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Os dois lados da história do macaco Chico

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Por Fátima Chuecco (da Redação)

Foto: Divulgação/G1
Foto: Divulgação/G1

Quando se vive 37 anos no inferno fica difícil ter uma noção da cor e sabor de um paraíso. Uma corrente presa ao pescoço por tanto tempo, até mesmo na hora de tomar banho, não lembra em nada uma vida feliz e recheada de amor. Esse é o lado B da história de Chico (ou Carla, como passou a ser chamado depois que descobriram seu sexo). O lado A da mesma história mostra uma senhora de 71 anos, simples e que parece mesmo gostar do macaquinho a quem se refere como “filho”. Ela o criou desde filhote quando foi vítima de tráfico de animais silvestres e diz que o mantinha acorrentado para não fugir.

A questão não é julgar dona Elizete Farias Carmona, que vive em São Carlos (Interior de SP), mas observar as condições em que o macaco vivia e as que ele se encontra agora num santuário em Assis (também no Interior do Estado). Talvez Elizete realmente achasse que estava fazendo o melhor pelo bichinho, mas isso não lhe dá o direito de continuar mantendo-o noite e dia acorrentado. Após a apreensão do macaco-prego, houve uma cuidadosa averiguação de seu estado clínico e se constatou marcas fundas no pescoço provocadas pela coleira de couro, atrofia das pernas e quadril (devido à falta de movimento e alimentação inadequada), além de peso abaixo do normal.

Carla vivia acorrentada -  Foto:  Alan Schneider/Divulgação/G1
Carla vivia acorrentada – Foto: Alan Schneider/Divulgação/G1

Um dado interessante é que Carla destroçou a coleira assim que a mesma foi retirada de seu pescoço (vide foto) e, curiosamente, guardou os pedaços. Na reportagem exibida pela TV Record é também possível notar que a macaquinha leva as mãos diversas vezes até a coleira, como que querendo que a libertem dela. Era permitido que ela subisse em alguma árvore e também ficava num tronco ou muro da casa, mas sempre com uma corrente presa ao pescoço com cerca de um metro e meio de comprimento. Elizete contou na matéria da Record que a mantinha presa porque uma vez fugiu e derrubou tudo na cozinha de uma casa vizinha.

Passado o susto da mudança de local, Carla foi então colocada num viveiro com outros de sua espécie e, segundo o presidente da Associação Protetora dos Animais Silvestres de Assis (APASS), Aguinaldo Marinho de Godoy, ela está comendo e passando muito bem. À noite dorme numa casinha junto com outros macaquinhos. “Isso é um evidente sinal de socialização. Ela está muito tranquila, vocalizando vários sons, delimitando seu território, trocando carinhos com outros macacos com atitudes de “catação” (tipo procurando insetos nos pelos) e trocando alimentação com as demais macacas. Em nenhum momento gritou, agrediu, mordeu ou arranhou as demais macacas. É de chorar de emoção de ver a alegria dela acariciando as outras”, comenta.

Segundo o ambientalista, a vida em bando é característica da espécie de Carla. Existem bandos de 20 a 50 animais e viver sozinho é que pode ser complicado para eles. Ele diz que entende a afeição que Elizete criou pelo macaco, mas é preciso ver o que é melhor para o animal também: “Como ser humano tenho pena da família de São Carlos, contudo, fazemos de tudo para preservar a integridade dos animais e defender a declaração dos direitos universais do bem estar animal. Falando como técnico, não acho que um viveiro na casa da família de São Carlos poderia dar à Carla a qualidade de vida que ela está tendo aqui, junto de outros da sua espécie e podendo interagir com eles pela primeira vez na vida. Inclusive, ela está aprendendo a utilizar a cauda como quinto membro e já começou a pular de galho em galho. Isso antes não acontecia devido a restrição da corrente”.
Com relação à dieta de Carla, Aguinaldo diz que está administrando a proposta pela Superintendência do IBAMA e que é a mesma usada nos melhores zoológicos do Brasil e do Mundo: tem chicória, agrião, acelga, cenoura, beterraba, milho vede, pepino, berinjela, uva, coco e amendoim. Ele também esclarece que a macaquinha não será solta na natureza devido sua idade: “Ela foi encaminhada pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de SP e uma ordem judicial do Ministério Público de São Carlos. Fomos nomeados fiel depositário da macaca e qualquer decisão que tomarmos se dará somente com a orientação desses órgãos reguladores”.

