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Anistia ampla, geral e irrestrita

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Não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos. (Martin Luther King Jr)

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Naquele ano de 1968, o domingo do Dia das Mães não teve nada de normal. Meu irmão de 18 anos, preso dias antes em uma manifestação estudantil no centro de Belo Horizonte, estava nas mãos do DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Sua prisão e o aparato policial envolvido eram desproporcionais, fato que levou o cartunista Henfil a registrar a prisão em uma de suas charges. O então poderoso Coronel Medeiros liberou, por insistência de minha mãe, a sua saída por algumas horas. Com ele vieram alguns policiais à paisana, que o acompanhavam de perto.

Eu ainda não tinha completado seis anos de idade e observava tudo, acredito já com certo estranhamento!  Também naquele mesmo ano, meu irmão mais velho, entrava na clandestinidade antes de partir para o exílio. Voltaria para a convivência familiar somente em 1979, doze anos depois, com a Anistia Ampla Geral e Irrestrita. Esse tempo foi, para alguns brasileiros, de muita apreensão.

Enquanto o Brasil, embalado com o hit “90 milhões em ação, pra frente Brasil”, se divertia com a Copa do Mundo de 1970, outros tinham seus gritos abafados em uma realidade de censura, tortura, mortes e desaparecimento.

Quem retratou de forma radical esse período foi o sociólogo e escultor Guido Rocha (1933-2007). Suas esculturas são de denúncia e expressam Cristo como personagem torturado. Os músculos contraídos apresentam um quadro inquietante de dor aguda, longe do Jesus plácido e rosado dos crucifixos das igrejas. Guido foi covardemente torturado, daí a sua autoridade e liberdade para esculpir essa dor.

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Esses fatos e imagens guardados no fundo da memória criaram condições e formam a base de compreensão e sensibilidade que hoje favorece o meu entendimento de que o direito à vida, à integridade física e à liberdade são direitos inalienáveis, independem de cor, sexo, religião, etnia e também, da espécie.

Em nossa história recente a escravidão foi abolida. Pelo critério da cor de pele, durante séculos, milhares de negros foram brutalmente arrancados de suas terras, de suas famílias e levados cativos para terras longínquas. Homens, em várias culturas, com violência física e moral, oprimiram e oprimem as mulheres. Ao longo da história, centenas de etnias foram perseguidas e dizimadas.

Ainda nos dias de hoje milhões de animais não humanos nascem sob o regime de escravidão, opressão e tortura. Estão na linha de produção, nas esteiras da indústria animal. Transportados e manipulados como “cargas” são afastados de suas crias, têm seus corpos entupidos com hormônios, privados do movimento, da luz do sol e da liberdade.

O critério que o animal humano adota para justificar esse comportamento é unicamente a espécie, daí falarmos de “especismo”. Esquecemos que os animais sentem dor, medo, frio, fome, instinto materno, tristeza e alegria. São seres sencientes como nós, com direito à vida, à liberdade e à integridade física.

Eles aguardam ardentemente o dia da abolição dessa escravatura. Aguardam, com gemidos inexprimíveis, o dia da sua anistia ampla, geral e irrestrita. Com dores de parto, aguardam a sua libertação.

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  1. Pessoas queridas, algumas conheço e outras não. Agradeço, mais uma vez, pelas manifestações e palavras de incentivo.
    Abraço fraterno,
    Aleluia

  2. Muito bem escrito, como sempre.
    Querida, você fala com convicção e usa a alma para fortalecer este intento. Motivos de orgulho para os que acreditam na organizção das pessoas em busca de ideais comuns.

  3. Aleluia,
    você escreve, pioneira, sobre uma questão que me intrigou na década de setenta: como pretendíamos o fim da violência contra humanos, se, ao mesmo tempo, praticávamos todo tipo de tortura contra os animais não-humanos? Obrigada por seu texto!

  4. Sua História aqui na terra nos aproxima da nossa história no céu..Ageu você é mesmo um Cristão, um pequeno Cristo entre nós….como é bom te”conhecer… andar com você.

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