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Abandono de animais é cada vez mais frequente em Macau, na China

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A presidente da Associação de Protecção dos Animais Abandonados de Macau considera que há muito o que fazer em relação a legislação e conscientização em relação aos animais (Foto/Divulgação)
Yoko Choi diz que ainda há muito o que fazer em relação a legislação e conscientização em pró animal (Foto/Divulgação)

A presidente da Associação de Proteção dos Animais Abandonados de Macau considera que o território está ainda numa fase inicial no que respeita à defesa dos direitos dos animais, havendo sobretudo uma falha grave ao nível da educação. Yoko Choi considera que algumas medidas na Lei de Proteção dos Animais são abstratas pelo que são precisas melhorias. Para a responsável, o volume de casos de maus-tratos e de abandono de animais tem crescido nos últimos anos, pelo que esta lei deve ter poder de dissuasão.

Viviana Chan

– Várias associações defensoras dos direitos animais têm feito ações de sensibilização na cidade. Isso tem contribuído para que as pessoas fiquem mais conscientes em relação à importância de não abandonarem os animais?

– A situação do abandono de animais em Macau tem-se agravado. O número de casos está sempre crescendo. Há cada vez mais pessoas defendendo os direitos animais, mas isso não significa que o volume de casos de abandono se tenha reduzido.

– Porquê?

– As pessoas não pensam bem antes de ter um animal em casa e isso, muitas vezes, leva a situações de abandono. Em muitos países, em vez de treinarem apenas os animais, são dadas aulas aos tutores ou possíveis tutores. Há instituições que ajudam as pessoas a perceber porque querem ter um animal doméstico e como podem manter uma relação longa com ele.

– Há uma falha nas políticas nesse âmbito?

– Macau ainda está numa fase inicial de legislação sobre os direitos animais. Normalmente é muito fácil ter um animal em casa, basta ter dinheiro para adquiri-lo. Nesse sentido, as pessoas facilmente podem desistir dele. No sistema da RAEM, não é preciso fazer muita coisa para abandonar um animal legalmente. Por outro lado, é preciso dizer que, quando as pessoas encontram dificuldades, não recebem qualquer apoio para manter os animais domésticos. Se tiverem tempo, aconselho toda a gente a visitar o Canil Municipal. Antigamente, nove em cada 10 cães abandonados eram rafeiros, normalmente oriundos dos estaleiros de construção. Hoje em dia, já é possível encontrar cães de raça e até espécies raras. Por exemplo, já é possível encontrar cães no canil que custam pelo menos 10.000 patacas.

– Porque é que as pessoas abandonam cães adquiridos a um preço tão elevado?

– Para começar, é uma questão de irresponsabilidade. As pessoas podem querer comprar os animais apenas para os mostrarem aos outros e depois descobrir que é muito aborrecido por terem de estar sempre atentos, terem de os levar à rua a passear, terem de os alimentar ou mesmo brincar com eles. Quando não podem ou não querem fazer estas coisas, abandonam-nos.

– A Lei de Proteção dos Animais vai entrar em vigor em Setembro. Isso pode ajudar a reduzir o número de casos de abandono?

– O diploma prevê que as pessoas têm de preencher um formulário e pagar uma multa, mas o valor da multa não é elevado, pelo que o seu poder de dissuasão é fraco. Portanto, penso que a Lei de Proteção dos Animais pode ter algum efeito, mas não muito. O mais importante é educar as pessoas. Na nossa associação, se alguém quiser adotar um animal, não o pode fazer de imediato. Primeiro, pedimos à pessoa que o visite no centro pelo menos durante duas ou três semanas. Este prazo de adaptação e passagem é importante para a pessoa perceber se gosta mesmo da personalidade desse animal. Ao mesmo tempo, damos informações sobre como lidar com situações que podem ter lugar no futuro, como por exemplo a disponibilidade para gastar dinheiro em veterinários.

– Recentemente um jovem de Macau matou três gatos em Taiwan, o que gerou muitas críticas tanto lá como na RAEM. Como vê esta situação?

– O Governo de Macau quer avaliar os animais com mais de 23 quilos para perceber se são agressivos com as pessoas; pelo contrário, uma pessoa é agressiva com um gato e pode andar em qualquer lado. Isso é preocupante.

– As pessoas denunciam cada vez mais casos de maus-tratos a animais?

– A situação dos maus-tratos tem-se agravado em comparação com antigamente. Há pouco tempo recebemos na associação gatos que tinham sido mal-tratados. Tinham sido agredidos com força suficiente para partir alguns ossos. Houve também o caso do tutor de um cão que não lhe dava nem comida nem água e o animal acabou por falecer na varanda. A denúncia foi feita pelos vizinhos. Estes casos são graves. A nossa associação foi criada em 2004 e o número de denúncias de casos deste gênero tem aumentado. A subida ao nível do volume de queixas deve ter subido entre 20% e 30%, de 2004 a 2016.

– Seis associações realizaram ações a manifestar-se contra a obrigatoriedade de avaliação dos cães com mais de 23 quilos por parte do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) para verificar se é necessário o uso de açaime. O organismo deu recentemente novas explicações. Está satisfeita com a resposta?

