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Os animais têm que permanecer amarrados

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corrente cachorro

Pois os humanos têm o estranho fascínio de conter os animais não-humanos, acorrentar, acoleirar, prender, confinar, amarrar, colocar grilhões, cabresto, para impedir a livre movimentação. Para impedir que vá embora. Para manter dentro das fronteiras de sua propriedade. Para a ave que ainda pode escolher a rota de vôo, e especificamente pode voar, há uma que vê o mundo através das gradezinhas de um aquário – uma gaiola, olho como o derradeiro fiapo de liberdade. Cardumes rodam sem mapa de navegação, mas os atuns já ganharam seu chiqueiro, para que não saiam das bordas de um proprietário, tolhidos da possibilidade de, oceano extenso, ir em frente. Mas não se permite.

Se o cachorro não está a fim de andar, a coleira resolve essa insubordinação, e seu dono-tutor-feitor sai para passear no sábado de manhã, de abrigo e óculos escuros. E dá-lhe patinhas acompanhando o passo, mais uma das coisas que não escolheu em sua vida de eletrodoméstico-que-aprendeu-a-fazer-xixi-no-jornal. O cachorro sortudo, porque o azarado vai permanecer preso no pátio até o dia que morrer, com horizontes limitados ao comprimento da corrente que – em um momento magnânimo – for comprada para ser presa a seu pescoço. São pessoas que gostam de animais.

Basta abrir os olhos durante o fluxo de trânsito – é um desafio, pois a maioria se recusa a abrir os olhos, e podem reagir com violência à insistência – para ver o cavalo preso pela boca, cabeça, pescoço e tronco, puxando uma carroça que não lhe devolve sequer comida e água em troca da perda da liberdade e do terror diário na zoeira urbana, chicote e chutes pontuando a lembrança do ‘quem é que manda em quem’. Lhe resta andar para frente, puxando o peso da inércia social e do remorso engessado em quem diz ter pena do cavalo, do carroceiro, dos filhos do carroceiro, da égua grávida que capotou no asfalto, dos meninos no sinal, dos velhinhos no asilo, etc. Que a configuração dos astros ou whatever lhe permita ser manso durante o jogo de xadrez das ruas entupidas, pois para muitos cavalos assustados com os automóveis, a solução é ter o olho esquerdo perfurado ou queimado. Ele abriu os olhos demais, enquanto outros se recusam a enxergar, presos atrás de um monitor de computador, presos à pressão do círculo social, às ordens dos pais ou do cônjuge, à vergonha de se perceber sentindo o que o vizinho não sente.

Na pecuária, o gado vai, ou vem, inclusive vem a este mundo, sob os desígnios de um cara de chapéu, chamado de doutor pelos peões – intermediários entre dono e gado, embora não percebam. Uma argola no nariz da vaca, piercing à força, e docilmente ela se dirige ao lugar correto, ou faz a pose certa para os fotógrafos, quando alguma autoridade quer fazer cafuné na cabeça dela, durante a abertura de alguma feira de agronegócio. A vitela – pauta de emails enviados por muita gente que acha um horror, mas come carne sem grilo – é o ponto máixmo do desenvolvimento da arte de prender um animal e lucrar com cada vez menos espaço, valendo tickets de supermercado cada vez maiores, lá adiante. Em todas as situações, o aferrolhamento dos não-humanos como segurança para os humanos, no financeiro, no ‘desenvolvimento econômico, social e geração de empregos e renda’, no lazer e na masturbação do paladar diário.

Levar as crianças ao zoológico é desfilar perante o conceito de que as feras ficam presas, para nossa segurança. Até há as feras gentis, mas é melhor não confiar. As que parecem gente, parece até que nos entendem, parece que sabe que estamos falando delas, parece mesmo que estão nos olhando nos olhos.

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  1. Um cão na rua,deve andar com a guia,se for grande e bravo com focinheira.Um cão numa casa pode em algum momento ficar preso,para não fugir ou atacar alguem,não vejo erro nisso.
    Antigamente os gatos viviam solto,hoje dizem que para o bem deles devem sempre ficar presos dentro de casa,vivem mais,não procriam,aidna mais quem não o castrou,tornam-se mais calmos.
    Não entendi ao certo este texto,parte sim,outras não,
    Se não cuidarmos assim dos nossos cães e gatos podemos perde-los e serem maltratados nas ruas,mesmo assim,com cuidados,muitos são perdidos diariamente.
    As “feras”do zoo,são feras,se não ficarem presas ,estarão andando pelas avenidas.O correto é não estarem lá,mais como estão,nãop odem ficar soltas,e no zoo de SP,o habit do animais são excelentes.

