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Do espírito à letra da lei, para além do xenoespecismo

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1[Nota da autora: há exatamente um ano ofereci um longo texto sobre Ovis Aries (ovelhas) e seu calvário. Para o feriado de hoje, ofereço à leitura um longuíssimo texto, para ser lido parágrafo por parágrafo, sobre um dos mais polemizados assuntos em pauta nas casas legisladoras do país. É para ser lido com calma, controlando a ira, pois o assunto é um rolo compressor de arame farpado e ninguém sai dele sem arranhões. Ciente disso, escrevi-o, mais uma vez, pelos animais].

Propor um texto de lei para assegurar direitos fundamentais aos animais não humanos é tarefa tão ou ainda mais complexa quanto a de redigir uma lei para garantir novos, ou redesenhar antigos direitos humanos. Por um lado, o texto precisa ser claro para que os interesses a serem assegurados possam ser aceitos e respeitados. Por outro lado, o espírito desse texto deve expressar o direito do sujeito de modo universal, geral, imparcial e final.

Um texto de lei que nasce violando qualquer dos quesitos acima, dificilmente obterá o respeito devido. Ao contrário, trará em seu bojo o convite à violação, ao descaso e à desobediência. Ele ensejará o sentimento de que essa lei é “apenas para inglês ver”.

É o que acontece com, praticamente com todas, as leis animalistas aprovadas em nosso país até hoje. Por lei animalista entenda-se a que se propõe a garantir algum benefício para os animais não humanos, sejam eles da fauna não manejada ou da manejada.

O primeiro obstáculo à redação de uma lei animalista genuína é os legisladores pouco conhecerem da realidade animal, além do manejo. O segundo é que o conhecimento dessa realidade está obnubilado pelas convicções religiosas tradicionais acerca do lugar que qualquer animal ocupa no âmbito moral, jurídico e político.

Nossas crenças sobre o valor da vida dos animais estão dominadas por concepções religiosas milenares. Nelas, os animais são meros objetos de propriedade (de pessoas físicas e jurídicas). Na condição de objetos, os animais para os quais se legisla, não são tidos como reais sujeitos de direitos. Pelo contrário, estão sujeitados totalmente aos direitos de seus proprietários. As leis visam, portanto, regulamentar as liberdades desses, não as daqueles.

É com esse peso da tradição moral que objetifica os animais e desqualifica-os como não pessoas que as leis chamadas de proteção animal foram feitas em nosso país. Então já se pode ver o rolo de arame farpado que é esse emaranhado de leis pretensamente animalistas. Pretensamente, porque parece que vieram para defender direitos animais, mas, de fato, foram aprovadas para reforçar a defesa do direito de produzir, confinar e matar todo ano algo da ordem de seis bilhões de indivíduos, somente no Brasil, chegando a 70 bilhões ao redor do mundo.

Quando tais leis restringem certas liberdades humanas em relação a animais ditos silvestres, elas mantêm o espírito da propriedade do Estado brasileiro sobre todos os animais que não possuem um “dono” privado.

Em meio a tantas tsunamis e marolas, formadas por interesses que vão do afetivo (animais eleitos para estima e companhia) ao mais puro lucrativo (animais criados para extração de leites, lãs, ovos, pele, couro, carnes, serviços, diversão etc.), temos ainda os de ordem religiosa.

O problema é que, de fato, não são os direitos genuínos dos animais que as leis procuram assegurar. Elas apenas regulamentam o direito dos humanos de possuírem e de destruírem “seus objetos de propriedade” animalizados.

Discute-se agora, em 2015, um Projeto de Lei na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, pelo qual o Parágrafo Único do 2º Art. da Lei 11.915/2003, criado em 2004 pela Lei 12.131, que deu caráter de excepcionalidade e legalizou a matança de animais em ritos religiosos de qualquer matriz africana, deve ser extinto.

O debate acalorado não está polarizado entre os seguidores dos ritos africanos, que matam animais e os oferecem às entidades, e os defensores de direitos fundamentais para os animais. Há argumentos contrários à matança ritual de animais que não têm nada a ver com convicções abolicionistas.

