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Microfísica do poder carnista: a desqualificação da fala da criança imputando a infantilização do vegetarianismo na massificação do vídeo Luiz Antonio

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O vídeo quase todo mundo já conhece. Um garoto, de no máximo 3 anos de idade, a partir de um prato de nhoque de polvo que lhe é posto a comer, articula de maneira genial e lúcida argumentos explicando o seu não-querer comer o animal, apresentando as razões para que as pessoas não comam mais quaisquer animais. A mãe do menino, impressionada, põe-se a chorar diante da perfomance do filho, tão novo, já vegetarianizando.

No discurso de Luiz Antonio, o referente ausente – esse corpo do animal vivo que foi violentado e deslocado como refeição – conceito ao qual Carol J. Adams se refere em A Política Sexual da Carne – é veiculado apesar e/ou justamente no contexto da baixa idade – situação essa que configura um insight daquilo que Tom Regan, em seu livro Jaulas Vazias, chama de vegetarianismo vinciano (referência a Leonardo da Vinci, que teria tecido a conexão do referente ausente já na sua infância, tornando-se vegetariano logo cedo).

Tal qual um viral, o número de compartilhamentos no facebook é imenso: considerando somente uma única página hospedeira (Vegetarianos e Veganos: Amor é Ética) já são mais de 130.000 compartilhamentos. O vídeo está no meu face. Está na página de vári@s vegetarin@s e vegans que conheço. Já surgiu divulgado em páginas de pessoas de outros países, apresentado em outras línguas. E o que me importa, a título desse artigo: está amplamente divulgado em páginas e murais de pessoas nada vegetarianizantes, ou seja, de pessoas que comem pedaços de animais mutilados, e que não pretenderam questionar tal hábito.

Ainda sim, uma grande parte da militância vegan interpreta essa disseminação massiva do vídeo como, enfim, um resultado positivo; como o sintoma de alguma receptividade, ainda que pequena, da sociedade carnista ao vegetarianismo, fruto de tantos esforços de conscientização envidados – resultado positivo esse que seria capaz, ele mesmo, de ampliar o alcance da mensagem dos direitos animais para ainda mais longe, conquistando mais adept@s.

Se essa percepção corrente no meio vegetariano – que entrevê a disseminação do vídeo de Luiz Antônio como a construção de mais uma avenida para a ampliação da praxis vegana – não está totalmente equivocada (oras, trata-se de fato de uma via de trânsito de discursos), essa mesma percepção está bem menos atenta para o fato de que, como todo via expressa, ela opera necessariamente também e justamente em sentido contrário. E dado que, na atual conjuntura histórica, a solicitação da demanda carnista é muito maior do que a da demanda abolicionista, é de se suspeitar que o tráfego de lá pra cá seja muito maior do que o de lá pra cá…

Eis minha (hipó)tese: nessa batalha tantas vezes sutil e silenciosa que opõe as pessoas que querem tirar o boi da faca e as que querem que se coloque a faca no boi, essa divulgação massiva em territórios do carnismo-socialmente-naturalizado se dá muito menos como testemunha de um avanço dos movimentos de libertação animal. A massividade dessa divulgação corresponde mais à massividade da ideologia pró-consumo de animais: o sucesso do vídeo se registra justamente enquanto exercício que neutraliza a subversividade abolicionista pretendida na fala de Luiz Antonio, cerceando essa fala no playground de uma infantilidade aqui segregada como um espaço-tempo das ficções, das fantasias e das fábulas do qual, obviamente, o espaço-tempo adulto – “esse mundo real e realista, por vezes necessariamente cruel” – definitivamente não participa e se distancia, sobressaindo-se nostalgicamente de uma “pureza de uma infância remota”. (” -Oh que fofinho! Oh que saudade da doce inocência dos tempos de criança!” – eis as falas carnistas-dominantes que estão implícitas nessa ampla divulgação do vídeo, de modo a dissuadir a potência de sua subversividade).