Foto: Divulgação/G1
Foto: Divulgação/G1

A polêmica da decisão
A história de Chico (ou Carla) mexeu com os nervos das pessoas. Inicialmente, a comoção maior foi em favor de dona Elizete. Duas petições foram imediatamente divulgadas e colheram cerca de 15 mil assinaturas pedindo a devolução do animal à dona. A OAB de São Carlos também comprou a briga e busca obter a devolução judicialmente. Mas no calor da emoção inicial, especialmente provocadas pelas imagens vistas na TV que não mostravam o dia a dia do animal e nem argumentavam a respeito de seu bem estar, muitas pessoas deixaram de avaliar o lado B da história. O argumento maior das pessoas a favor de dona Elizete é de que são 37 anos vivendo com a macaquinha, mas é preciso ter em mente de que se trata de uma convivência mantida a base de corrente. O animal não teve chance de sair dali, de escolher outro caminho.

O certo teria sido Carla nem chegar às mãos de dona Elizete, portanto, o falho sistema de contenção do tráfico de animais silvestres tem grande parcela de culpa nessa história toda. Mas o importante agora é averiguar como está a macaquinha. Se dona Elizete realmente a ama como “filha” saberá reconhecer que ela está feliz, vivendo perto de outros de sua espécie e fazendo coisas que nunca teve oportunidade de fazer. Pessoas furiosas alegam nas redes sociais que é um crime tirar Carla de dona Elizete, mas não seria um crime ainda maior destruir essa alegria que Carla está tendo perto de sua vida terminar? Macacos-prego só vivem cerca de 40 anos. Não seria mais sensato deixar Carla desfrutar desse convívio com outros macacos no tempo que lhe resta?

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  1. Se ele não gostava da dona Elizete,por se agarrou ao pescoço dela e teve que ser arrancado à força?Fato narrado pelos próprios policiais !Ele não escapava!Apenas saia pra ir na casa nos vizinhos,todos o conheciam e gostavam dele!

  2. “Para o veterinário de São Carlos Sérgio Wellichan, o atrofiamento pode ser causado tanto pelo confinamento, quanto pela idade avançada do animal. “Por estar na residência, ele não exercitaria as mãos como um macaco que fica em um recinto adequado. O quintal pode ser grande, mas é diferente da natureza onde os animais podem saltar de uma árvore para a outra”, explicou.

    Sobre o fato de estraçalhar a coleira, o veterinário disse que, se isso de fato ocorreu, pode ter sido em virtude do estresse. “Por mais que a coleira fosse agressiva, ele estava acostumado com ela. Se ele teve essa reação de destruir pode ter sido uma forma de evidenciar o estresse pelo qual ele estava passando pela mudança do ambiente”, declarou.

    O veterinário disse ainda que os macacos têm muita habilidade manual e que conseguem tirar a coleira caso eles não estejam devidamente presa. “Eu já vi macaco com a coleira amarrada para ele não conseguir abrir”, contou.”

    http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/08/ja-teria-morrido-se-fosse-maltratada-em-37-anos-afirma-dona-de-macaca.html

  3. pois e nao é que eu fui uma dessas pessoas que nao gostei qfuando vi a reportagem e achei injusto , ai passa o tempo e vc analisa o caso e agora nos resta acompanar a macaquinha em su novo habitat e como fica !!

  4. Nossa!!! Inicialmente eu fiquei com muita pena, mas não parei para averiguar que a macaca ficava acorrentada. Achei que ela ficava solta dentro de casa e/ou no quintal. Então a atitude foi mais do que certa! Espero que mostram-na feliz para podermos averiguar esta situação.