– A avaliação do IACM é exigente demais. Não concordamos com os critérios. Para avaliar cães “normais” são usados como modelo cães treinados para dar apoio a idosos ou a crianças autistas. Estes animais não podem ser nada agressivos. Testamos cães que se dão bem conosco mas que depois desta avaliação já têm medo e não se querem aproximar. Cães tocados por pessoas estranhas vão acabar por temer ainda mais desconhecidos na rua. Por isso, concluímos que esta avaliação não faz nada bem aos cães. Quanto à resposta do Governo, o IACM apresentou um vídeo mas temos algumas dúvidas. Em primeiro lugar, porque o IACM não o apresentou logo na primeira sessão de esclarecimento. Por outro lado, reparamos que o cão no vídeo sente muita familiaridade com a pessoa que o está a avaliar e, por isso, obviamente não tem medo do teste. Isso pode ser injusto porque os cães têm personalidades diferentes. Na minha opinião, basta que os animais sejam controlados pelos responsáveis. Não deve ser obrigatório o uso de um açaime.

– De que forma a avaliação podia ser mais justa?

– Os testes podem ser diversos. Por exemplo, pode-se levar o cão para a rua e ver se o responsável consegue controlar o animal num espaço público. Outra prova pode decorrer no elevador, saber se o cão consegue estar com outras pessoas que não conhece. Como um deputado apontou, é possível um cão atacar uma pessoa num elevador, por isso, este pode ser um dos testes.

– As pessoas estão mais conscientes sobre a questão da proteção dos animais, agora que uma Lei vai entrar em vigor?

– O diploma não é muito claro, tal como acontece com outros documentos do Governo. Algumas medidas continuam a ser demasiado abstratas e não permitem uma previsão do que vai acontecer quando a legislação for implementada ou os problemas que dela podem advir.

– Como por exemplo…

– A Lei de Proteção dos Animais tem uma parte sobre a libertação. O diploma prevê que as pessoas têm de entregar um pedido com 15 dias de antecedência, mas não se sabe como este requerimento deve ser apresentado ou quais as informações que temos de declarar. As pessoas agora libertam marisco, caranguejos, ou peixe. É preciso ter instruções sobre os locais onde podemos libertar os animais.

– O que pode mudar com esta Lei?

– Antigamente, se identificássemos alguém que estivesse a maltratar um animal, chamávamos a polícia, mas as autoridades não podiam fazer nada. Agora podem. O poder de dissuasão aumentou muito. As pessoas sabem o que lhes pode custar se maltratarem um animal.

– O que falta fazer na RAEM, em comparação com o que é feito noutras regiões?

– As pessoas de Macau ainda não têm muitos conhecimentos sobre os animais. Apenas no âmbito do plano de desenvolvimento contínuo há uma formação sobre animais. Parece-me que o Governo não quer promover a educação neste campo. No ensino não-superior não há conteúdos sobre os animais. Posso dar um exemplo: na Alemanha, no jardim de infância, ensinam as crianças a ter contato com os cães, explicam-lhes que devem ter as mãos esticadas para a frente e olhar para baixo. Aqui, nem os legisladores devem saber que olhar os cães diretamente nos olhos é um ato provocativo.

– As chamadas “fábricas de reprodução”, como há em Hong Kong, foram noticiadas várias vezes sobretudo devido às más condições. Macau também tem esta situação?

– Sim, acredito que sim. Os comerciantes podem ter uma fábrica onde reproduzem os cães de raças mais caras. Não devemos vender os animais. Por isso, na associação apelamos a que as pessoas adotem em vez de comprar. Os cães nesses locais são tratados como autênticas máquinas reprodutoras. No futuro, devemos também criar um regime de licenciamento para este gênero de estabelecimento e aplicar regras restritas a estes espaços em termos do tamanho, por exemplo.

– As condições meteorológicas de Macau são caracterizadas por muita umidade e calor no verão, mas vêem-se cá muitas raças oriundas de zonas tipicamente frias. Porque é que as pessoas querem aqui esse gênero de animais?

– Os cães que devem viver em zonas onde neva muito, sem dúvida, não devem viver em Macau. Um especialista na matéria norueguês ficou surpreendido por ver certo tipo de cães à venda na RAEM. Mostrou a mesma reação quanto a Hong Kong e outras cidades asiáticas. As pessoas gostam de ter animais bonitos. A aparência dos cães importa muito. No estrangeiro, por vezes, quem vende os animais pede mais informação sobre os compradores. Isso é o melhor para ambas as partes.

– De onde vêm os animais colocados à venda?

– Além de existirem as chamadas “fábricas de reprodução”, algumas pessoas transportam um animal na mala, vindos de Gongbei. Dão um medicamento para que o cão adormeça e acomoda-o. Há muitos vendedores na fronteira com Zhuhai, mas isso é perigoso porque estes cães normalmente não têm uma saúde boa e podem ficar doentes facilmente.

-O Canídromo de Macau poderá ter de fechar em dois anos. Isso é positivo?

– Há outro tipo de preocupações que advém do encerramento do Canídromo. Para onde vão os galgos? E os trabalhadores? Essas questões têm sempre dois lados.

– A Associação dos Animais Abandonados de Macau tem organizado vários protestos com o objetivo de defender a aprovação da legislação e contra algumas sugestões do Governo. Há um problema de comunicação?

– É óbvio que há má comunicação entre as associações e o Governo. O Executivo costuma chamar as associações para encontros alegando que quer ouvir as nossas opiniões mas acabamos por sentir que elas são apenas ouvidas e não respeitadas pelo Governo.

*Esta notícia foi escrita, originalmente, em português europeu e foi mantida em seus padrões linguísticos e ortográficos, em respeito a nossos leitores.

Fonte: Tribuna de Macau

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