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Educação vegana versus bullying

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Atualmente tem se destacado demasiadamente os casos de bullying nas escolas, em especial quando resultam em lesão corporal grave ou homicídio (1).

As características clássicas dos bulidores são: personalidade autoritária, necessidade de domínio das situações em que se encontram, facilidade em se enraivecer e resolver os problemas de maneira agressiva usando a força bruta e sucessivamente, obsessão na promoção da autoimagem e visão preconceituosa sobre os que se encontram em estado de vulnerabilidade. As vítimas, por outro lado, geralmente são tímidas, de biotipo aparentemente frágil, adeptas de um estilo musical não muito comum ou em minoria naquele ambiente, esteticamente fora dos padrões socialmente determinados, seguidoras de uma crença religiosa oposta à do bulidor, oriundas de outra região do país trazendo consigo o regionalismo linguístico (foco de ataque do bulidor), de condição socioeconômica vulnerável, e com paupérrimo capital cultural (ou o contrário, assediado por apresentar-se intelectualmente mais adiantado).

As condições em que o bulimento se materializa também já foram bastante divulgadas pelas mídias com o intuito de que professores e pais intervenham e acabem com tal prática. No entanto, tenho a impressão de que tudo não passa de uma jardinagem malfeita; preocupa-se com o podar da copa e ignora que o que dá forma a todo o arbusto é o cuidado com o solo.

Não é necessário ser versado em psicanálise para saber que toda violência física, moral e simbólica levada a cabo por adultos tem sua gênese na infância. Ou seja, a criança e o adolescente bulidor de hoje têm forte tendência em se tornar o pai e marido violento de amanhã. As meninas não ficam de fora dessa triste constatação, em algumas escolas elas são muito mais violentas que os meninos. No que se refere a submeter o outro a humilhação moral, elas sempre foram mais bem dotadas, já que o intimidar pela força física fica a cargo da tradição machista.

Mas onde entra a educação vegana formal de base nessa história? Bom, a minha experiência educacional tem me levado a crer que uma criança ou adolescente que tem o hábito de defender uma pessoa de outra espécie não temeria as ameaças, intimidações e humilhações dos bulidores. Se desde a mais tenra idade a criança é formada no princípio da não violência (ahimsa), no respeito ao outro, e nesse outro entendemos humanos e não humanos, incluindo obviamente os ecossistemas naturais. Se a criança é constantemente levada a entender e compreender que todos os seres sencientes que se encontram em estado de vulnerabilidade merecem ser protegidos de tudo o que lhes causa um mal, e que ela mesma está em situação semelhante, é muito pouco provável que ela pratique o bulimento com os outros.

Estou me referindo àquelas crianças que não tiveram sua empatia pelos outros animais castrada pelos pais e professores. Regan diz que poucas pessoas nascem vincianas, algumas são damascenas e que a maioria esmagadora dos DDAs foram relutantes (2). Assim como o pensador estadunidense utiliza fortemente o recurso à analogia para apresentar suas teses em defesa dos direitos morais para humanos e não humanos; as crianças – pelo menos é o que minha experiência tem constatado – são exímias especialistas em fazer analogias. Cabe aos educadores veganos explorarem essa capacidade infantil e fazer nascer ali o damasceno adormecido, e dentro do possível já introduzir faíscas de raciocínio ético.

Não estou dizendo que os educadores veganos devem dar aula de bioética nos moldes acadêmicos para as crianças, estou dizendo que a empatia delas deve ser fortalecida com o raciocínio ético via recurso à analogia, prática comum infantil. Alguns leitores podem pensar que estou sendo muito rousseauniano aqui; e estou. Acredito que o ser humano nasce bom e que a sociedade o corrompe. “As crianças são sensatas. Reagem ao amor com amor, e reagirão ao ódio com ódio. (…) Eu afirmo que a maldade não é básica na natureza humana, como não é básica na natureza de um coelho ou de um leão. Encadeie um cão, e um bom cão se tornará mau. Discipline uma criança e uma criança boa e sociável torna-se um odiento, mau e insincero. É penoso, mas a maior parte das pessoas está segura de que um mau menino deseja ser mau”(3).

Era prática comum na Grécia antiga comparar o filósofo com a criança, pois os dois vivem dos porquês. Infelizmente, hoje, a prática comum é podar/castrar as maravilhosas dúvidas e questionamentos das crianças, e com isso levá-las ao abandono gradual do espanto com o óbvio, a abandonar sua empatia natural em troca da frieza, grosseria, hostilidade e violência. A Paideia aristotélica nos ensina que é através da mimesis que se dá todo processo educativo, ou seja, a virtude só é praticada após ver o mestre praticando e é na prática da virtude que nos tornamos virtuosos. É necessário que os educadores veganos criem uma estrutura estruturante de um habitus não violento e respeitoso.

