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A militarização na guerra contra a caça na África está condenada ao fracasso?

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Por Monika Schorr (da Redação)

Países africanos e as reservas naturais particulares estão empenhados na guerra contra os caçadores furtivos com armamentos altamente sofisticados e, ainda assim, os elefantes e rinocerontes continuam sendo assassinados. Especialistas afirmam que a batalha deve ir mais além, atingindo alvos como a demanda da Ásia pelos “produtos” originários desses animais e o precário sistema jurídico africano. As informações são do The Guardian.

Membros do pelotão anti-caça do Kenya Wildlife Service (KWS) em patrulha no parque nacional Kora National Park. (Foto: Ivan Lieman/AFP/Getty Images)
Membros do pelotão anti-caça do Kenya Wildlife Service (KWS) em patrulha no parque nacional Kora National Park. (Foto: Ivan Lieman/AFP/Getty Images)

A cada duas semanas, mais ou menos, o Departamento do Meio Ambiente Sul-Africano (South African Department of Environmental Affairs) publica uma atualização sobre a caça furtiva de rinocerontes que consiste no registro do número de rinocerontes assassinados para suprir um lucrativo mercado clandestino asiático, juntamente com uma síntese dos caçadores e dos contrabandistas de chifres de rinoceronte que foram capturados. A publicação mais recente, de 7 de agosto, contabilizou 553 rinocerontes caçados até agora, e 147 prisões efetuadas. A projeção é de que a África do Sul será palco do aniquilamento de 900 a 1000 rinocerontes por caçadores furtivos durante 2013, quebrando o macabro recorde de 668 rinocerontes mortos em 2012. A intensa propagação da caça ilegal de rinocerontes, que eclodiu em 2008, não está dando mostras de arrefecer.

Os elefantes africanos também estão sendo assassinados de forma assombrosa e crescente por causa do marfim, cujo mercado de venda está muito aquecido e é, hoje, um lucrativo investimento financeiro na China. Especialistas estimam que a espantosa quantidade de 25 mil a 40 mil elefantes são mortos anualmente em todo o continente africano, o que representa, aproximadamente, 10 por cento do total da população remanescente e é um número significativamente maior do que o de nascimentos por ano.

Um esquadrão anti-caça furtiva está sendo treinado em Ol Pejeta Conservancy, Quênia, que é um dos mais importantes santuários de vida selvagem da África. Defensores dos elefantes e rinocerontes entraram em ação, organizados, cada vez mais, de forma militar, na tentativa de estancar essa carnificina. Governos guarneceram os batalhões da guarda-florestal com armas mais potentes, serviços de inteligência e também forneceram aviões de fiscalização e monitoramento, helicópteros e drones, que são aeronaves não tripuladas controladas à distância por meios eletrônicos e computacionais. Alguns países também enviaram suas forças armadas para os parques nacionais. Os administradores das reservas particulares de vida selvagem gastaram milhões com suas próprias guardas-armadas contra a caça furtiva, cães farejadores, mini-drones e informantes.

Apesar do combate à caça furtiva de elefantes e rinocerontes ter se tornado mais e mais militarizado, uma triste realidade insiste em permanecer: a matança em escala continental desses animais continua crescendo, a despeito do aumento de prisões, de caçadores que são mortos e da apreensão de carregamentos ilegais de chifres de rinocerontes e de marfim. Embora não haja dúvidas de que a situação dos animais vitimados seria bem pior sem os esforços empregados contra a caça furtiva, especialistas insistem em dizer que outros aspectos para salvar a vida selvagem da África, tais como a melhoria do sistema judiciário e a iniciativa para diminuir a demanda dos consumidores por “produtos” provenientes de animais selvagens, não têm merecido a devida atenção.

“Vocês não conseguirão sair desta, à força”, disse Peter Knights, diretor executivo da WildAid, ONG com base na Califórnia, e que direciona seu trabalho para o consumidor de produtos do comércio ilegal da vida selvagem. “Vocês nunca conseguirão acabar com a caça furtiva, apenas comprando botas novas para o pessoal na África, porque isto é um jogo de “whack-a-mole”, onde toda vez que um adversário é destruído, ele reaparece de novo, em outro lugar”.

Knights acredita que produtos ilícitos de animais selvagens “sempre acham um caminho de saída” para os consumidores dispostos a pagar por eles. Esse ponto de vista é compartilhado por alguns peritos em estratégias contra drogas que comparam a árdua batalha contra a caça na África com a guerra contra as drogas, onde a abordagem de reforço militar e interdição tem se mostrado um caro e enorme fracasso. “Onde houver uma contínua demanda por uma substância ilegal, haverá oferta”, disse Ethan Nadelmann da Drug Policy Alliance, grupo sediado em Nova York que defende uma reforma política no combate às drogas.

O esforço para conter a caça desenfreada de rinocerontes e elefantes tornou-se uma preocupação mundial. Dizendo que o crime contra a vida selvagem solapa a segurança, numa mal-disfarçada alusão ao terrorismo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou no mês passado uma nova Força-Tarefa Presidencial para combater o tráfico envolvendo animais selvagens.

