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Carreta na rodovia? Que horror!

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Indo ao trabalho, ouço no rádio: uma carreta tombou no trecho oeste do Rodoanel. Trânsito na região. A carga era de porcos. O trânsito, obviamente, era a notícia.

Motorista, mais um pesar para tua manhã: mais trânsito por causa de um tombamento. Trânsito! O horror cotidiano do trabalhador citadino. Maldita carreta, maldito trânsito… eis a notícia da manhã.

Ao trabalho. Cá estou. Preocupado com os porcos. Ah, que absurdo… pensando nos porcos enquanto meus concidadãos agonizam no trânsito… que inimigo da pátria sou eu!

Pesquiso notícias: como estarão os porcos? Em minha mente, apenas a reconstituição da cena… 110 seres sencientes, sensíveis, conscientes, apavorados e entulhados em uma caçamba. De repente… acidente. Horror, pavor, dor. Morte?
(Não consigo evitar o pensamento: melhor morrer aí ou no “frigorífico em Carapicuíba” para onde estavam sendo levados, como informou-me o texto escrito de outro jornal? E aí outro pensamento invade-me: os motoristas que passavam pela rodovia no momento do acidente enxergavam porcos agonizantes ou desperdício de linguiças?)

Título da notícia encontrada: carreta que transportava porcos tomba no trecho Oeste do Rodoanel. Subtítulo: Acidente ocorreu nesta madrugada na saída para a Castello Branco. Faixa da pista foi liberada por volta das 6h20 e havia lentidão no local.

Deus! Lentidão! O horror! O horror!

Segundo e Terceiro parágrafos:

O acidente ocorreu na altura do km 14, por volta das 3h40. A pista ficou totalmente interditada na saída para a Castello no sentido interior.

Por volta das 6h20, a faixa da esquerda, na altura do pedágio, havia sido liberada. Segundo a concessionária que administra a rodovia, havia cerca de 1 km de congestionamento no local.

Os porcos estão bem? Os porcos estão mal? Porcos morreram? Há porcos em estado grave na UTI do Hospital das Clínicas? Impossível descobrir o estado de saúde dos porcos. Que importa, não é?

O que é um porco (leia-se: presunto) perto do aumento do trânsito?

Cada cultura tem seus deuses…

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  1. Falou tudo.

    Com certeza infelizmente a maioria que passou por ali enxergou uma carreta cheia de presunto e baicon.

    Se fosse uma carreta com algum material que oferecesse risco aos importantíssimos seres humanos, ele iriam retirar o material primeiro e depois tentar virar a carreta, mas como eram apenas presuntos ainda vivos, tentaram virar a carreta sem retirar o ‘material” de dentro primeiro. Acho que nem os nazistas tratavam os judeus como trataram os porcos nesse acidente. Como bem disse, cada cultura tem seus deuses e cada país tem o sofrimento que merece. Estamos nessa situação hoje em grande parte pela indiferença que a população tem em relação ao sofrimento de qualquer coisa que se mova, seja humano ou não humano. Depois no fim do ano as pessoas ainda desejam que o próximo ano seja um ano melhor, de paz.

    1. Concordo com você. E este mundo está repleto destes que se julgam pessoas de bem e confraternizam com desgraça alheia, recebendo como resposta a: “Coerência dos Malditos”.

  2. PS.: Este texto foi escrito na manhã do dia do acidente, sem saber da repercussão que teria no decorrer do dia. Muitas foram as falas ouvidas no dia seguinte – após noticiário televisivo – sobre o sofrimento dos porcos. Resta a dúvida: por que, então, continuam sustentando esta indústria? Entender a humanidade e o modo como opera foge de qualquer lógica…

  3. Uma crônica para lá de reflexiva, caro Dennis.
    reitero o que comentei no 1o post sobre a notícia: “e os pobres e indefesos porcos ficam agonizando até chegar resgate para eles, porque todo o resto, será atendido primeiro.”

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