  5. A macaca NÃO vivia acorrentada como esta jornalista insiste em dizer e todos acreditam.Estou achando esta página tendenciosa também,vários amigos enviaram fotos do Chico solto e a página não publicou.

  6. Correto criar um animal silvestre em casa? Não! Mas quando se tem dinheiro, sim! Trocam-se as correntes coladas no macaco para que ele não fuja, por um espaço maior cercado por telas, por grades e, os mantém ali para privilegio de seus olhos. É lógico que a Dona Elisete não está dentro da lei, lei esta que foi criada bem após ela ter tomado a atitude de ficar com um macaco que iria ser abandonado a própria sorte pelo seu primeiro dono. Ela na sua generosidade, diante da circunstância, fez o que achou melhor para o animal, ela não o comprou numa feira ilegal de animais silvestres, nem o comprou pela internet. Deu um nome, amor, carinho e tratou bem sim do bichinho, caso contrário, ele não estaria vivo durante esses 37 anos. Deve-se levar em consideração sim, o laço afetivo que foi construído ao longo desse tempo. Se a questão do macaco Chico, são as correntes, que foram trocadas por jaulas, por que não dão a Dona Elisete a oportunidade de preparar um ambiente mais adequado em seu quintal para receber o seu macaco de volta? Porque não fazem uma orientação e acompanhamento profissional para que ambos (o macaco e sua dona) possam viver em paz, sem a dor da separação. Afinal, não temos como medir o que a macaca está sentindo, dizem os que a levaram que ela está bem, e pode sim estar bem, mas estaria melhor, vivendo de forma mais adequada perto de sua dona. Afinal também não podemos deixar de levar em consideração o bem estar, a saúde mental de UM SER HUMANO. Que está sofrendo a dor da separação de uma vida de 37 anos de união, e jamais imaginou ser alvo de tamanha crueldade. Ela está pagando pelos erros de outros, dos que não fizeram a fiscalização certa, dos que ganham dinheiro as custas deste mercado, dos que tem verdadeiros zoológicos particulares em suas propriedades para exibi-los aos amigos. Ela por ser uma pessoa simples, está servindo de exemplos para as autoridades mostrarem o seu poder. Enquanto isso, o mercado ilegal continua acontecendo por aí, e os ricos recebendo suas devidas licenças.

  7. Só vou mudar minha opinião quando eu ver um vídeo dela, feliz do jeito que dizem, neste viveiro aí…
    E também queria que marcassem um encontro entre ela e a Dona Elizete… aí veríamos e verdadeira reação e mostraria com quem e onde ela gostaria de ficar…
    Como vocês disseram, a outra macaquinha que sofreu maus tratos tem aversão a mulheres loiras, pq deve trazer lembranças ruisn… Se a Dona Elizete trouxer lembranças ruins à Carla, veremos num reencontro!!!!
    Se ela realmente estiver feliz e não demonstrar mais a mesma afeição pela “mãe”, aí eu mudo minha opinião.
    Mas por enquanto, to achando estas reportagens super tendenciosas sempre insistindo que “no tempo que resta, ela deve ficar com seus semelhantes” e insistindo em “reprodução”. Sério mesmo que ela pode se reproduzir ou só querem que ela se reproduza para ficarem com mais macaquinhos e mais dinheirinho na ONG, hein????
    Pena q a Carla não pode falar!!!

  8. Eu não assinei nenhuma petição para a macaquinha voltar para essa mulher que a escravizou e tenho certeza que o lugar dela é no santuário junto com os da sua espécie. Chega de carcere…

  9. Errado, isso está tudo errado!!! Com 37 anos de convivência, há muito amor entre eles. Então as autoridades deveriam ajudar a melhorar as condições de vida deste macaquinho na casa dele, com a mãe dele. Penso que não precisava dividir, mas sim somar. Efetuar acompanhamentos, melhorar a estrutura dele, se for o caso. Penso que isso seria digno de aplausos. Temos que lembrar que os macacos tb tem sentimentos… e que não deva prevalecer somente a lei, que se não me engano é de 98… e o maquinho está desde quando com a família????? Para esses casos, deveríamos ter alternativas.

