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Não coma ninguém que você ama

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Ah…o facebook de madrugada. Como não ama-lo? Na verdade é fácil. Basta entrar no facebook de madrugada. Minha última aventura na rede-ultra-anti-social me levou a uma piada, a uma leve dor de cabeça, a uma espremida nervosa nos olhos e a uma vontade danada de enfiar o dedo na tomada para chacoalhar a preguiça de viver. Mas ao invés disso tudo, decidi tirar o pó de minha coluna na ANDA. A piada era com aquele outdoor que mostra um porquinho e um cachorro, ambos bem simpáticos, indagando ao leitor: “se ama uns porque come outros?”. A resposta que a pessoa carnívora arrumou para trollar a campanha foi: “pelo mesmo motivo que você ama sua mãe e sua namorada, mas só come uma delas”. Por um lado, surpreendi-me por me deparar com uma piada de carnívoro nova. Por outro, me veio aquela vontade louca de subir no foguete Apolo alguma coisa e entrar em combustão ao colidir com a atmosfera. Nos comentários algumas pessoas tentavam humilhar a mulher que postou a piada com baixarias machistas e violentas; outras argumentavam que a piada dela era ofensiva e machista; e, claro, a grande maioria não conseguia se conter de satisfação com a suposta sagacidade da humorista carnivorista. Eu, da minha parte, fiquei com preguiça daquilo tudo.

Deu preguiça daquele discurso pronto do “Você é politicamente correto”, “Para de encher o saco”, como se, mesmo vivendo em um democracia, as pessoas não tivessem o direito de se ofender e expressar revolta em um foro aberto de discussão. O Facebook é, em um sentido estranho, religioso. Mas não por acreditar no Deus, pai de si mesmo, Jeová, Alá, enfim…o Todo-Poderoso. O verdadeiro ser onipotente, onipresente e onisciente, criador de todas as coisas nas redes sociais é o Ego. Este, por sua vez, só opera um verdadeiro “milagre”, que é cuidadosamente mantido, absolutamente intocado e a todo custo protegido da língua afiada dos hereges: a piada “politicamente incorreta”. As pessoas não consideram a possibilidade de que uma piada muitas vezes é uma afirmação de poder, de privilégios, o exercício do status quo, o confortável, o modelo, o estabelecido, enfim, o verdadeiro “politicamente correto”. Enquanto alguns reclamam, contestam, discutem e questionam a injustiça que é politicamente estabelecida como norma (racismo, sexismo, especismo, etc.), outros apenas ficam sentidos por serem tirados da própria zona de conforto e chamam os outros de “politicamente corretos”. Esta é uma acusação bem vazia. Não existe linguagem neutra, e o que os movimentos sociais fazem ao protestar não é torna-la neutra. Pelo contrário, a linguagem é um instrumento político, quer a classe média branca brasileira queira ou não. Então já passou da hora de quem vem do privilégio parar de achar que seus atos não tem consequências, só porque eles não ligam para as pessoas, humanas ou não-humanas, que sofrem com elas.

O uso da expressão “comer” para definir um impulso sexual é agressiva e existe unicamente para definir o desejo sexual masculinizado. Quando se come, a vontade do homem é ativa, enquanto, nesta lógica, a mulher só “dá”. O masculino ingere algo ativamente, enquanto o feminino abre mão. Pense no predador e na presa: enquanto um tigre avança ativamente para capturar a presa, a gazela é forçada a renunciar à própria vida. Um come e o outro dá. Não se valoriza um acordo, cooperação, ou a possibilidade de dois indivíduos conviverem conjuntamente, ou mesmo existir qualquer consenso. A sociedade hipermasculina gosta do machão violento e da fêmea submissa; do homem agressivo e da mulher domesticada. E a linguagem revela exatamente isso, o espelho de uma sociedade patriarcal. Aí eu pergunto: o que falta para esta piada ser sexista? Enquanto eu morava nos estados unidos, uma coisa que chocava as mulheres com quem eu conversava, feministas ou não, era o uso da expressão comer para dar nome à prática sexual masculina. Para elas a idéia de serem devoradas era muito mais chocante que os palavrões equivalentes do inglês. Eu vi a autora da infame piada comentar com alguém que debatia com ela: “as feministas clássicas teriam vergonha de ver você chamar minha piada de machista” (mais ou menos isso). Ah, com certeza. Mary Wollstonecraft, Simone De Beauvoir, Betty Friedman, Gale Rubin e muitas outras iam amar saber que quando uma mulher transa com um homem no Brasil, as pessoas falam que ela está sendo “comida”. Eu acho que, na verdade elas ficariam emocionadas com a homenagem. Só que não.

O que me intrigou também foi as pessoas estarem totalmente indiferentes ao fato de a piadista em questão não ter entendido o conteúdo da propaganda que ela mesma debochava. Quando as pessoas perguntam: “se você ama um, então porque come o outro?” Elas querem perguntar “Por que você não ama os dois?” e não “Já que você ama os dois, porque você só come um?”. A filosofia do veganismo implica que você não come pessoas que você ama, humanas ou não. Nem sua mãe, nem sua namorada, nem o porco, nem o cachorro. Acho que o veganismo é mais coerente com uma alimentação à base de vegetais e com o sexo consensual. Afinal de contas, estamos lutando contra hábitos que as pessoas têm de machucar outros em nome de caprichos desnecessários. Comer os outros é um ato de violência. É sexista e especista. Se as pessoas não comessem animais, se não fosse um ato de dominância e violência que exalta o poder do predador, a expressão “comer” para indicar uma conquista sexual masculina não faria sentido.

