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Conheça a história de Gigi, a arara que virou notícia em todo o mundo

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Um veterinário, dois tratadores, dois estagiários e oito estudantes voluntários. É com esse quadro de funcionários que, em um ano e três meses em seu novo lugar de funcionamento, o Centro de Pesquisa e Triagem de Animais Selvagens (CEPTAS) de Cubatão, o único do litoral do Estado de São Paulo, registrou mais de 900 ocorrências. E dos cerca de 100 animais que atualmente recebem tratamento no local, uma ave em especial chama tanta atenção que virou destaque em todo o mundo.

A arara Gigi, levada ao centro em novembro de 2015 após ser encontrada com as patas amarradas e o bico quebrado, em Praia Grande, recebeu, em janeiro deste ano, algo inédito até então para a família dos psitacídeos: uma prótese em titânio. Depois de apenas alguns dias de estranhamento, ela se adaptou à nova parte do corpo e, hoje, come alimentos sólidos e até escala usando o novo bico como um terceiro apoio.

No entanto, mesmo com a fauna bela e extensa que habita todo o país – e que deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros -, o avanço da medicina veterinária e histórias como a de Gigi, que colocam a nação como referência no tratamento e recuperação animal, ainda falta muito para que o Dia Nacional dos Animais, celebrado nesta segunda-feira (14), seja realmente uma data em que os defensores dos animais possam comemorar as conquistas e avanços da causa.

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Única
Quando Gigi chegou no Centro de Pesquisa e Triagem de Animais Selvagens (Ceptas), localizado dentro do Parque Cotia-Pará, em Cubatão, e mantido em conjunto pela Prefeitura do município e o Unimonte, os funcionários e estagiários logo perceberam que não se tratava de qualquer caso.

“Ela estava muito magra, com lesões na pata, possivelmente de fratura que o tutor não cuidou, o que caracteriza maus-tratos, e essa deformidade no bico. Não sabemos se ela nasceu assim ou se foi um ferimento não cuidado”, explica o veterinário responsável pelo centro, Nereston Josias de Camargo.

O também biólogo conta que, como as lesões na pata já não eram recuperáveis, os primeiros cuidados oferecidos a Gigi foram alimentá-la. “Fazer com que ela ganhasse peso, através dessa alimentação, em que a gente dava papinha duas vezes por dia e oferecia frutas na mão. Com isso, ela ficou preparada para a cirurgia”.

A operação a que Nereston se refere ficou conhecida em todo o mundo. Depois de um tucano e uma gansa, foi a vez de Gigi receber uma prótese de bico. Também feita em uma impressora 3D, a nova parte do corpo da ave teve como diferencial o titânio e o procedimento virou notícia em vários cantos do mundo.

“Esse procedimento já correu o mundo inteiro, principalmente pelo sucesso do pós-operatório”, comemora Nereston. “Ela ficou uns três dias com dor e continuamos alimentando-a com papinha. Sentia dificuldade, porque era um negócio novo para ela. A partir do quatro dia, ela já começou a comer sementes e usar o bico como terceiro apoio para poder escalar, uma característica dos psitacídeos. Hoje ela já está completamente adaptada à prótese”.

Gigi terá, agora, uma vida comum. De quebra, ela ainda se tornou a única de sua espécie no mundo a ter detalhes brilhantes no bico, que, na verdade, são parafusos que prendem a prótese. “Ela tem um bom tempo pela frente. O intuito foi de dar uma condição de vida melhor para ela, o mais próximo de um animal que tem um bico normal”, afirma, orgulhoso. A ave já se comporta como outra qualquer de sua espécie, conta. “Ela até tenta se defender com o bico quando se aproxima de outros animais. Adquirir o comportamento da espécie é uma característica bem legal de adaptação”.