  10. Perfeita a explicação dos dois lados da história, eu admito sim que também assinei o abaixo assinado, mas tudo em favor do bem estar do animal, mas realmente concordo que não seria justo para a Carla viver presa em uma corrente (coisa que eu não sabia) por toda sua vida, a dona dela por ser um ser racional por mais que a ame deve ter consciência que hj Carla está entre os seus… e com mais liberdade para poder ser ela mesma, se ela a ama como uma filha mesmo, então deve deixar que a macaquinha possa ser feliz em sua vida nova e gozar de uma liberdade que até então ela desconhecia. Deixo aqui minha confissão em errar ao assinar o abaixo assinado sem ter maiores informações sobre a vida que a macaquinha levava, como disse no começo e direi sempre, tudo pelo bem estar, respeito e dignidade com a vida dos animais. Desejo de coração que ela seja muito feliz em sua nova vida e que dona Elizete como mãe saiba entender que sua “filha” está feliz e em liberdade!!!

  11. Puxa que macaquinha sem sorte, quem conhece um inferno chamado CETAS fica com uma enorme dúvida sobre a destinação desse animal.

  12. Prezados, macacos nao sao cachorros, ou outros animais domesticos. Por serem animais silvestres (restritos a ambientes naturais, pouco ou nao antropizados) e de comportamento social, precisam do convivio com outros seres da propria especie para seu bem estar. Nao importa o quanto “amor” a dona manifestou nesses anos todos. O importante e que nao e igual a cachorro: nao fica bem no convivio humano. Milhares de anos de co-evolucao com a raca humana fizeram de cachorros, gatos, coelhos, cavalos e outros os animais apropriados para manter nas nossas residencias. Macacos precisam de outros macacos, de percorrer seu territorio, de manifestar comportamentos da propria especie. Ela manteve em casa por falta de opcoes, tudo bem. Mas dizer que amava como um filho e se opor a dar o melhor para ela nos ultimos anos da sua vida nao e amar. Nao importa quanto carinho os humanos estejam dispostos a manifestar: jamais sera satisfatorio para a macaca, e muito menos melhor do que o convivio com seres da propria especie. Nao critiquemos a D. Elizete, mas tambem nao defendamos a postura duma pessoa que, dizendo amar, levava pra propria cama (macacos dormem em galhos, nao na horizontal como humanos) e restringia ao animal a 1.5 metros de corrente, no pescoco (mesmo que “por vezes”). Que tipo de alimentacao recebia este animal? comida cozinhada, com certeza. Temperada ao gosto humano. Com levedura, acucar, corantes. Isso e amor? isso e egoismo. Sem criticar, apenas vendo os fatos, a D. Elizete devia estar feliz que nos ultimos anos da vida da Carla ela recebira os os unicos “carinhos” que sabe reconhecer: os que vem de outros animais como ela, que se comunicam do mesmo jeito. Nao ao trafico nem a posse de animais silvestres, nem de ricos nem de pobres! Tantos animais domesticos aguardando por donos que dem amor a eles!!!

  13. É hipocrisia de um orgão como OAB ainda querer acabar de novo com a liberdade da macaquinha carla na real OAB tinha que processar dona elizete por carcere em animal silvestre como na forma da lei, justiça existe para isto nada mais justo do que devolver a liberdade para quem de direito no caso Carla presa em uma corrente durante 37 anos só porque é uma macaquinha e devia agradar uma senhora ignorante que não sabe o que é amor de verdade. pelo amor de Deus não mandem Carla de novo para o CATIVEIRO. lutem na justiça até uma instancia para Carla ficar onde esta com seus pares e que Deus lhe de muitos anos de vida agora sim com alegria.

  14. Sou extremamente a favor dos direitos dos animais, mas depois de 37 anos acho cruel separar o bichinho de seu meio. Concordo que dar a ela boas condições nos últimos anos de vida é importante. Mas num País que não cuida de ninguém resolveram agir num caso onde a dúvida sempre vai existir. Neste caso é o melhor? Perguntem para a macaca!!!

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