Não há melhor exemplo para ilustrar os desafios enfrentados na proteção dos paquidermes do que o parque sul-africano South Africa’s Kruger National Park, onde foram dizimados muitos mais rinocerontes do que em qualquer outro parque africano nos últimos anos. A reserva foi invadida por caçadores furtivos ligados a redes criminosas que contrabandeiam  os chifres usados na tradicional medicina chinesa via Moçambique, país vizinho, para os mercados ilegais na Ásia.

A primeira reação do South African National Parks (SANParks), órgão responsável pela administração dos parques nacionais sul-africanos, à irrupção da caça furtiva em 2008 foi aumentar o contingente da patrulha florestal em Kruger, onde habitavam milhares de rinocerontes. Em contrapartida, as gangues de caçadores, principalmente vindos de Moçambique, começaram a chegar em grupos maiores com um pistoleiro munido de rifle de caça de alto calibre e bandidos carregando fuzis automáticos AK-47. Eles disparavam suas armas contra os guardas florestais e muitos combates se seguiram, alguns com resultados fatais. SANParks começou a aperfeiçoar o treinamento de seus policiais e a guarnecê-los de armamentos mais potentes, o que resultou em mais prisões e mais caçadores atingidos por tiros, mas isso não foi suficiente: os caçadores continuaram chegando em número ainda maior.

Em 2011, a Força de Defesa Nacional Sul-Africana introduziu duas tropas de soldados, compostas por 265 homens, dentro e ao redor do parque para apoiar o combate. A segurança do parque foi intensificada com reforço aéreo, incluindo mais helicópteros. Uma empresa sul-africana, exportadora de armas, doou um novo avião de reconhecimento, no final de 2012. Várias aeronaves não tripuladas, incluindo sofisticados drones, têm sido utilizadas, recentemente, no espaço aéreo do parque, a título experimental. “Muitas prisões foram efetuadas devido ao reforço aéreo”, disse um porta-voz do SANParks.

Mais do que nunca, caçadores têm sido presos e, pelo menos, 23 deles foram mortos a tiros pelos guardas florestais, desde 2008. Apesar de tudo, a matança de rinocerontes vem aumentando acentuadamente. Desde o início deste ano, 345 rinocerontes foram assassinados no parque, mais do que o dobro das ocorrências nos primeiros sete meses de 2012.

Um grande número de instituições engajadas em defender os rinocerontes estão angariando milhões de dólares em todo o mundo para auxiliar nos esforços contra a caça furtiva na África. A maioria das grandes empresas contra a caça furtiva estão oferecendo treinamentos militares que, em muitos casos, são comandados por soldados sul-africanos experientes que trabalharam nas forças armadas dos EUA no Afeganistão e Iraque.
Tecnologia avançada na área de segurança está sendo utilizada, o que inclui radares de alta definição, microfones subterrâneos, interceptadores de comunicação, câmeras de longo alcance e drones.

Subsidiada por uma empresa gigantesca, a WWF (World Wide Fund for Nature) está pesquisando sofisticados sistemas de vigilância no norte árido da Namíbia para poder criar maneiras confiáveis de obter informações em tempo real da localização dos caçadores, da patrulha florestal armada e dos rinocerontes monitorados eletronicamente, para implantação de estratégia eficaz para a proteção dos animais. Crawford Allan, autoridade em crimes ambientais da WWF/TRAFFIC, disse que o projeto foi disputado por dezenas de fabricantes de aviões não tripulados, uma vez que “seus contratos militares estão vencendo e eles estão buscando abrir espaço na área civil” para comercializar suas aeronaves.
A República do Quênia, que viu seus elefantes e rinocerontes serem exterminados em ritmo crescente, nos últimos anos, também aderiu à guerra armada contra os caçadores e liberou um aumento de verba para as patrulhas florestais armadas e anunciou, há apenas uma semana, a formação de uma nova unidade de elite contra a caça furtiva.

Muitos outros países africanos, incluindo Botswana, Gabão e a República dos Camarões, introduziram unidades militares em áreas de conservação, nos últimos anos, em consequência do aumento da caça furtiva responsável por assassinatos em massa de elefantes na África Central por caçadores associados às milícias Janjaweed do Sudão.

Ainda assim, os níveis epidêmicos da caça desses animais continuam se alastrando de forma alarmante. Em função desse quadro, muitos especialistas afirmam que esforços mais amplos são necessários. Ambientalistas dizem que o ponto crítico reside no sistema jurídico africano, onde a compilação de provas é sempre falha, os processos são tratados de forma omissa e juízes, geralmente, não levam crimes ambientais a sério, o que induz a uma falsa ideia de que a caça furtiva de animais é assunto de pouca importância. Apesar de alguns “pistoleiros de baixo-escalão” terem sido capturados e presos na África do Sul, os processos contra os “chefões” do crime têm se arrastado por anos a fio.