Não está fácil esse debate. No rolo compressor de arame farpado que a Lei 11.915/2003 criou, não dá para tomar partido dessa ou daquela posição, sem sair arranhado. Se defendemos os animais, somos taxados de racistas. Se defendemos a liberdade de expressão religiosa sem discriminar a matriz de origem (semita ou afro), somos taxados de incoerentes, e com razão, pois devemos defender o direito à vida dos animais, sem olhar quem perderá as regalias.

Mas a pior posição mesmo é a de quem se abarrota de carnes, ovos e laticínios, veste couro, frequenta rodeios e touradas, cavalga, visita zoos e aquários, e pede a revogação do direito de matança dos ritos afros. Maior incoerência não pode haver. Por isso, a posição vegana, mesmo sendo taxada de racista, ainda é a mais coerente. Mas, não se iludam os veganos com essa lei. A coerência não é possível manter dentro do espírito de tal lei.

A posição dos defensores abolicionistas dos animais está perfeitamente respaldada em princípios de justiça e de ética dos quais os animais jamais deveriam ter sido excluídos, mas, lamentavelmente, por conta exatamente de interesses econômicos milenares, protegidos por dogmas religiosos, o foram.

O que torna difícil tomar posição nesse rolo de arame farpado não é o fato de haver uns que querem continuar a matar animais para satisfazer demandas de entidades espirituais (que prestam favores quase sempre não espirituais aos humanos), convidados a “sacrificarem” vidas alheias para trocar esses favores pelas desditas dos aflitos.

O que dificulta o debate no caso dessa e de tantas outras leis é a incoerência do texto da lei. Ela regulamenta, portanto, limita, a liberdade de manejo e abate dos animais. Mas em momento algum atende ao direito do animal de não ser forçado a nascer, de não sofrer manejo e de não ser morto para atender interesses humanos, seja de empresários, de consumidores, ou de empresários consumidores exercendo seus sacerdócios.

E é a demanda pelos derivados dessa matança (carnes de todo tipo, laticínios, ovos, lã, couro, serviços e graças divinas) o que escraviza e mata os animais. Não é um “sistema” malvado e abstrato. É o consumo sem consciência.

Lendo o texto da Lei 11.915/2003, ao qual foi acrescido no artigo 2º um parágrafo único, eximindo os ritos afros de condenação judicial, por via da Lei 12.131, que ora se quer revogar, pode-se ver claramente que tudo o que ali está não está ali para assegurar direito algum aos animais.

O que foi redigido com aparência de defesa dos animais, o foi para regulamentar a prática de criar, escravizar e matar animais. Essa não é uma lei animalista genuína, muito menos tem ela um espírito abolicionista. Nada além disto: é uma lei reducionista com lampejos bem-estaristas para o “manejo e abate humanitários”. Os humanos são a finalidade da lei, não os animais.

Os interesses regulados pela Lei 11.915 são os interesses empresariais, interesses de proprietários de vidas com direito ao abate delas. Ninguém deve se deixar iludir, pensando ou mesmo crendo que tal lei, ou qualquer outra desse teor, defenda a vida dos animais, ao prepará-los “com bons modos” para o abate.

Se a vida de seis bilhões de animais, abatidos no Brasil para consumo humano e não humano, não está protegida por tal lei, não há como crer que a mesmíssima lei, apenas com a revogação de um de seus parágrafos, deva ser usada para proteger a vida dos animais abatidos em ritos religiosos de qualquer matriz, seja judaica, islâmica ou africana. Os abates kosher e halal, embora cobertos com véus espirituais, têm finalidade comercial como quaisquer outros.

O serviço sacrificial de animais, salvo melhor juízo, está tão imbricado em interesses comerciais, ainda que menos explícitos, quanto o estão os abates kosher e halal. Pelo menos na origem, é preciso haver alguém que cria um animal e o vende ao fiel que paga suas dívidas com as entidades, oferecendo a elas o sangue alheio.

