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O anti-humanismo de muitos "vegans" como equivalente humano ao especismo

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Tem ganhado visibilidade uma categoria um tanto inconveniente, incoerente e contraditória de “vegans” (sic nas aspas). São aqueles que dizem respeitar os animais não humanos e pautam seus hábitos de consumo nessa consideração moral, mas dedicam opiniões conservadoras e preconceituosas a questões de Direitos Humanos e lutas sociais. Às vezes essas pessoas chegam a expressar ódio explícito contra movimentos de emancipação humana e minorias políticas. Não sabem que estão promovendo, do alto desse anti-humanismo, uma atitude tão antiética, reprovável e prejudicial para seres sencientes quanto o próprio especismo.

Essa postura anti-humanista é o reverso quase perfeito do especismo. Trata muitos seres humanos com uma desconsideração antiética parecida com a forma como os especistas tratam os não humanos. É o que baseia a atitude dos adeptos do “Prefiro bicho a gente” e de quem padece de pena de um gatinho abandonado mas vira o rosto e muda de calçada quando se depara com uma criança negra pedinte.

Não é um especismo reverso propriamente dito, já que não inferioriza seres humanos especificamente por serem da espécie humana. Mas carrega um ódio misantrópico similar ao do que viria a ser o especismo investido. Promove opressão, discriminação e exclusão moral contra muitos humanos em função não de espécie, mas sim de (identidade de) gênero, raça, orientação sexual, classe, nacionalidade e origem regional, (ir)religião etc. Mas tem efeitos bem parecidos do que um hipotético especismo inverso de humanos contra humanos.

Manifesta-se, por exemplo, quando o mesmo “vegano” que vai à avenida central da cidade no sábado fazer divulgação pró-veganismo passa a noite do domingo despejando na internet postagens e comentários misóginos, homo-lesbofóbicos, transfóbicos e/ou de ódio militarista contra “vagabundos”, “esquerdopatas” e mulheres que abortaram.

Também ocorre quando a “vegana” dedica seu estilo de vida e consumo ao respeito pelos animais não humanos, mas muda de postura perante outros seres humanos dedicando-lhes racismo, xenofobia, intolerância religiosa, elitismo e simpatia com o fascismo, o apartheid contra pobres e o fundamentalismo cristão.

Outro exemplo é de quem defende não o fim dos testes em animais, mas sim que eles passem a ser promovidos em presidiários ao invés de cobaias não humanas, e acredita que ódio contra onívoros e protovegetarianos é uma maneira mais “adequada” de enfrentar o especismo do que a conscientização com tolerância.

Sendo praticado por muitos “vegans” de direita, o anti-humanismo viola todos os princípios éticos dos Direitos Animais. Essas pessoas esquecem que o vegano-abolicionismo defende, entre seus princípios, a nivelação moral de animais humanos e não humanos por cima, a alteridade empática – acompanhada, segundo muitas pessoas, pela compaixão –, a conscientização ética de cada vez mais pessoas, o enfrentamento de opressões resultantes da inferiorização moral imposta a parte dos seres sencientes, a oposição à cultura de violência e dominação de uns sobre os outros e às tradições nela baseadas, a contestação de hierarquias morais, o respeito aos direitos e liberdades dos indivíduos e a problematização de violências simbólicas que mantêm acesas na cultura a “superioridade” de uns e a “inferioridade” de outros.

Os “vegans” anti-humanistas, quando defendem uma visão de mundo reacionária, autoritária, hierarquista, discriminatória e truculentamente violenta, estão transgredindo todas essas características do abolicionismo animal. Com isso, não diferem em praticamente nada dos mais cruéis especistas, havendo como únicas diferenças notáveis a espécie dos sujeitos destratados e os motivos desse destrato.

Revela-se cada vez mais necessário, quando pensamos nessa categoria de autodenominados “vegans”, que o antiespecismo esteja sempre acompanhado do zelo, ou no mínimo do respeito, aos Direitos Humanos e às lutas em prol da emancipação sociopolítica humana. As opressões contra humanos e contra animais não humanos não são menos nocivas uma do que a outra. E fica claro aqui que libertação animal sem libertação humana não só não faz nenhum sentido como tende a desempoderar, tornar sem efeito, a defesa dos Direitos Animais.

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  1. O ser humano que é vegano pela compaixão, automaticamente estende essa compaixão a todos humanos… Não há como separar. Ter compaixão por isso e não por aquilo. Mas acho que, mesmo sendo veganos, têm todo o direito de terem suas opiniões respeitadas! Só porque é vegano deve ser a favor do aborto (aliás, que contra-senso!!!)? Ou por ser vegano deve ser a favor da CAUSA homossexual (veja bem, escrevo da CAUSA, porque todos seres humanos devem ser tratados com dignidade, independente da sua opção sexual)… Acho que vocês misturaram um pouco as bolas nesse artigo!!!

