• Home
  • Dilema de tutores

Dilema de tutores

14 comments

Tirei a Filó da rua em 2010 e, num mundo fantástico, queria que nós duas falássemos a mesma língua. Hoje em dia até consigo entender alguns de seus miados, que mudam conforme a vontade – de ser acariciada, de brincar, de beber água na torneira… Mas a comunicação é bem limitada. Meu desejo era de ser capaz de conversar com ela para poder perguntar: “você queria ter ficado na rua ou está bem aqui comigo?”. É uma pergunta que me faço quase todos os dias.

Talvez ela seja mais razoável do que eu, que a castrei, a vacinei, a microchipei e a fiz viajar 16 horas de avião quando me mudei para a Itália. Talvez ela me dissesse que nós poderíamos ser amigas, desde que eu não interferisse na sua capacidade de caçar, de subir em árvores, de procriar, de ser livre… Inutilmente, fico imaginando tudo isso porque no fundo, minha única certeza é a de que eu a violentei e alienei suas habilidades naturais, mesmo a amando muito.

Mas, infelizmente, esse processo de alienação dos gatos (e dos cães) não começa em 2010, quando eu levei a Filó pra casa. Começa muito tempo atrás, coisa de 10 mil anos antes, quando a moda era domesticar tudo – espécies animais e vegetais. Claro que nada disso justifica o que fiz com a Filó, que para a minha conveniência ganhou nome próprio e passaporte – mas em quais condições ela viveria na rua, se já estava na qualidade de felino não selvagem? E se eu me dispus a tirá-la da rua, não é correto ser uma tutora responsável e cuidar dela até sua morte? São perguntas que me faço sempre e que compartilho com meu marido e com meus amigos porque acredito que o debate pode levar a uma evolução.

Um desses meus amigos, Roberto Festa, é jornalista, vegetariano e há nove anos adotou um Beagle, que nunca foi castrado, por exemplo. “Mesmo que os veterinários digam que a castração deixa o cão mais tranquilo e evita doenças na velhice, como câncer de próstata, resolvi não castrá-lo por respeito à sua essência. Eu não queria interferir mais ainda na sua natureza”, me disse uma vez. Mas, em Nova York, pra onde Roberto viaja frequentemente junto com seu Beagle para cobrir a política americana, o fato de o cão não ser castrado causa estranheza entre os nova-iorquinos, que sempre questionam Roberto sobre isso. Como se fosse uma obscenidade ver o saco intacto do Scout, o cão.

Em outra dessas conversas sobre a domesticação animal, surgiu o tema “ração vegetariana”. Mesmo sendo vegetariana há sete anos e ciente de que existe ração sem carne, não acho justo impor também minha filosofia alimentar para um animal que é naturalmente carnívoro, como o gato. Obviamente, fui pesquisar na internet sobre isso e encontrei esse post (http://www.papacapimveg.com/2013/02/06/e-certo-estender-o-veganismo-ao-seu-animal-de-companhia/) da Sandra Guimarães, do blog Papacapim, que me deu uma luz sobre a alimentação dos felinos. Mas mesmo com todas essas conversas e leituras, continuo sem saber se a minha intromissão na vida da Filó foi boa ou ruim. De um jeito ou de outro, sou da opinião de que como sua tutora, devo (e faço com amor) cuidar para que ela tenha saúde e receba carinho sempre. Seus ronrons me dizem que muito provavelmente não estou totalmente errada.

About the Author

Follow me


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Pois é, Samira, os animais se acostumam com qualquer coisa, até com maus tratos, por conta da certeza que lhes inculcamos de que receberão comida e carícias. Presidiários também se acostumam com a rotina, por conta da certeza de que terão comida, embora a parte do carinho já não lhes possa mais ser garantida.

    Ainda assim, mesmo parecendo tão rotineiramente adaptados, é de se perguntar se seu espírito específico está recebendo a luz que precisa para expressar a alma dele. Se não está, nossa tutela preserva apenas a matéria na forma do animal que elegemos para estima, mas destrói seu espírito. Se essa destruição fosse apenas uma interrupção, como no caso dos presidiários, que, presume-se, voltarão à liberdade para refazer sua mente, seu espírito, sua interações sociais e naturais, poderia ser justificável. Acontece que, no caso dos animais eleitos para estima, companhia ou guarda, não haverá jamais a alforria. Que dilema ético genuíno este que você pôs em cena!

