseguimos quantificar, mas em algum grau haverá perda da capacidade de ouvir”, completa Rocha.

Se denunciados ao Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), profissionais que realizarem os procedimentos sem justificativa clínica podem sofrer processo ético-profissional. Caso a intervenção seja feita por outro profissional que não seja veterinário, o autor pode responder por crime ambiental e exercício ilegal da profissão, ambos com previsão de detenção e multa.

Um estudo realizado com tutores de gatos e publicado no Journal of Feline Medicine and Surgery mostrou que animais cujas unhas haviam sido extraídas mostravam-se mais agressivos e desobedientes. Conforme a pesquisa, os gatos eram sete vezes mais desobedientes em relação a fazer xixi e cocô no lugar certo. Além disso, mordiam quatro vezes mais, eram três vezes mais agressivos e comiam ou lambiam os próprios pelos numa frequência três vezes superior em relação aos animais com unhas mantidas.

“Cirurgias como essas prejudicam não só a relação do animal com o tutor, mas a comunicação deles com os outros animais”, reforça o presidente do CRMV-MG, Bruno Divino Rocha.

Fonte: Hoje Em Dia

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