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Do prazer de sentar nas costas de uma vaca

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sofá de couro
Foto: Marcio de Almeida Bueno

A estofaria é em uma casa antiga, no Centro Histórico de Porto Alegre, onde há prédios pequenos e casarões de uma outra época. As portas ficam abertas, então os poucos que passam na apertada calçada podem ver o que está sendo montado e o que já está pronto e exposto, em meio ao maquinário e serragem. Emoldurado por uma porta antiga, um sofá feito com o couro peludo de uma vaca.

O fio do lombo fica bem no meio, estrategicamente, diferente desses produtos – sapato, bota, bolsa, cinto – que de alguma forma disfarçam a origem ‘primo pobre’ do material utilizado. Porque os animais têm umbigo, mamilos, perfeições e imperfeições que passam longe da vitrine dos shopping centers, longe das vistas de quem compra. E quem paga, quer tudo lisinho – suco de laranja ‘sem cabelinho’, leite sem nata, carne sem nervos, couro sem lembrança de que aquilo era a pele de alguém.

De curtição rústica, a matéria-prima – eufemismo dando tchauzinho enquanto tira selfie no espelho – manteve a pelagem original, ao contrário do sapato lustro das pessoas de bom coração. Talvez para que o futuro comprador se sinta mais em contato com a natureza, com a terra, com o rural, na saudade de um passado que talvez nunca tenha vivido. Talvez para que sinta, como religiosos de algumas matizes, as costas e bunda sempre em contato com o relicário da vaca-mãe, a grande mãe, provedora, fonte do leite e da proteção, calor e aconchego, eterna compreensão e amor incondicional. Amor de mãe.

A linha das costas dessa nossa finada heroína não foi escondida ou descartada, mas centralizada para fazer daquele móvel uma espécie de simulador de voo bucólico. ‘Moro na Capital mas vejo televisão no conforto bovino, como se estivesse na manjedoura, repetindo diariamente o berço que Jesus teve em sua primeira noite de vida’. Uma lágrima cai na hora que os rapazes da estofaria trazem, escada acima, o novo sofá para completar o mobiliário. Todos passam a mão na pelagem-escalpo, para sentir sua áspera maciez ecológica. Agora, é um lar feliz.

A vaca, ali, é assento perpétuo para um especismo que descansa, relaxa, estica as pernas, fuma um cigarro e até lê jornal. Uma cadeira-do-papai para uma conversa sobre amenidades entre Ed Gein e Hannibal Lecter. Esses dois sabiam onde estavam pondo as mãos.

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  1. Olho a poltrona e imagino a vaca a mugir. Quanto tempo ainda para tantas pessoas continuarem insensíveis, não posso imaginar.
    Belo texto, Marcio.

  2. Muito bom o texto Márcio. Nossa espécie merece muito sofrimento, pela alienação, pela indiferença, pela futilidade, pelo especismo e pela ausência de amor e empatia pelos nossos irmãos menores…parabéns!!!

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