Ocorre aí, de fato, uma conjuração de forças que, envidadas nas malhas de um carnismo-especista socialmente dominante, acopla, de um lado, o vegetarianismo ao mundo infantil (mundo esse das ficções, da inocência sem noção, da inexperiência e das fábulas-dos-animais-que-falam) e no reverso o comer carne ao mundo adulto (mundo realista, mundo vivido das experiências reais e da racionalidade das argumentações conscientes e embasadas).

Promove-se aqui um apagamento do vegetarianismo abolicionista junto e especificamente através de um cancelamento do agenciamento e da participação da criança no mundo comum, representando-se sua atuação como um mero balbuciar de um tempo da inocência fantasiosa – inconsciente de si e, portanto, da realidade das coisas do mundo. Imposição de uma inocência que interdita a essa criança a possibilidade de acesso a seus próprios saberes e à consistência concreta do que faz e diz. Um mundo infantil que não é, obviamente, o dos adultos falantes, impuros mas responsáveis, verdadeiramente conscientes do que fazem, ainda que às vezes errem. Um mundo infantil que é incomunicável e incomunicado e está perdido nostalgicamente nas memórias de um passado longíquo, que nada tem a dizer e informar à realidade aqui-e-agora do mundo real – ao qual pertencem os animais reais – e à vida dos adultos, comedores de animais que são, “fatalidades do mundo tal como ele realmente é” .

Crianças segregadas e cuidadas paternalmente no limbo das experiências ilusórias, um (não-)mundo forçosamente alheio ao dos adultos: os argumentos de Luiz Antônio são enquadrados e policiados como um lúdico balbuciar da fábula, presunção que gesta assim a desqualificação do discurso vegetariano em geral, de sua capacidade argumentativa, de sua própria racionalidade – atributos estes que só aos adultos, comedores de carne que são, pertence.

Resultado: sob essa perspectiva hegemônica, o carnista que compartilha o vídeo (o adulto da história) é ensejado a permutar tranquilamente, como moedas de mesmo valor, “a-fábula-infantil-dos-animais-que-falam” com “a-ilusão-vegana-dos-animais-que-sentem-dor-e-devem-ter-direitos” – encerrando esse vegetarianismo infantil e essa infantilidade vegetariana no mesmo limbo: ei-los no campo da pura fantasia.

Eis o desvelamento de uma economia de significados carnistas hegemônicos que, ao diluir a ameça aboliconista animal na inocuidade forçosa da infância, incentiva a si mesma, promovendo-se tautologicamente em milhares de compartilhamentos… Assim, o vídeo já foi promovido pela Rede Globo – “super-crítica” que é ao especismo e às estruturas sociais dominantes – mediante o site da revista Galileu… E a quem for prestar vestibular esse ano fica aqui uma dica-aposta: quem sabe o vídeo não seja o próximo tema de redação do Enem?! (…) E quem sabe, também, essas próximas redações não sejam justamente o momento de reviravolta dessa infância metida no limbo: a reversão no fluxo do tráfego de uma avenida a partir de agora chamada Luiz Antonio.

*Gustavo Nassar é vegano, graduado em História pela UFOP, interessado em filosfia animalista e pós-anarquismo.

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  1. Perfeito! Eu canso de falar que só teremos resultados se estudarmos as minucias dessa guerra. Esse é um dos momentos que podem servir para isso. Grande contribuição este texto!

  2. Ai quanta chatice. Quanta complicação. Quanta “teoria da conspiração”.
    O vídeo é bom, meigo e carismático. Passou um recado de forma inocente e bonita. Simples, apenas isso.
    É por essas e outras que nós, veganos, somos considerados chatos e radicais.

  3. Este texto nao invalida a divulgação do video mas amplia seu significado e abre uma discussão sobre o alcance e eficácia do trabalho de todos que se importam pelos direitos dos animais. Parabens Gustavo!

  4. Perfeito. Prá quem achou “complicado” ou “difícil”, podemos desenhar: 1.Criancinha gosta de bichinhos e não quer comê-los. 2.Adultos vivem no “mundo real”, onde “é preciso” comer bichinhos. 3.Logo, quem não quer comer bichinhos (veganos), é infantil. Essa é APENAS UMA das leituras do fenômeno, ninguém está dizendo que é a ÚNICA, gente!

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