  2. No fim de semana passado, assisti a uma reportagem de um famoso programa dominical do agronegócio em que um pecuarista de Campinas solicitou auxílio a um problema que ocorria em sua propriedade: as vacas adultas mamavam em suas próprias tetas. Esta degeneração de comportamento seria devida ao desmame extremamente precoce e, a solução sugerida pelo especialista (nada de conceder às bezerras seu merecido leitinho materno), uma argola repleta de espinhos de plástico no focinho dos animais. Muito cuidado, disse a apresentadora, esta solução pode causar dor aos animais, e completou: sentindo dor os animais não se alimentam e deixam de produzir leite, comprometendo o seu lucro…

  3. Bueno,
    seu texto diz tudo o que expressa o estado mental humano atual em relação aos animais “estimados”. Imagina, se estimar significa isso tudo, creio que os animais prefeririam que não tivéssemos estima alguma por eles. Que os deixássemos em paz, resolvendo suas demandas com uso da mente que a natureza lhes deu. Mas, sabemos, o que eles fariam não iria nos agradar nem um pouco, né? Por isso, para que não tenham iniciativa alguma em atender suas próprias necessidades a seu próprio modo, nós os confinamos.
    Com relação à vitela, as pessoas têm horror quando ficam sabendo, mas continuam a tomar seu sorvete, beber sua vitamina, comer a pizza quatro queijos… e nada disso existe sem deixar como marca a desgraçada vida dos vitelos forçados a nascer sem que ninguém os queira vivos rondando o teto de leite de suas mães. Leite e vitela são indisociáveis.

  4. Eu nunca cesso de me surpreender com as reações ao tipo de argumento elaborado no artigo. Algumas pessoas simplesmente não querem entender que não existe contrapartida proporcional ao que subtraímos desses animais quando os aprisionamos. Não existe zoo “excelente” o bastante para esses animais se a alternativa for a liberdade em seu habitat de origem! Não existe corrente valiosa o bastante se a alternativa for mais liberdade movimento! Impressionante o egoísmo de quem racionaliza qualquer injustiça para apaziguar a própria consciência…

  5. Ao ler o primeiro comentário, descobri que o zoológico de SP, que eu, felizmente, não conheço, possui um hábitat excelente para os animais lá presos, savana para os leões, mata fechada para tigres e onças. gaiolinha de vidro para cobras, aranhas e anfíbios. Deu até vontade de morar por lá!

  6. Sou vegetariana em respeito a vida.nao compro material de construçao em loja q usa animal.crio minhas 5 cadelas soltas(recentemente recolhi 1 na rua).mas p/leva-las a rua ou a veterinaria uso uma guia,pois sei q se forem soltas sao como crianças q tem q ser seguras pela mao p/ nao serem atropeladas.penso q se a pessoa nao qr o animal dentro de casa nao deve cria-los,prende-lo e injustiça.

  7. Por essas e outras que a domesticação dos animais é extremamente discutível! Parabéns pelo texto. Adorei a parte final, do zôo.

  8. O ser humano trata os animais de forma covarde e egoista .É como se eles existissem apenas para a servidão ,e isto é passado ás crianças com a maior tranquilidade.São carneiros ,poneis e ate mini vacas ,(animais modificados genéticamente) para servir de diversão às pessoas ,principalmente as crianças ,que por absurdo que pareça são levadas ,com o consentimento dos pais, a assistir esses pobres animais confinados em minusculos espaços servindo de mercadoria para diversão.

  9. Márcio, Parabéns pelo texto.Sou a favor da extinção da nossa raça para que os animais e plantas tenham alguma chance de viver em harmonia, nos proliferamos de maneira expônencial ( como praga, que somos) e ninguém fala sobre isso, pelo contrário, só vemos incentivos.Abs.

  10. Esses miseráveis, egoístas, falando sobre uma situação com essa da foto, se manda do lugar e abandona os seus pets, para piorar presos, como nesse caso, para morrerem… Pobres animais, q jamais abandonariam seus donos e até dariam a vida por eles… Enquanto outros verdadeiros seres humanos, por mais difíceis q tenham sido as situação, levaram consigo a vida, q é o q mais tem valor, e ñ só o egoísmo de só pensarem em si…

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