Dado que o espírito original dessa lei é a preservação dos “bons modos” aparentes na criação e matança de animais para suprir demandas de mercado, não se pode pretender que ela seja uma lei de defesa de direitos fundamentais para os animais. Nunca foi e não é. E porque ela nunca o foi, foi possível, um ano após sua aprovação, criar uma outra lei para excetuar das penalidades também o abate de animais com matriz religiosa africana, algo que o texto havia deixado criminalizável, ao mesmo tempo em que amparava outros tipos de abate, regidos por técnicas definidas por religiões outras, como o kosher e o halal, de origem semita (judaica e islâmica).

Se os dois abates (kosher e halal) foram autorizados como “legais” no texto original da Lei 11.915, e os abates ritualizados africanos haviam permanecido criminalizáveis, não há como não pensar que o resultado de tal discriminação tenha o viés xenoespecista (racismo e especismo conjugados).

Parece se repetir aqui o que ocorre nas redes sociais. Enquanto mastigam com prazer seu sanduíche de queijo com presunto (que mata vacas, vitelos e porcos), algumas pessoas rogam pragas aos asiáticos por seguirem a tradição de lá, de comer as carnes que aprenderam a comer, de cães, gatos e macacos.

Quer dizer, no xenoespecismo, o animal que escolhemos para estima tem direitos que os outros povos têm que respeitar, mas o que escolhemos para mastigar não têm direito algum. Se todos os animais têm direito à vida, nosso sanduíche de presunto e queijo é um ato de violação de tal direito, tanto quanto o é o bife de cão, de gato ou de macaco comido pelo asiático.

Entretanto, o que mais onera os defensores dos animais nesse debate não é argumentar que ao se defender agora a revogação da Lei 12.131, (a criminalização da matança para fins rituais afro-brasileiros) não se está sendo racista e sim abolicionista.

Torna-se praticamente impossível a qualquer abolicionista animalista posicionar-se com ética e justiça a favor da revogação de um único parágrafo dentro dessa lei, deixando-a, no mais, intacta. Isso é cair, literalmente, no xenoespecismo. É trair todos os outros animais não matados em ritos afros, que tanto se pretende defender. O problema não é dos abolicionistas. É que essa lei não foi criada para defender os animais da morte.

Ao legalizar, regulamentar e lutar pela aprovação de leis que afetam os interesses dos animais, sem que os animais sejam de fato o sujeito dessa legislação, isto é, ao fazer leis para regulamentar o modo como os animais são tratados e impedir que sejam maltratados no curto e miserável período de suas vidas e na hora do transporte para a câmara de sangria, mas manter o direito de criá-los e matá-los, os defensores dos animais pisam na poça de sangue da qual esses animais não escaparam desde 2003, mesmo com tal lei em vigor.

Essas leis são reducionistas e bem-estaristas. O nascimento, a vida e a morte dos animais só contam se servirem para agregar valor à mercadoria final. O valor inerente à vida do animal não conta nessas leis que fingem protegê-los, quando protegem mesmo é o interesse de seus vendedores. O que conta é a agregação de valor à carne, ao leite, aos ovos, ao couro e à lã, produzidos com “bons modos”, ou aos serviços que prestam como escravos e reféns dos interesses humanos.

Se os abolicionistas querem, de verdade, o respeito legal à vida dos animais, hoje forçados ao nascimento dentro do sistema de criação e abate para atender demandas humanas, as leis devem ser redigidas de modo abolicionista do começo ao fim. Remendos não fazem uma boa obra.

Reduzir danos no manejo (sim, pois não há como abolir os danos, mantendo aprisionados os animais e matando-os enquanto são ainda bebês, porque sua vida abreviada é dentre todos o maior dano causado a eles) não é o que os abolicionistas veganos buscam em sua luta diária para conscientizar as pessoas sobre a tragédia dos animais criados para o abate. O que buscamos é abolir o direito humano de criar animais para a escravidão e o abate.

