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A abolição tarde demais

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Muito oportuna a reflexão sobre ex-carnivorismo e apego ao ovo ou ao leite.

Tenho escrito algumas coisas sobre a saúde ou, melhor, a falta de saúde de muitas pessoas por ingerirem cadáveres e secreções tiradas de fêmeas em estado de agonia sem fim (leite e ovos), hoje carregados de compostos glifosatados. Os animais estão em agonia, silenciados, escondidos nos galpões, nas baias, nas baterias e mesmo espalhados nos campos. Mas as pessoas não se importam muito com o sofrimento deles.

Como funciona a mente de uma pessoa que, por exemplo, deixou de comer algum tipo de carne há mais de 30 anos, mas segue comendo queijo, manteiga, creme de leite, leite, leite condensado e todos os bolos, tortas, bolachas, pizzas e sobremesas feitas com laticínios e ovos, até hoje? Funciona deste modo: há mais de três décadas a pessoa segue atrelada ao mesmo sistema dietético, moral, econômico e político do qual pensa ter se libertado, tirando do prato apenas algum tipo de carne, mas mantendo o padrão básico da dieta animalizada. Deixar de comer apenas um tipo de alimento animalizado não ajuda em nada a pessoa a desapegar do padrão da matança. E se a pessoa não desapega, ela segue especista, escolhe que é mau matar o bovino e o porco, mas não é matar a galinha, o bezerro e a vaca, no caso de seguir comendo ovo e leite.

Deixando sua energia moral vazar por conta do apego ao gosto de certos alimentos, a pessoa não toma a decisão mais radical, a de tornar-se abolicionista pelos animais, vegana.

Para se proteger da consciência que lhe diz que sua decisão ficou no meio do caminho, a pessoa espera que “o mundo”, “o sistema”,”o Governo”, sempre “os outros” mudem antes de ela ter mudado. Quer dizer, ela espera ser arrastada pela correnteza para a mudança que ela é capaz de fazer por si mesma.

Se uma pessoa segue por décadas à espera de que primeiro o sistema, a sociedade, a família, a escola, a empresa mude sua dieta, as vacas e bezerros seguem torturados, por conta da afirmação desavisada e desinformada de que “para tirar o leite não mata a vaca”, e para “expelir o ovo a galinha não morre”. A falsa conclusão de que só para extrair carnes é que os animais são mortos.

Ovo e leite matam sim. Todas as vacas das quais foi extraído o leite em 2014 já estão mortas, e as que ainda não estão estarão mortas até final de 2018, após sofrerem a tortura das inflamações contínuas em sua mama, em seu sistema digestório, em suas patas, em suas ancas, e após terem sido exauridas por sucessivas gestações e pelo sofrimento do rapto de seus bebês recém-nascidos. Todas as galinhas que puseram os ovos que alguém comeu em 2016 já estão mortas, com raríssimas exceções que não representam o “sistema” de ovulação industrial.

Enfim, essas fêmeas são degoladas depois de anos de tortura física e psíquica, sofridas enquanto estão a fornecer o leite e o ovo. A galinha não resiste expelindo ovos por mais de um ano. Forçam-na a ovular de 275 a 290 vezes em um ano, quando naturalmente não ovularia mais de 30 vezes em um ano. Quando ela exaure, matam-na, degolando-a, como fazem com os frangos usados para extração de carnes. A diferença é que estes foram degolados aos 45 dias de vida miserável, na qual só respiraram amônia, e elas sofrem a degola depois de 500 dias de tortura sem fim, na qual respiraram amônia e Fipronil (usado para combater os piolhos e afins que se multiplicam com o confinamento de dezenas de milhares de aves no mesmo espaço).

A vaca é estuprada e torturada por quatro a seis anos (hoje mais para quatro do que para seis) e pelo menos a metade dos bezerros que nascem dela neste curto período de sua adolescência também seguem para a câmara de sangria, triturados para ração de cãezinhos e gatinhos escolhidos para estima, ou deixados em masmorras por cinco meses para serem mortos em seguida e suas carnes serem servidas esbranquiçadas e macias (vitela).

As pessoas se ligam ou se apegam muito ao sabor das coisas que comem, feitas com leite, com carnes, com queijos e com ovos. E daí, para lidar com o vício causado pela morfina que está no leite e nos derivados do leite da vaca, só mesmo a vontade ética (oposto da vontade compulsiva) para segurar a “síndrome de abstinência” que pode atacar furiosamente nos primeiros dias da abstenção, quando deixa de comer tudo o que contém caseína e betacasomorfina (leite e derivados). É, livrar-se da morfina do leite parece ser um desafio. Mas pelos animais não é impossível. Quantos cafeinômanos, quantos cocainômanos, quantos fumantes, quantos alcoolistas conseguem parar seu vício sem uma boa razão? Um em um milhão, talvez.

Nós, veganas, paramos sem sofrimento, embora passando por alguns momentos desconfortáveis. Esses não se comparam ao sofrimento das vacas e das galinhas. Mas se a pessoa pensa em mudar sua dieta animalizada somente para melhorar sua saúde, ela não liga para o calvário dos animais. E, da perspectiva ética, é o calvário dos animais que importa. O foco é ético. Permanecer no foco dietético, dominado pela propaganda medicinal de alimentos animalizados, mantém a pessoa no engano, e sua saúde indo por água abaixo, enquanto as empresas de carnes, laticínios, ovos, venenos e drogas legais tornam-se poderosas e derrubam governos com sua atividade de venda de alimentos animalizados e drogas, enganando os esganados e concluindo sua arte ecocida.

A decisão de abolir todos os alimentos animalizados tem que ser ética, não pela própria saúde, porque esta inspiração da própria saúde tem se mostrado fraca. A maioria das pessoas estão se lixando para a própria saúde. Elas querem uma pílula mágica, prescrita pelo médico, para tirar das células do corpo delas o lixo que elas jogam ali todos os dias através da dieta omnis vorax mortal, que já poderiam ter abolido há décadas.
Animastê sempre!

* Autora dos livros:
Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas
Acertos abolicionistas: a vez dos animais
Galactolatria: mau deleite.

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