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A dama e o veado

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Fotos: Jen Osborne

De maneira que esse amor sob confinamento, quase uma cena de S/M, é perceptível no momento em que uma das partes está com uma corda no pescoço. Claro, nem todos percebem essa sutileza, linha tênue que separa uma história emocionante, ‘inspiradora e exemplar’, de um relato ingênuo que vê brilho nas molduras da tristeza. É como vejo o caso de Janet Schwartz e seu veado Bimbo.

Para quem não acompanhou o caso, Janet Schwartz é uma idosa que criou o veado Bimbo desde seu primeiro dia de vida, morta a mãe doze anos atrás. Agora ele passa seus dias em um curral lamacento – de onde não poderia escapar de um urso ou puma, abafa o caso – e dorme dentro de casa durante a noite. O governo do Canadá interferiu porque é ilegal ter um animal selvagem como ‘pet’, aí virou comoção, entrou a Imprensa no meio, ‘onde já se viu, pobre velhinha’, e ficou por isso mesmo. Bimbo na coleira, amarrado aqui, preso acolá, trancafiado em casa na hora de ser bibelô e dar selinho em sua dona – repito – dona, depois volta para o cercado enlameado. É sua gaiola, seu aquário.

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Entre o bucólico que a fotografia transmite, a beleza rural que tantas lembranças trazem, está um contrato de propriedade à força. Bimbo não é mais ele próprio – correndo pelos bosques canadenses, escapando dos ursos, fazendo fuc-fuc e constituindo família, e o que quer que os cervos façam em seu dia a dia, que não deveria ser da nossa conta. Não, Bimbo virou Bambi, um animal-brinquedo, animal-consolo, animal-meta e bichinho de pelúcia de si mesmo. Sua dona – firso – dona tem certeza de que tudo está OK porque Bimbo lhe dá lambidas e selinhos.

Como muitos animais que caíram nas mãos de amorosos humanos. Alguns têm uma rodinha para correr o dia todo, outros ficam presos o tempo todo porque são ‘muito brabos’, outros andam na calçada aos puxões no pescoço, enquanto alguém impacientemente espera por um cocô, xixi ou cheirada, outro tem um lindo aquário para nadar em círculos, outro cumpre pena de prisão perpétua em uma solitária cujo jornal é trocado todos os dias, com, hã, amor.

O que muda é o tamanho da gaiola.

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  1. Caro Marcio, que crônica, hem!… que crônica espetacular.
    Sempre tenho em mente essas conduções de extremo amor (ou nem tanto) por donos. O pobre animal é muito mais uma “bengala emociona”l que outra coisa…

    Se puder estender meu pensamento, me remete sempre a parte do filme do papagaio Paulie, que se torna (um escravo) da tutora cega e cumpre a dolorosa missão de ser seus olhos.

    Abração!

    1. pois é paula regina, já pensei nessas coisas. tanto o lado ‘salvei, agora vai viver numa redoma’ – uma vez fizemos aqui um agito em função de girafas que morriam sucessivamente em um zoo estadual. houve quem dissesse que era melhor elas lá do q na africa sendo caçadas. é um trçoo meio torto.

      quanto esse lado do animal-protese. mas VAI CRITICAR cao-guia, equoterapia… o pessoal vai receber muito mal. um abraço!

      1. Marcio, já caí na esparrela de criticar zooterapia e a maioria daqueles que se diziam protetores e amigos da Causa, alegou que “achava terapia com animais algo muito bacana”, porque o cão, nesse caso, brincava e não trabalhava. Questionei quem dali ia para abrigos de animais jogar bolinha para os divertir. Foi uma mudez só.

        Exploração é exploração. O termo, e sua condução primária, não mudam porque uns acham isso e aquilo.
        Abração de novo.

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