Regulamentar os “bons modos” da matança tayloriana de animais, levada a efeito em escala industrial fordiana, para que não choque os desavisados e não pareça ser o que de fato é, uma chacina praticada com motosserras, envernizada com a denominação “abate humanitário”, também não é a melhor forma de uma defesa abolicionista que resguarda direitos aos animais.

Defender a revogação de um parágrafo numa lei que expandiu a liberdade de matança para um novo grupo religioso, “esquecido” na redação inicial da lei, e relevar o fato de que a lei inteira já servia apenas aos interesses de mercado, tanto dos produtores de carnes, leites, ovos e lã, quanto dos produtores disso tudo sob a tenda de um ou de outro código tribal original, também não parece atitude sábia de quem luta pela abolição de todas as práticas de matança de animais.

É fácil deixar-se enganar pelas “iscas” postas nos textos dessas leis reducionistas e bem-estaristas, especialmente quando elas são revestidas de uma regulamentação do manejo e da matança com os bons modos ditados com padrões médicos e técnicos. É fácil enganar as pessoas, pois só as palavras “médicos” e “científicos” já evocam um sentimento de respeito pela autoridade máxima em questões da vida, da saúde e da morte. E daí, essas mortes todas parecem “limpas”, porque são praticadas de jaleco branco.

O que os ativistas abolicionistas não podem perder de vista é que todos esses padrões reducionistas e bem-estaristas de manejo e abate humanitário foram criados e aprovados em primeiro lugar pelos médicos e cientistas pagos pelo agronegócio ao redor do mundo, para garantir que os consumidores comprem seus produtos sem se horrorizarem com as cenas do manejo, do transporte e da câmara de sangria, e sem temor de que esses resíduos estejam carregados de patógenos. É para vender bem que esses padrões existem. Não é para respeitar os direitos dos animais.

É muito difícil manter a ética abolicionista e defender a revogação de um parágrafo que introduziu tardiamente na lei o direito de um grupo matar animais para finalidades religiosas, quando a lei inteira é apenas uma regulamentação dos bons modos na produção e matança de animais para quaisquer outras finalidades. Para ser ético é preciso manter a imparcialidade, a generalidade no raciocínio (se vale para um tipo de matança tem que valer para todos) e a finalidade. Ou é a vida e a morte do animal que importam, ou são os interesses humanos em jogo. Quando isso se contrapõe, um dos dois sofre a pena de morte. E esse não é o humano.

O princípio da universalidade obriga a razão a expandir o círculo de validade daquilo que a lei mesma diz querer respeitar. A vida de um animal abatido para fins rituais em práticas protegidas por um direito constitucional vale tanto quanto a vida de um animal abatido dentro das técnicas apreciadas por outras religiões, quanto a vida dos animais abatidos com técnicas aprovadas pelos vivissectores, quanto a vida de cada animal abatido com técnicas humanitárias em qualquer matadouro industrial.

Há matança, matança e matança. Nenhuma delas deveria ter amparo legal. E lutar para que uma seja criminalizada, mesmo que esteja assegurada pela constituição, e as outras continuem a ser permitidas, mostra bem o limite moral de quem está implicado no sistema da matança, de quem consome produtos originados dessa matança.

As matanças, aliás, nada mais mostram do que a falha ou deficiência moral (chamada kakothymía, em grego) que precisamos abolir em todos nós. A falha em compreender que não foi por mérito nosso que aqui nascemos no formato da espécie Homo sapiens sapiens, e por não termos mérito algum nisso, não temos crédito moral para tirar dos outros animais aquilo que sequer conseguimos dar a nós mesmos: a vida e a liberdade inerente ao tipo de vida que cada um nasce para expressar.

Matar animais não é um direito humano. E discriminar alguém por ser de uma raça, e não de outra, nessa matança, também não. Dois erros não fazem um acerto. E não dá para consertar essa lei que nasceu antropocêntrica e especista, transformando-a agora numa lei xenoespecista. Os animais continuam perdendo suas vidas.

