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Conheça o lado trágico por trás de alguns vídeos fofos da internet

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Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Quem não gosta de compartilhar animais fofos na internet? Os gatos são inegavelmente os reis da rede, mas outras espécies menos comuns recentemente ganharam popularidade. Filhotes de lontra abandonadas? Quase 8 milhões de visualizações. Quatis sonolentos sendo acariciados? Quase 6 milhões.

Talvez o grande apelo desses vídeos seja o fato de que as pessoas são expostas a animais que antes eram desconhecidos, e ficam surpresos em como esses animais podem ser belos, inteligentes e, sem sombra de duvida, fofos. E que mal há em dividir um pouco de fofisse animal na rede?

Segundo o artigo de Nekaris e colaboradores publicado na PLOS em 2013, talvez a atividade não seja tão inocente assim.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Os autores analisaram um vídeo de um Loris recebendo cócegas e aparentemente gostando da experiência. Um loris, para quem não sabe (ver foto acima), é um tipo de primata associado à lêmures. Recebem muitas vezes a alcunha “lentos” por se movimentarem de forma pausada por entre as árvores. Assim como grandes primatas (como chimpanzés, gorilas e humanos) não possuem rabos, mas isso é uma convergência evolutiva, ou seja, não é explicado por ancestralidade comum. Diferente da maioria dos mamíferos, os loris apresentam um arma muito estranha: uma glândula de veneno no sovaco. A secreção dessa glândula, quando misturada com saliva, confere aos loris uma mordida venenosa, usada para caçar pequenas presas e para defesa de predadores e competidores.

De qualquer forma esse vídeo foi visualizado um numero gigantesco de vezes, ultrapassando a marca de 12 milhões de visualizações, se somarmos todas as versões do vídeo.

Tabela 1 de Nekaris e colaboradores (2013) mostrando o total de visualizações do video do Loris em diversos canais do YouTube e Vimeo
Tabela 1 de Nekaris e colaboradores (2013) mostrando o total de visualizações do video do Loris em diversos canais do YouTube e Vimeo

Ok, e qual é o problema? Os autores apontam que nesses vídeos, os principais tipos de comentários se referiam sobre o como os animais eram bonitinhos, sobre o que ele estava fazendo e sobre como o comentador queria um daqueles animais como animais domésticos. E é nesse ultimo que mora o perigo.

Todas as espécies de Loris se encontram ameaçadas de extinção por devastação de áreas naturais, caça e, obviamente, por tráfico de animais para servirem de bichos de estimação e ornamentais. Visto que a venda dessas espécies é considerada ilegal em grande parte das nações desenvolvidas, é muito provável que a presença desses animais nas mãos de particulares implica na extração de animais da natureza para satisfazer nossa necessidade por fofura. Mas não tem nada de fofo no que os animais passam para virarem “pets”.

O artigo de Nekaris e colaboradores citam alguns exemplos horríveis: Em Taiwan, em 1993, uma remessa de losises pigmeus confiscadas teve uma taxa de mortalidade de 80%. Em Praga, entre 1990 e 2000, todos os lorises pigmeus confiscados entrando no aeroporto morreram durante a quarentena.

E, como se não bastasse, animais que eventualmente sobrevivem a experiência tem que passar por mais um ritual bárbaro: a remoção de seus dentes incisivos, para impedir o envenenamento de seus futuros tutores.

Sim, isso é um cortador de unhas
Sim, isso é um cortador de unhas

A remoção dos dentes, além de ser potencialmente letal (até 34% de mortalidade em um dos casos relatados pelos autores), impede que os sobreviventes sejam reintroduzidos na natureza.

Mas o que isso tudo tem a ver com vídeos na internet? É bem simples: se esses animais são o produto do tráfico de animais, esses vídeos são a propaganda que expõem esses animais a novos mercados consumidores, em escala mundial. E o anuncio por parte de cerca de de 10% dos comentadores de que gostariam de ter esse animais pode ser um incentivo a mais para traficantes de animais intensificarem a exploração de populações nativas.

Obviamente isso não significa que tais vídeos devam ser removidos da rede. Isso é quase que efetivamente impossível. Mas os autores do artigo argumentam que campanhas de conscientização podem reverter a opinião pública, e transformar uma “propaganda grátis” para traficantes de animais, em campanha de conscientização contra a a exploração desses animais.

Então, da próxima vez que você ver uma foto ou vídeo de um animal silvestre fofo, lembre dos loris:

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

E se pergunte: De onde esse animal vem? Ele é ameaçado de extinção? Ele é traficado?

E se alguma das ultimas perguntas for sim, talvez, por mais fofo que esses animais sejam, o lugar deles é na natureza ou, na pior das hipóteses, no zoológico.

Fonte: Haeckeliano

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