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Classificada como sub-adulta em uma escala de filhote, juvenil, sub-adulto e adulto, Gigi tem em torno de 5 anos. Como a espécie pode chegar a até 50 em cativeiro, ela tem muito pela frente, e pode até encontrar um companheiro no futuro, uma vez que conhecer o seu destino. “Possivelmente, vai encontrar um par e se reproduzir. Em mais uns três meses ela deve receber alta clínica e vamos atrás, junto com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, para ela ser encaminhada”. Zoológico, santuário e mantenedor conservacionista são as opções.

Gigi, a propósito, foi o nome dado à arara pela policial ambiental que a levou ao Ceptas. “Geralmente, se é um animal que vai ficar pouco tempo, procuramos não dar nomes, justamente para não nos apegarmos”, conta. Com a arara que conquistou a todos do centro, porém, foi diferente, e os funcionários já preparam o coração para o momento do adeus. A sensação de dever cumprido e felicidade, porém, suplanta a saudade. “A gente sabe que uma vai, mas vai chegar outro animal. Não ocupa totalmente aquele espaço, mas assim seguimos a vida profissional de veterinário”.

“Os vingadores”
Os responsáveis por desenvolver e realizar a cirurgia em Gigi se autodenominam “os vigadores”, um grupo que reúne “vários especialistas que se juntaram para salvar animais e criaram uma ferramenta poderosa para a medicina veterinária”.

É o que diz um dos integrantes do grupo, o 3D designer Cicero André da Costa Moraes. O encarregado de projetar a prótese do bico em computação gráfica diz que tanta repercussão foi uma surpresa.

“A gente imaginava que ia ter repercussão mais aqui no Brasil e que, eventualmente, chegaria fora. Mas foi o contrário. Quando eu postei a foto da minha fan-page da cirurgia, eu compartilhei. A CBS, TV americana, entrou em contato e a primeira matéria que saiu foi deles. Saiu em 26 idiomas até agora. Foi o primeiro bico impresso em metal para uma ave a nível mundial, e causou um certo furor”, conta.

Isso quando o nome do grupo “os vingadores” sequer existia e tampouco havia o objetivo de ajudar animais. “Em 2012, eu comecei a me envolver num projeto com um especialista em odontologia legal, o doutor Paulo Miamoto. Começamos a desenvolver ferramentas para fazer reconstrução facial forense. Ele eventualmente dava aulas na USP, e em umas delas conheceu o Roberto Fecchio, veterinário, que perguntou se a gente poderia utilizar a computação gráfica para recuperar aves que tinham perdido o bico”.

Uma vez definido o foco e recrutados os médicos veterinários Roberto Fecchio, de Santos, Rodrigo Rabello e Matheus Rabello, de Brasília, e Sergio Camargo, de São Paulo, faltavam recursos para dar início ao ambicioso projeto. “Começamos em 2013, mas não tínhamos know-how e impressora 3D. Em 2015, o doutor Miamoto comprou a impressora, e a partir daí começamos a fazer o teste com o jabuti”.

Passo a passo do implante:

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Falta investimento
Ainda que a história de Gigi tenha colocado o Brasil como centro de atenções, o país ainda sofre com a falta de recursos para a causa animal. É o que diz o biólogo e veterinário responsável pelo Ceptas, Nereston Josias de Camargo. “Falta vontade dos governos e das instituições particulares”, resume.

Ele, que trabalha no único Ceptas do litoral do Estado, sonha com outras universidades e municípios investindo em centros de recuperação e triagem de animais. “Imagina se todas as faculdades de veterinária do País, que são várias, montassem um Ceptas? Seria ideal se cada Estado e cada município tivesse uma renda separada para isso. O de Cubatão poderia ser só para aves, o de Guarujá só para pequenos mamíferos, e por aí vai. Seriam mais centros, mais vagas e daria para trabalhar melhor”.

Futuro
A falta de investimento na área não deve desanimar quem sonha em cursar medicina veterinária, afirma Nereston. De fato, a boa vontade e o sonho da nova geração são necessários para que a profissão continue a vencer os desafios diários. No áudio abaixo, ele dá um recado para quem pensa em seguir carreira como médico veterinário.

 

Fonte: A Tribuna

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