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    1. Racismo é defender tudo que sua raça ou cultura racial faça só porque você pertence a essa tal raça. Tudo que os afrodescendentes fizerem é válido?? São seres perfeitos? Não erram?? Isso é racismo invertido. Eu não sou branco e jamais defenderia uma meia-raça minha porque pertenço a ela. Você tem de se libertar da condição de servo cego da sua etnia para poder criticá-la e combate-la quando ela agir de forma errada ou inadequada. Defender só por ser da mesma cor é indiscutivelemente racismo. E quanto mais se passar a mão na cabeça de erros cometidos pela sua raça, pior ela fica tanto nas suas atitudes como na visão das outras etnias. Defenda a bondade, independentemente da raça. Qualquer raça tem gente malvada.

  1. Especistas, deixem todos os animais em paz, não apenas os que são mortos por ritos afro. Todos. Sem discriminação de quem mata, sem discriminação de quem morre, sem discriminação de métodos de matança. Toda matança é imoral.

  2. Há muito a ser dito. Não nos estenderemos. E começaremos pelo que já foi dito.

    Certa vez, um vegano conseguiu pronunciar o seguinte enunciado: “se eu visse um índio indo pescar, eu certamente me intrometeria e ensinaria que ele estava errado, dizendo que não se pode tratar os animais desta forma”. Em outra ocasião, no decorrer de uma manifestação pelos direitos dos animais, ao passar em frente um trabalhador que vendia cachorro-quente, uma vegana propôs que a barraquinha do vendedor de cachorro-quente fosse destruída.

    Longe de se tratar de algo individual, estes enunciados expressam com precisão uma força autoritária, reacionária e muitas das vezes fascistas que atravessam demasiadamente os movimentos (individuais e grupais) de vegetarianos e veganos. Mas por que? Uma militante do coletivo anarquista Crimethinc esboçou uma resposta: “Existem muitas pessoas reacionárias e mesmo fascistas que abandonaram outras lutas e se tornaram veganas e vegetarianas e começaram por lutar, apenas e contundentemente, pelos direitos dos animais. A razão disso? Essas pessoas tem poderes absolutos de representação dos seres (os animais) pelos quais, a princípio, elas lutam. Tal fato se dá pela dificuldade que os animais encontram em questionar seus auto-eleitos representantes”.

    Ora, nesse exato momento, mais uma vez, retorna um refrão entoado frequentemente por veganos e vegetarianos que reforçam inteiramente o etnocídio do primeiro caso, o elitismo e o espírito de playboy do segundo caso e as razões políticas reacionárias e fascistas sabiamente explicitadas neste terceiro caso: a atual campanha de boicote, perseguição e destruição das religiões de matriz africana através da condenação e criminalização, especificamente, das práticas de sacrifício animal.

    Nesse último caso, os etnocídios, o elitismo e o espírito de playboy bem como as bases políticas reacionárias se intercalam e se revezam com uma poderosa ação racista e classista. Trata-se de fazer coro à uma destruição e perseguição sistemática, de tempos, às religiões de matriz africana. Que, é fundamental lembrar, são espaços de sociabilidades e territórios existenciais – em sua grande maioria – do povo negro, dos pobres, periféricos, suburbanos e minorias de todo tipo. Assim, aliados ao que há de mais reacionário nas vertentes “evangélicas”, veganos e vegetarianos parecem não desconfiar, por um segundo, que o mar de boas intenções em proteger os animais possa estar completamente envenenado. E as razões são de várias ordens, falaremos de três: a primeira delas é que se trata de um ato extremamente vergonhoso buscar acionar a polícia (através da justiça) para constituir uma nova forma de criminalização de pessoas negras. E, sim, faz diferença essas pessoas serem negras. A vontade de igualar a todas as pessoas pelo “crime” (matar animais) quando na prática só um certo grupo específico (pessoas que fazem parte de religiões de matriz africana) sofre as consequências é só mais um exemplo do racismo à brasileira: aquele que diz não ver cor, mas que cisma em prender, ferir e matar pessoas negras. Se para os veganos e vegetarianos isto é motivo de comemoração, a presença da polícia proibindo e reprimindo as práticas das religiões de matriz africana são, para estas religiões, uma triste atualização, infelizmente sempre e diversificadamente presente, de uma história de repressão. Nesse momento parece que há uma modificação na velha e batida fórmula utilizada na divulgação dos direitos animais: ESPECISMO=RACISMO; para: ANTI-ESPECISTA=RACISTA.

