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Kaziranga: o parque que atira em pessoas para proteger rinocerontes

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Guardas como Avdesh e Jibeshwar têm poder de atirar em invasores do parque (Foto: David Reid)

Guardas de uma área de proteção na Índia defendem a vida selvagem disparando tiros fatais contra caçadores suspeitos.

O parque nacional de Kaziranga tem um histórico de sucesso em conservação. Há um século, o número de rinocerontes de um chifre não passava de cinco na região do Assan, no extremo leste do país. Agora existem mais de 2,4 mil – dois terços da população do animal no mundo inteiro.

Mas a maneira como o parque protege seus animais divide opiniões. Seus seguranças têm poderes de atirar e matar normalmente garantidos apenas a forças policiais.

O resultado é a morte, em média, de duas pessoas por mês – mais de 20 por ano. Em 2015, mais suspeitos foram mortos por guardas do parque do que o total de rinocerontes mortos por caçadores.

Mercado lucrativo

Um chifre de rinoceronte custa caro Vietnamita ou na China, onde são vendidos como a cura milagrosa a diversos males, do câncer à disfunção erétil.

Vendedores de rua cobram o equivalente a até R$ 14 mil por 100 gramas de chifre – o que torna o produto mais caro que ouro. Os rinocerontes da Índia têm chifres menores que os africanos, mas aparentemente são vendidos como mais potentes.

Eu perguntei a dois guardas de Kaziranga quais procedimentos eles devem adotar caso encontrem caçadores no parque.

“A instrução é: sempre que você vir caçadores, use suas armas para caçá-los”, explica um deles sem hesitação.

“Você atira neles?”, questionei.

“Sim, a ordem é matá-los. Sempre que forem vistos caçadores ou qualquer pessoa durante a noite, a ordem é atirar neles.”

O guarda conta que atirou em pessoas duas vezes nos quatro anos em que tem essa função no parque, mas nunca matou ninguém. Mas ele sabe que, se tivesse matado, a chance de sofrer punições seria baixa.

O governo deu aos guardas de Kaziranga poderes que lhes permite proteção contra ações judiciais em caso de mortes. Críticos dizem que, com isso, os guardas estariam sendo instruídos a realizar “execuções extrajudiciais”.

Mas conseguir dados sobre o número de pessoas mortas ali é difícil. “Nós não guardamos todos os registros”, diz um oficial sênior do Departamento de Florestas da Índia, que controla os parques nacionais.

O diretor do parque de Kaziranga, Satyendra Singh, recebeu a reportagem num imponente prédio colonial onde funciona a sede do parque.

Singh fala das dificuldades de controlar caçadores, explicando que as gangues de caça costumam recrutar pessoas da região para ajudá-las a entrar no parque. Os atiradores, no entanto, vêm de outros Estados do país.

“Primeiro fazemos a abordagem: ‘quem são vocês’?”, diz Singh, sobre as regras de aproximação entre guardas e caçadores. “Mas se eles decidirem disparar, nós temos que matá-los. A prioridade é tentar prendê-los, para que possamos obter informações sobre as gangues.”

Ele revela que 50 caçadores foram mortos nos últimos três anos.

Duas vacas

Para Singh, o número de moradores locais recrutados pelo mercado de chifres de rinoceronte cresceu – mais de 300 locais estariam envolvidos na prática, estima.

Já para os moradores, grupos tribais que vivem na floresta há séculos, o aumento da taxa de homicídios se tornou um grande problema. Eles dizem que o número de inocentes assassinados está crescendo.

Em uma dessas vilas às margens do parque vive Kachu Kealing e sua esposa. O filho deles, Goanburah, foi baleado por guardas florestais em dezembro de 2013.

Goanburah procurava as duas vacas da família. Seu pai acredita que elas entraram na área do parque e que seu filho – que tinha distúrbios graves de aprendizagem – também entrou para buscá-las. Esse é um erro comum, já que não há cercas demarcando o perímetro da reserva.

As autoridades do parque, por sua vez, dizem que os guardas dispararam contra Goanburah porque ele não respondeu à abordagem.

Kachu Kealing acha que não pode fazer nada sobre o caso, especialmente por causa da proteção que os guardas têm contra processos judiciais. “Eu não entrei na Justiça. Sou um homem pobre, não poderia pagar por isso.”

Os esforços de preservação focam em algumas espécies consideradas emblemáticas na Índia. Rinocerontes e tigres se tornaram símbolos nacionais. Além disso, Kaziranga atrai por ano mais de 170 mil visitantes que contribuem com a economia local.

Em 2013, quando o número de rinocerontes mortos por caçadores mais do que dobrou, somando 27, políticos locais pediram ação.

O antigo diretor do parque, MK Yadava, detalhou num relatório sua estratégia para combater a caça em Kaziranga.

Ninguém sem autorização poderia entrar, disse. E qualquer um descoberto na área do parque deveria “obedecer ou ser morto”. Ele recomendou que “matar os indesejados” deveria ser o princípio orientador dos guardas.

Yadava ainda explicou sua crença de que crimes ambientais, incluindo a caça, são mais graves que assassinato: “Eles corroem silenciosamente a raiz da existência de todas as civilizações da Terra”.

De 2013 a 2014, o número de mortes de supostos caçadores subiu de cinco para 22. Em 2015, 23 pessoas perderam a vida, contra 17 rinocerontes no mesmo período.

Em julho do ano passado, Akash Orang, de 7 anos, ia para casa pelo principal caminho de sua vila, que contorna o parque.

Sua voz vacila quando se lembra do que aconteceu. “Estava voltando das compras. Os guardas florestais estavam gritando ‘Rinocerontes! Rinocerontes!'”. Ele fez uma pausa. “De repente, eles atiraram em mim.”

O tirou atingiu sua panturrilha direita. Akash ficou internado por cinco meses e foi submetido a várias cirurgias. Hoje ele mal consegue andar. Seu irmão mais velho tem que carregá-lo até à venda local.

Seu pai, Dilip Orang, diz que Akash está diferente. “Ele era alegre, mas não é mais. Ele acorda à noite com dor e chora, pedindo a atenção da mãe”.

O parque admite que cometeu um erro terrível. Pagou pelas despesas médicas e deu à família cerca de 200 mil rúpias (R$ 9,2 mil) em compensação. Isso não é muito se considerada a gravidade de suas lesões, diz o pai, preocupado que seu filho não consiga ganhar a vida sozinho no futuro.

O caso de Akash comoveu os moradores do vilarejo, se transformando no estopim da grande inquietação diante do número crescente de mortes. Centenas protestaram na sede do parque.

Fonte: G1

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  1. Perfeito. Nada mais eficaz. Cidadãos de bem não portam armas e/ou invadem parques nacionais. Somente implantando medidas “drásticas” como essa é possível reverter a matança de rinocerontes pela cobiça humana. No parque nacional Kruger (África do Sul) os guardas florestais não podem atirar nos caçadores, somente revidá-los e, como consequência, mais de 500 rinocerontes são mortos todos os anos. Botswana faz o mesmo sobre seus elefantes, esta tolerância zero está revertendo os números de elefantes neste país. A situação atual destes animais emblemáticos é digno de um holocausto. Sempre tem aqueles inocentes que pensam que estão matando “pais de família desempregados e desesperados por alimentar seus amados filhos”. A visão romântica da bandidagem!.

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