    1. Foi Dra Sônia que me fez perceber esse viés em uma de suas palestras. No momento que mais essa “prega” da minha consciência se desdobrou me senti enfurecida, pensei…mas como assim? A medida que refleti mais e mais sobre isso, minha fúria passou e percebi minha ignorância. Este dilema ético passou a ser meu calcanhar de Aquiles, longe de se resolver, mas que não posso deixar de pensar todos os dias.

    2. Nos tornamos tutores de animais abandonados, jogados fora e privados a milhares de anos de poderem viver em seu habitat natural Não pegamos animais na selva e o abrigamos. Tenho animais de rua …7 mais precisamente…todos salvos de um fim precoce e triste. Acho que mereciam mais, mas o amo profundamente e adaptei minha casa a eles…castrei-os ,,,,vacinei-os e sei que são felizes. Obviamente seria, mais felizes se pudessem ter nascido em seu habitat natural e crescido la, mas infelizmente o ser humano tratou de destruir quase tudo. Por favor….por favor mesmo…não compare animais inocentes abrigados por tutores que os amam com presidiarios criminosos que estão encarcerados porque fazem o MAL para uma sociedade . Os presidiarios em sua maioria merecem estar presos e ficam presos muito menos tempo do que deveriam. Presidiarios não estão presos pela comida e se conformam com isso…não trate-os como se fossem crianças ou animais indefesos.

  2. Ola, passo pelos mesmos questionamentos tdo dia c meu Bores (pit bullxbull terrier). Mas acho q a evolução do humano se deu em conjunto c a do cao ( e do gato) ha mais de cem mil anos segundo alguns estudiosos. Queria poder respeitar mais e entender mais os sentimentos do Bores. Agradeço seu texto, foi de grande valia compartilhar.

    1. Laydes,
      Precisamos manter nítida a imagem essa da domesticabilidade de outras espécies. Vamos manter a memória do que realmente aconteceu? Os animais domesticados pelos humanos não foram levados para presídios. Viviam no espaço natural dos humanos que os domesticaram: campos, florestas, fazendas, sítios. Ora, de fato nenhum desses ambientes naturais pode ser oferecido por alguém que habita centros urbanos aos animais que escolhe reter ou deter em sua companhia. Essa diferença entre o início da domesticação e ao que ela hoje levou os animais reféns é fundamental para se questionar o modo de vida enjaulado que se oferece aos felinos, caninos, suínos, equinos, bovinos hoje, destinados a servir de companhia, a fazer guarda, a ser objeto de estima ou de comilança. O pacto antigo entre os humanos e os animais que domesticaram foi rompido quando esses animais tiveram que viver com os humanos entre quatro paredes, verdadeiras celas em presídios super luxuosos ou extremamente miseráveis, não importa.

  3. eu tambem trouxe meus gatos vira latas pra berlin e fiquei com pena da viagem longa… eu acho que gato nao tem muito dessa de ser ou nao feliz.. eu tenho a impressao que no espaco de dia ele mudam de ideia umas 4 vezes! o que sei é que eles gostam sim da casa deles, porque quando passeiam fora logo ja querem voltar. do mesmo jeito, gostam dos humanos que escolheram pra cuidar deles… 🙂 sobre racao, eu dava numa epoca, uma racao que nao era vega, mas era bio, demeter, de galinhas felizes e soltas, sem aditivos e linda. claro que depois de um tempo enjoaram e nao quiseram mais… o nome era defu e ate produzida na regiao, era!

  4. Me faço as mesmas perguntas todos os dias, fico tentando imaginar: como um gato pensaria? Coloco prateleiras, arranhadores, desenvolvo brinquedos que imitem a presa para que eles possam se sentir estimulados como na natureza…fico tentando adivinhar as frustrações em suas expressões faciais e posturas corporais, tentando equilibrar a minha companhia e a privacidade deles. Corro atrás de enriquecimento ambiental tentando aplacar o tédio deles e a meu sentimento de culpa porque não sei ao certo quanto “castrei” da vida deles…o fato de tê-los encontrado (a todos) em situação de iminente risco de morte me consola um pouco, mas não passo um dia sem pensar sobre isso.

  5. Sá, tenho certeza que a Filó é feliz! o que seria dela se você não a tivesse tirado da rua? Você acha que ela teria o privilégio de repousar num muro, olhando aquele mar lindíssimo da França, e teria alguém pra dar carinho, se ainda estivesse no Rio? Não, definitivamente a Filó é feliz!!