    Depois, mais especificamente, o sacrifício animal não pode e nem deve ser comparado ao modo como nossa sociedade trata os animais. Não enxergamos nesta prática nada de errado. Assim, “colocar nas costas” das religiões de matriz africana o peso da “crueldade” com os animais é um absurdo e só mostra a pobreza da política vegetariana e vegana em pensar as complexidades das relações entre humanos e não-humanos. Por sermos pessoas veganas, nós que escrevemos esse manifesto, não acreditamos que “tudo vale” na relação entre humanos e animais não-humanos, não apoiamos, por exemplo, a vivissecção, a indústria da carne e a caça esportiva, e quando se trata da política entre humanos, não apoiamos quando um certo grupo humano majoritário (branco e de classe média/alta – mesmo quando por vezes não se seja branco e de classe média/alta) diz-se portador da verdade e da moral e busca oprimir, mais uma vez, uma minoria. Tudo é política, e é fácil demais autonomizar do restante do campo político e tornar principal e universal uma fração escolhida por você; a vida é mais complexa do que isso.

    Por fim, trata-se de pensar que o ato de ser vegano e vegetariano, talvez, precise estar atrelado à um processo de singularização. Nem universal, nem meramente particular/individual. Dito em outras palavras, não se trata de uma posição universalizável, que caiba para todas as pessoas em todos os lugares e a todo momento (e a todo custo!). E que, também, é necessário criar novas práticas de conexões (sem perder e, justamente, com a heterogeneidade) com grupos que também resistem e se singularizam, como as religiões de matriz africana. Caso se deseje fazer o veganismo e do vegetarianismo algo maior do que um novo estilo de consumo ou de boa consciência. E caso se deseje também, é claro, um mundo menos vergonhoso como este

    Como não se tornar racista e reacionário mesmo quando e, sobretudo quando, acredita-se ser um vegano ou vegetariano revolucionário? É essa toda a questão. Uma possível resposta: talvez seja encarando o veganismo e o vegetarianismo como práticas de resistências sempre locais e contextualizadas, não descolando tal luta de outras que lhes são transversais. O ponto principal não é a coerência, mas o relacional e contextual. Se há uma ecologia ambiental, da qual os direitos dos animais e a defesa da natureza fazem parte e são importantes, há também, e de suma importância, uma ecologia social, da qual as questões étnicas, raciais e econômicas, por exemplo, também são determinantes. E, não menos importante, há ainda uma ecologia mental ou subjetiva, ou seja, é preciso cuidar, analisar e estar sempre atento a este desejo fascista que fala através de nós, que mobilizam os nossos medos, nossos discursos e ações, que universalizam com sangue modos de vida e que não reconhecem diferenças como diferenças. Para esta última ecologia, a questão primordial a ser posta para os veganos e vegetarianos, tendo em vista o que se passa hoje, não pode ser outra senão esta: como não se tornar racista e reacionário mesmo quando e, sobretudo quando, acredita-se ser um vegano ou vegetariano revolucionário?

    1. Gostaria de saber os nomes dos veganos que assinam essa Carta Aberta em defesa do especismo.
      O artigo publicado acima, assim como todas as colunas dessa Agencia, vem assinado.
      Vcs “veganos” que são responsáveis por essa “carta” poderiam se apresentar?

    2. Todo este malabarismo lexical significa que, se um sujeito é oprimido, automaticamente temos que fazer vista grossa para suas vítimas?

    3. “Não enxergamos nesta prática nada de errado. ”

      esta frase é um ponto fora da curva de raciocícnio do anônimo autor.