    1. Com relação ao aborto também considero um contra senso. Como pode ser possível defender os bichinhos e achar normal matar um feto? O pior é que há como evitar filhos. Elas não evitam preferindo ter o direito de matá-los. Sei que é um caso polêmico e muitos discordam do meu pensar. Mas ninguém pode discordar que realmente essa palavra aborto significa matar bebezinhos antes de nascerem. Apenas não nasceram ainda, mas são seres sencientes. Isso é um fato. Se acham certo eliminá-los é problema deles, mas é esquisito se importarem tanto com os bichos e não se importarem com o sofrimento imposto a um humaninho sem a menor chance de se defender. Tive a impressão, porém, ao ler o texto que desaprova a postura intolerante nas redes sociais, a forma como se dirigem a quem aborta, sem a menor consideração. Não quis dizer que todo vegano, por ser vegano, deveria ser a favor do aborto. Sobre a homofobia penso que um vegano deveria sim, já que defendem o fim do especismo, eliminar todo e qualquer preconceito de suas vidas para que o discurso faça sentido. O que vemos são ataques de total intolerância. É realmente assustador.

      1. Olá Virginia! Em relação ao aborto, animais ao contrário de nós mulheres não podem ter preferência se querem ou não ter filhos/filhotes. A questão é, temos direito de escolha no momento de pedir um aborto ou não, já os animais não escolhem se querem ou não que tirem seus filhotes, estes são forçados a ceder a vontade humana de exploração. Por isso há sentido total em defender o aborto e os animais. Pois nós temos direito de escolha, eles não. Todo ser deve ser livre para fazer suas escolhas sob seu corpo. E tecnicamente, a maioria dos abortos são feitos até o 2 meses de gravidez, e nesse tempo o feto ainda não é senciente, não sente nada, não há sofrimento.

  2. Excelente texto. Coisa mais comum do mundo encontrar “protetores de animais” com o discurso da cobaia humana, do “prefiro bicho que gente”, e por aí vai. São pessoas de uma cegueira absurda. Como desejar que pereçam as crianças que estão numa charrete, recolhendo papelão? Elas são tão dignas de atenção e compaixão quanto o cavalo. E esses reaças não enxergam que, perecendo as crianças, perece também o animal. Se a família recebe o bolsa família e tem um cachorro, obviamente que isso pode acabar beneficiando também o bichinho. Vou morrer sem entender a lógica do pensamento de pessoas que, por ex, têm páginas famosas e badaladas no Face denunciando abusos cometidos contra os animais, mas defendendo latifundiários notoriamente impiedosos e ruralistas destruidores do meio ambiente. Sinceramente, é difícil.

  3. Caro Robson, outra crônica que vai ficar em meus Doc.com. Perfeita! Exata! Correta!

    Me custa muito ainda ler esses comentários em ambientes eletrônicos da Causa Animal, onde, para que a brutalidade cometida aos não-humanos tome um grau de grandeza e choque, estejam atrelados xenofobia, preconceitos vários e expressões que mais me remetem à programas televisivos baratos, onde o sucesso desses faz-se, exatamente, pela verborragia truculenta e odiosa [“que poderia ter se tornado um extraordinário instrumento de democracia direta não se converta em instrumento de opressão simbólica ” Bourdieu.]

    Fico perplexa observando que, assim como apontou brilhantemente no 3o parágrafo, há mais vingança e covardia nessas intenções que propriamente justiça e chamamento à responsabilidade social.

    Parabéns e muito, muito obrigada por dividir comigo/conosco um texto tão edificante.
    Abração.

  4. Quero acrescentar aqui algo que considero importante. O problema abordado não se refere apenas a veganos. Vejo a postura intolerante em protetores de animais mesmo que não sejam veganos. Segundo um psicólogo amigo meu o problema é que essas pessoas são totalmente desprovidas de sociabilidade. Este é o motivo de se refugiarem nos animais preferindo conviver com eles a conviver com pessoas da sua espécie. Não dão conta. Como os animais não respondem, não conversam com nossa linguagem, elas se sentem bem perto deles. No dia que os animais aprenderem a conversar, eles serão abandonados por elas, visto que teriam o mesmo problema que tem com humanos. É muito comum protetores de animais, que não são nem vegetarianos, adotarem esse estilo violento contra humanos, um desejo enorme de vingança. São adeptos da lei do Talião. Basta vermos aqui mesmo os comentários todas as vezes que divulgam notícia de uma crueldade. Logo chovem postagens de pessoas querendo que os culpados sejam linchados, jogados numa cadeia infecta, ou que sejam mortos para pagarem no inferno. Se for algum caso na China, então todos os chineses deveriam morrer. Querem jogar bombas sobre a China A violência é de impressionar. Querem fazer exatamente as mesmas coisas que dizem repudiar. Certa vez, numa reunião da Sociedade NM Protetora dos Animais, onde apenas eu não comia carne, levei um susto ao ver o posicionamento de uma associada pedindo pena de morte para menores infratores. O meu susto maior se deu ao verificar que todos os presentes, sem exceção, pensavam da mesma forma. De repente me senti uma estranha no ninho. A única coisa que tínhamos em comum era a defesa dos animais. Mais nada. Nem mesmo nossa dieta era igual, pois todos eram carnívoros. A propósito, a pessoa fazendo tal proposta é petista. Fazia companha para Dilma. Não é de se estranhar eu ter sido excluída da associação. Enfim, parece que o problema não está nos veganos exclusivamente. E sim no ativismo pelos animais. É triste, porém, é verdade. Felizmente nem todos são assim.

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