  6. Eu também sempre me questiono isso… Moro em apartamento e minhas gatas adoram ficar olhando a janela… Sinto uma pena delas por não poderem ser livres! Fico me perguntando se fiz o certo ao tirá-las da rua, se não estariam melhor lá… talvez fossem viver bem menos… mas será que não é melhor viver, sei lá, 5 anos intensos e livres, “sendo gatos”, do que viver 20 com pleno conforto, mas em total confinamento? A comparação com a prisão é bastante válida, ficaríamos felizes se fossemos aprisionados num apartamento para o resto da vida, mesmo com todas as “mordomias” garantidas? A liberdade não é um valor essencial? Para eles seria diferente? Temos o direito de interferir nesse aspecto? (Claro que agora que estão acostumadas é impossível o retorno à rua, seria extrema crueldade) Por outro lado, o ambiente urbano não é nada acolhedor, não é como se pudessem escolher entre o apartamento e a natureza… estariam fugindo todo o tempo de carros e de pessoas mal intencionadas, enfrentariam as doenças, as intempéries e a escassez de alimentos… Ao refletir sobre o assunto, creio que o “correto” seria não termos domesticado tais animais – raiz de todo o problema -, só assim sua liberdade e sua essência estariam preservadas de fato. No entanto, frente ao cenário urbano e à realidade atual, acredito que é o melhor… Ou pelo menos o melhor que posso fazer… Se é o suficiente? Ah! O dilema permanece.

    1. Nossa saúde mental e moral depende da coragem para se tornar consciente de que cada escolha implica um ganho e uma perda, de que não é possível escolher sem perder. A liberdade é essa condição trágica. Essa trágica condição se agrava quando nossas escolhas não importam apenas para nós, quando elas importam muito mais para aqueles que serão afetados por elas. Nesse caso, usamos nossa liberdade para tirar a liberdade dos outros. Pode ser que nossa decisão seja então antiética. De imediato pensamos que estamos fazendo o bem retirando o animal de sua condição livre. No médio e longo prazos nossa interferência na liberdade do animal acaba por atrofiar seu espírito. Não tenho animais confinados. Tenho apenas os que não são meus, os que chegam, pousam, chegam, sentam ou deitam na calçada, ficam quanto tempo quiserem e se vão quando lhes dá na telha. Mas não moro em apartamento. Não moro em rua com automóveis feito guilhotinas, ceifadores de vidas. Admito hoje a tutela de animais apenas para as pessoas humanas que têm espaço natural, terra, grama, árvores, pedras e tudo a que os não-humanos têm direito para poderem completar o design do espírito específico no qual seu organismo veio à vida. Entendo a dor do dilema das pessoas conscientes de que sua retenção de animais de outras espécies no ambiente humano pode não ser a coisa mais correta do mundo. Não critico as pessoas. Todas tiveram uma boa razão para tomar tal decisão. Gostaria que essas pessoas conscientes do dilema ajudassem a forjar um projeto para que no futuro os animais pudessem viver na companhia e na presença de humanos sem terem que ser condenados à prisão perpétua, muitas vezes, devido ao fato de os humanos saírem o dia todo para o trabalho e os abandonarem à própria melancolia, essa prisão mais se parece com a cela solitária. Me arrepia o que as pessoas humanas fazem às não-humanas em nome do amor. Mas pensando juntas vamos encontrar o fio, ainda que demore um pouco. Justiça restitutiva aos animais ora privados de sua liberdade espiritual. Trabalho dobrado para nós, porque inventamos tudo isso para força-los a ficarem conosco.

  7. Minha poodle TEM cauda,NÃO é castrada e apesar de mil afagos e mimos,não me intrometo em seu corpo cuja natureza a fez assim.Mas é como um filho,pode-se trocar idéias,jamais impor ou interferir na criação do outro.FILÉ faz ronron para você?Alegre-se,felinos só fazem isso para suas mães e para humanos a quem amam.Parabéns!

  8. Eu também fico angustiada com isso. Nunca tive animais em casa, mas peguei minha Linda no trabalho, onde os gatos são abandonados diariamente no jardim, como se fossem coisas. Ela cismou de entrar no prédio e estava correndo o risco de ser pega e engaiolada num depósito. Por mais que eu tente minimizar os danos, fico com dó por ela não poder caçar e perambular à noite. Não tenho condições de morar em uma casa, pois em pleno Rio de Janeiro é muito perigoso; pretendo ir para outra cidade quando me aposentar, mas ainda faltam sete anos. O fato é que sempre me pergunto se fiz mesmo a melhor coisa para ela, e se ela está, se não feliz, pelo menos bem comigo.

{"email":"Email address invalid","url":"Website address invalid","required":"Required field missing"}
>