    4. mas quem disse que é somente contra as religiões de matriz africana? o mesmo fale para os animais vítimas de rituais judaicos e islâmicos

    5. Gostaria de saber quem são as pessoas “veganas”que não assinam essa carta aberta, pois como os leitores poderão debater com esse suposto coletivo anônimo??? Bem, ao tirar essa dúvida (não apenas minha) a fim de dar clareza às opiniões, o que me espanta é que agora não basta mais os defensores dos animais lidarem com as contradições relacionadas com a conduta especista eletiva de nossa sociedade e sim ter que também lidar com o “veganismo” eletivo ocasional, que seleciona algumas espécies em ocasiões distintas (o bode sacrificado no terreiro pode enquanto o bode do matadouro não) para serem condenadas à degola e outras para serem libertas da escravidão e tirania humana. Supondo que numa ação direta desse “vegano” eletivo ocasional ele consiga resgatar um bode a caminho do matadouro e depois do glorioso intento o caprino escape de seus braços e na sequência seja capturado por um adepto desses rituais de sacralização que o levará ao terreiro para o sacrifício??? Aí nada mais poderá ser feito para salvar o bode da morte, já que na segunda situação é “justificável” a morte do animal em função da religião enquanto na primeira situação não? Que diferença isso faria para a vítima ser abatida no matadouro ou no terreiro??? Por favor, não deturpem o conceito do veganismo!!!!

      1. amigo marcio linck, certa vez estavamos no centro de porto alegre com cartazes anti-carroça, que na época era a bola da vez em termos de PL. veio um ‘punk anarquista’ tirar satisfação, onde já se viu proibir carroças, pq era auto-gestao contra o governo, blábláblá.. lá pelas tatnas, sem argumentos, o cara disse “voces nem sabem o que é ALF, voces estão por fora, o lance é libertação animal!”.

        virou piada interna, até hoje!

    6. Textos apócrifos não deveriam constar aqui. Se alguém quer publicar um manifesto,use a sua própria página. Este espaço é destinado a comentários. Respeite os espaços e suas funções. Publique este texto em sua página e avise-nos do link, esse é o modo correto de compartilhar sua posição, se é que opinião sem cabeça (assinatura) pode ser considerada expressão de uma posição. Quem não assina não toma posição, apenas se exibe à custa do trabalho alheio.

    7. Você fez um longo e cansativo texto para revelar que você concorda com crueldade contra animais, defendendo absurdamente as religiões afro, e você diz que os radicais são os veganos. Você se classifica como? Deve se achar um santo, pois justifica o derramamento de sangue por uma suposta existência de uma entidade religiosa. Culto não pode servir para crueldade contra animais, senão não é culto mas sim um disfarce para assassinatos. Se fosse legalmente permitido matar humanos, certamente vocês matariam humanos. Vocês que defendem o sacrifício de animais e se declaram ” GUERREIROS DE SÃO JORGE” porque não se auto-mutilam e oferecem parte de seu próprio corpo para suas entidades. Vocês não são “GUERREIROS” ? É muito fácil fazer oferanda com a dor alheia. Sacrifique-se você mesmo, sangre-se para você ver se é bom. O problema de opiniões que defendem a matança de animais na cultura religiosa de origem africana é que eles não são as vítimas.

  3. Tenho uma questão. Grande parte parte das ideias que aparecem aqui e em outros lugares parecem ser construídas sobre a outorga de direitos a indivíduos animais não-humanos. Direitos individuais. Entretanto, os mesmos sujeitos que defendem essa outorga defendem procedimentos como a castração de animais domésticos como um bem maior para a espécie. Castração que, no limite, resulta num procedimento cirúrgico invasivo, doloroso, e que extirpa do animal algo que o constitui como ser autônomo, tanto no plano físico, quanto no plano ontológico, i.e., sua capacidade de se reproduzir. Me parece não ser possível de se conciliar as duas posições: ou se escolhe uma, ou a outra. É possível?

    1. voce está embaralhando coisas. ninguem aqui quer correr pro mato e castrar animais silvestres. o q se tenta é APAGAR UM INCENDIO provocado pelas outras pessoas, que ao longo dos tempos resultou na superpopulacao de caes egatos em centros urbanos, com consequentes maus-tratos, violencia, abandono, fome, etc.

      curioso que coleira, corrente, solidão, viver preso, ter que aguardar comida e água pela vontade de terceiros, etc, aí pode, né?