No Quênia, conservacionistas ficaram indignados quando dois policiais implicados num recente e inescrupuloso roubo de marfim de um, supostamente, local seguro, sob a responsabilidade do governo, foram demitidos, mas não processados. Em 1º de julho, um ex-adido de defesa dos EUA, David McNevin, foi flagrado, no aeroporto de Nairóbi, com marfim ilegal em sua bagagem. Apesar da gravidade do caso, sua única punição foi uma multa de cerca de U$350.00 (equivalente a R$837,00).

Incidentes como esses têm intensificado o clamor para que a caça furtiva seja tratada com a mesma seriedade com que são tratados o tráfico de drogas e o terrorismo, uma vez que todos eles estão interligados logística e financeiramente, conforme atestam peritos criminais. A nova Força-Tarefa criada pelo Presidente Obama para combater o tráfico de vida selvagem contém em seus quadros muitos representantes dos departamentos envolvidos no combate às drogas e ao terrorismo.

“Quando a produção de drogas é suprimida em uma área, ela reaparece em outra, por causa da constante demanda do consumidor”, disse Nadelmann, da Drug Policy Alliance. Por exemplo, a crise do rinoceronte na África do Sul foi precedida por uma onda de caça furtiva, pouco divulgada, no país vizinho Zimbábue, disse Jo Shaw, especialista em políticas de preservação dos rinocerontes da WWF-África do Sul.

Ambientalistas decidiram, então, transferir os animais sobreviventes no país para regiões relativamente pequenas e com “proteção intensiva”, após o que, a caça disparou na África do Sul.

Os contrabandistas já estão mudando as rotas do tráfico ilícito, em consequência da possibilidade de interdição, para países com controle frágil, assim como Togo. Algumas das maiores remessas ilegais de marfim, recentemente interceptadas na Ásia, contendo milhares de presas, teve como ponto de partida o porto de Lome, em Togo. Uma vez que em Togo a população de elefantes é de menos de 65 indivíduos, fica evidente que o marfim é originário de outros locais. Na África Austral, os contrabandistas agora evitam passar pelo aeroporto internacional de Joanesburgo, preferindo o aeroporto próximo e pouco policiado de Maputo, em Moçambique.

Se reforço policial e interdição não são suficientes, o que mais poderia funcionar? Nadelmann faz referência a um caso do cenário das drogas, envolvendo os usuários de ecstasy, popular na década de 90. Sua popularidade entrou rapidamente em declínio, depois que os traficantes começaram a adulterar seu principal princípio ativo com outras substâncias, destruindo, assim, sua reputação entre os usuários. Nadelmann sugeriu que uma “intervenção criativa no mercado”, planejada para criar desconfiança entre os consumidores da Ásia sobre a qualidade ou o valor dos chifres de rinoceronte e do marfim, poderia diminuir a demanda.

Alguns sul-africanos já estão tentando depreciar o valor do chifre de rinoceronte, injetando uma combinação de inseticidas tóxicos e corantes permanentes nos chifres dos animais vivos. A mistura dos corantes tóxicos, muito provavelmente, irá adoecer os consumidores (mas não matar) e também fará com que os chifres fiquem mais visíveis em máquinas de raio-x. Ainda é cedo para saber se esta tática reduziu a demanda, mas os responsáveis pelos rinocerontes estão confiantes de que, pelo menos, os caçadores evitarão atirar em animais com chifres envenenados…

Alguns grupos de ambientalistas especializados em comunicação dizem que relações públicas bem elaboradas e campanhas de conscientização junto à sociedade, na Ásia, poderiam reduzir significativamente a demanda por chifres de rinoceronte e marfim, citando como exemplo o recente sucesso de uma campanha para banir o uso de barbatanas de tubarão. A WildAid, que produziu vídeos instigantes com celebridades persuadindo os asiáticos a não consumir sopa de barbatanas de tubarão, disse que a importação de barbatanas de tubarão em Hong Kong, o maior centro desse comércio, teve uma queda de mais de 70 por cento, de 2011 a 2012 como resultado positivo da campanha.

Peter Knights da WildAid disse que esta organização produziu, recentemente, vídeos contra o consumo de chifres de rinoceronte e marfim, mas lutou durante mais de uma década para financiá-los. É extremamente difícil levantar fundos para as campanhas para reduzir a demanda, disse Crawford Allan da WWF/TRAFFIC, porque “os patrocinadores gostam de ter os pés no chão e de ver tecnologia”. Outros conservacionistas dizem que patrocinadores, políticos e os meios de comunicação acham as imagens de patrulhas armadas, drones e equipamentos militares “sexy”, lamentando que a natureza multifacetada da luta para salvar os rinocerontes e elefantes muitas vezes mascara a realidade.

Knights disse que políticos têm mostrado, recentemente, um maior interesse em minar a demanda na Ásia. Enquanto isso, os interesses financeiros em elefantes e rinocerontes aumentam dia a dia e caçadores, cada vez mais poderosos, continuam a colher seus lucros em toda a África.

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  1. Seria bom voltar a ler as Colunas Matar não educa e Educar o Estado, publicadas aqui na ANDA, na Questão de Ética. Tratam exatamente do fracasso no uso das armas para combater padrões valorativos de ordem moral.

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