Mas a pior coisa nesta situação toda são os veganos machistas, grosseiros e desnecessários. Se um homem carnívoro faz piada com veganismo, o pessoal confronta com insultos à inteligência do cara, à sua honestidade e respeitabilidade. Uma baixaria entre cavalheiros, semelhantes. Mas quando uma mulher faz o mesmo, a primeira coisa que se faz é insultar e humilhar a sexualidade dela? Vadia, puta, piranha? Sério mesmo? Você acha que vai mudar o mundo fazendo as pessoas sentirem vergonha do próprio corpo, da própria sexualidade, sem motivo? Vai comparar a mulher aos animais de maneira pejorativa? Estas palavras nem deveriam ser xingamentos. A mulher pode ter a vida sexual que ela quiser e não deveria ter vergonha disto. Até quando se pretende ofender a sexualidade masculina, o protocolo é chama-lo de gay, afeminado, ou “acusar” a mãe de prostituição, mas jamais ofender sua sexualidade macho-hegemônica diretamente. Quando um vegano faz slut-shaming, ele está reproduzindo valores opressores para mulheres e animais, reafirmando o modelo dominante contra o qual ele luta. Não interessa o motivo! Se você chama uma mulher de puta, vadia, piranha, vaca, galinha, entre outros, você está usando a principal arma que a sociedade patriarcal possui para quebrar mulheres e animais, desde pequenos. A domesticação, culpada pela opressão das vacas, bois, frangos, carneiros e muitos outros, é nada mais que o controle sistemático da sexualidade e reprodução de fêmeas por uma sociedade machista. Não insulte mulheres e animais para defender animais. Simplesmente não faz sentido.

No fundo, eu sei que não deveria estar escrevendo sobre isso. Não se deve dar trela para este tipo de piada. Contudo, algo me impressiona de verdade: a brincadeira com a morte. Em algum nível, eu já consegui processar o fato de que um dia, a muito tempo atrás, eu comia carne e que as pessoas realmente acham isso normal. Mas não consigo me perdoar pelas piadas que fiz quando carnívoro, e nem consigo aceitar quem faça. A pessoa, geralmente branca, burguesa, com uma vida mais confortável que a maioria dos seres humanos deste mundo pode sonhar, que dirá animais, ousa fazer piada com a morte de um indivíduo que sofreu anos de tortura intensa, sistemática e diária? Que não tinha espaço para se movimentar? Que não pôde desenvolver laços afetivos? Que teve seus filhos roubados e assassinados, e o corpo mutilado e explorado? Por quê? Por que você está fazendo piada com alguém tão destroçado? Alguém tão frágil e indefeso, que vive numa indústria da morte em massa neste instante? O que te diverte nisso? Não basta ser o opressor, você tem que tirar o peso destas mortes, o luto, a consideração? Esvaziar todo aquele sofrimento que está lá, mas que você não quer ver, porque prefere gargalhar de tudo?

Malcom X, em sua autobiografia, colocou que as piadas racistas eram fruto da ignorância histórica das pessoas. Um jeito de mascarar a opressão e negligenciar as experiências de vida dos negros. É bem isso mesmo. Questionar uma piada é forçar o opressor a se posicionar. É obrigá-lo a considerar a violência, pesada e infinita, dentro da própria vida. Quanto mais as pessoas se permitem aprender com o outro; quanto mais elas incluem o oprimido na suas considerações éticas e morais, menos graça a piada tem. Muito pelo contrário, ela passa a ser um desconforto, um enorme pesar em suas vidas. Por isso, não há porque temer o “politicamente correto”. Ele não existe. Ele é só um mito que uma elite opressora inventou para não ter que se responsabilizar pela violência; para continuar ignorando a visceral história do oprimido; para se entupir de conforto e preguiça, quando acaba o valium e não tem nada passando na TV à cabo.

 

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  1. Ótimo texto, obrigada por compartilhar.
    Não sei se por comodismo ou revolta, acabei saindo do face, era muito sofrimento. Não estou preparada para amar/conviver com as pessoas conhecendo seus lados facebookianos, não dá, é demais pra mim. Pessoalmente elas são diferentes, quando confrontadas com educação, não tem coragem de baixar o nível como vi na rede, quiçá fazer piadas.

  2. Amei seu texto, que bom vc ter tirado a poeira do facebook desta forma. Vai que tb vou tirar a do meu compartilhando-o.
    Obrigada por expor tão bem seu pensamento. Não vi essa piada, frequento pouco o fb, mas ainda bem que leio a ANDA e te conheci. Parabéns.

  3. ótimo texto!
    um pequeno desabafo, acredito, de nós para nós mesmos, um pequeno incremento dentro dos nossos preconceitos em seus valores, e questões. se para não rir, melhor então, tb não chorar, e estar atento às pequenas vicissitudes diárias da vida; necessárias! ..e um mto obrigado pela produção, salvou-me o dia, fez me ganhar a noite com tão bela reflexão/observação. bravo!

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