    2. José Carlos, a vida natural desses animais foram ceifadas no momento da sua domesticação.
      Como tudo nesse planeta, o homem teve necessidade de trazer para si um benefício usufruindo de toda a flora e fauna.
      Esses animais domesticados jamais poderão ser reintegrados à natureza pois muitos extintos foram simplesmente foram exterminados pela dependência ao homem.
      Nós somos culpados de trazê-los para essa vida, não foi lhes dado opção.
      E já que fizemos isso, a responsabilidade de proporcionar-lhes bem estar é unica e exclusivamente nossa, humanos.
      A reprodução descontrolada só traz malefícios aos animais, visto que jamais será possível conseguir oferecer uma vida digna a todos que nascem, ao longo da vida fértil deles.
      A reprodução, na natureza, tem outro objetivo. Eles são presas de algum outro animal, e assim garantem a não extinção da espécie.
      Esse risco eles não correm mais, pois essa vida livre não lhes pertence mais.
      Então a castração é sim um ato de bem estar para eles, além de evitar inúmeras doenças também adquiridas com a domesticação e o uso de alimentação carregada de componentes químicos e veneno contra parasitas naturais.
      A burrada foi feita. Eles são nossos escravos, mesmo quando bem cuidados, mesmo que para companhia. Temos o dever moral de proporcionar qualidade de vida para eles.
      Na minha visão, para todos eles.

        1. Obrigado pelas respostas, mas os argumentos não me convencem. Me parece que a ideia de direitos animais que circulam são sempre relativas a um bem estar que nós, humanos, imaginamos para a vida dos animais não humanos, o que é uma contradição em termos.

          “curioso que coleira, corrente, solidão, viver preso, ter que aguardar comida e água pela vontade de terceiros, etc, aí pode, né?” Sei lá, pode? Você que tá falando, meu chapa 😉

          1. eu estava sendo SARCÁSTICO, obviamente. os exemploes que dei são resultado dessa super-proliferação causada por terceiros, que agora nós, defensores dos animais, temos que resolver da melhor maneira possível. tais como o desitno de leões de circos, javalis no meio rural, etc.

  4. Realmente? Gostei não. Muitas paavras e no final, poucos é dito. Ex: a lei! Como ele foi redigida? Por que foi omitida do texto? Eu sou totalmente pelos animais. Para mim são eles que contam. Mas grande parte do discurso abolicionista é contra eles, embora digam o contrário. Vejo aqui inclusive um comentário dizerndo que aqueles que não querem as mortes nos rituais são racistas, e que devemos deixar as religiões africanas em paz. Inacreditável. Parece que não sabem que grande parte da população negra não é favor desse absurdo. E grande parte da população branca vive nas macumbas. O importante para mim é o resultado final. Se quem fez estava pensando em comercio, azar. Quero é ver os animais livres desses sacrifícios.

  5. Os macumbeiros, umbandeiros e candomblendeiros tentam sem sucesso justificar suas maldades. São pessoas covardes, sem amor ou sentimento, despojados de piedade ou compaixão. Sangram animais que nada tem a ver com suas religiões. Se vocês são devotos, deveriam cortar uma parte do próprio corpo e enviar para seus orixás, pois aí sim vocês estariam dando uma prova de sacrifício próprio. Vocês confundem liberdade religiosa com matança de animais. Infelizmente num país bagunçado como o Brasil vocês ficam à vontade pois as leis ainda lhes favorecem aos seus desígnios maléficos. Temos sim que combater as religiões de matizes africanas pois preconizam o mau, o sangramento. Isso não é religião, mas sim assassinato travestido de culto. Mas não é só as religiões africanas que precisam ser corrigidas ou eliminadas, há religião de brancos também como o judaísmo que também comete atrocidades contra os animais. Portanto não é racismo contra negro, é contra todos aqueles que maltratam animais, e, aqui no brasil vocês da religião afro são os que mais matam animais, seus covardes!!

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