Crianças formadas dentro dos princípios pacíficos da ética animal e ambiental terão condições emocionais e intelectuais para se proteger dos assédios intimidadores dos bulidores e muito provavelmente não se tornarão praticantes do bulimento. Mas não podemos ignorar a agressão física que acompanha boa parte dos assédios.

Como as crianças podem se defender numa situação dessas em que não há um adulto por perto e a “diplomacia” e força de espírito da criança não conseguem fazer frente ao bulidor? Uma saída esta na prática marcial. Artes como jiu-jítsu, judô, kung-fu e aikido são excelentes meios de combater o bulidor sem o agredir, apenas colocando-o no seu devido lugar. O jiu-jítsu, por exemplo, foi criado por monges budistas, adeptos da não violência; o aikido, segundo Morihei Ueshiba, seu fundador, não consistia em uma prática marcial, e sim em uma Arte da Paz: “Aikido não é uma técnica para lutar com ou derrotar o inimigo. É o caminho para reconciliar o mundo e fazer dos seres humanos uma só família”. (…) “O segredo do Aikido não está em como você move seus pés, e sim em como você move a sua mente. Eu não estou ensinando técnicas marciais. Eu estou ensinando a vocês a não violência” (4).

Fala-se tanto hoje em dia que devemos combater o bullying. Eu já disse, mas vale a pena repetir: veganismo também é um esporte de combate 5. Educação vegana de base pode ser o caminho.

Referências

1. Vejam as películas: “Bullying – Provocações sem limites” (Bullying, Espanha, 2009, 93 min). Direção: Josecho San Mateo. E “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine, EUA, 2002, 120 min). Direção: Michael Moore. O caso de Columbine teve sua versão brasileira no caso de Realengo, Rio de Janeiro. Penso que a bióloga e educadora Ellen A. V. de Freitas nos deu uma pista do motivo pelo qual tudo isso ocorre em:
https://www.anda.jor.br/2011/09/07/%E2%80%9Ctive-fome-e-nao-me-destes-de-comer-tive-sede-e-nao-me-destes-de-beber%E2%80%9D/
2. REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Porto Alegre: Lugano, 2006. p. 25-44.
3. NEILL, A. S. Liberdade sem medo. São Paulo: Ibrasa, 1980. p. 148.
4. Disponível em: http://www.aikidobr.com.br/aikido/
5. http://www.sociedadevegana.org/index.php?option=com_content&view=article&id=23:educar-para-o-veganismo-enfrentar-ou-recuar-&catid=17:educacao&Itemid=5. Nesse texto da sociedade vegana uso os princípios do jiu-jítsu e do judô para inspirar os educadores veganos no combate ao corpo burocrático especista escolar. No texto acima vejo que os princípios podem muito bem ser usados pelo educando.

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  1. Caro Leon, realmente é crescente a massa de educadores que tenta cortar qualquer laço de empatia que as crianças ainda tenham com os animais. Os livros didáticos e documentos oficiais reforçam essa cultura especista e acima de tudo hipócrita. Tais educadores ignoram as relações entre especismo e outros tipos de violência, como o bullying. A andresa também abordou muito bem o papel do educador e a violência em seu ultimo texto aqui na anda, em sua coluna Cidadania. Parabens pelo texto e continuemos, como educadores, fazendo frente.
    Um abraço!

  2. LEON,
    Também reparo que desde que a escola onde trabalho começou a se envolver e falar das grandes causas, diminuiu o assunto de bullying.
    Parabéns pelo texto.
    Aleluia Heringer

  3. Salve meu caro,
    Gostei muito do texto. Infelizmente a maioria do corpo Estadual de Educação, e pra ser mais direto, a sociedade antropocêncrica, não só não compreende o Bulling – como você disse: péssima jardinagem – como também o pratica contra nós. Eu sei das dificuldades e perseguições por todos os lados dentro de uma escola ao tentar – no mínimo – iniciar o veganismo. Passar a morte dos animais que ELES matam geralmente vira escadalo.Ou seja, você, por ser vegano, naturalmente sofre ataques dos que insistem na alimentação difuntífera. É o Buling contra o professor.
    Ja houve caso de eu ser atacado por professores equanto os poucos alunos a fovor dos animais eram atacados por outros alunos zoofágicos.
    Por isso, faço coro com você: o combate mental, isto é, a base dos combates físicos orientais já a não violência.
    Um ditado Shaolin(arte marcial com base em Bodhidarma, mestre buista idiano que ensinou na China)dis: “Não lutamos pra saber quem é melhor, mas pra endireitar o que estiver errado”.
    De modo que o vegano tem a obrigação de lutar o combate mental. Correr dos argumentos é legar aos outros a nossa ignorância.

    Brigado professor

  4. Já fui professora e sei o quanto a causa animal é ignorada.Porém,não podemnos generalizar e tenho muito orgulho de ter participado de um projeto na escola,cujo tema era “Amigo Bicho”.Mostrei aos meus alunos vários vídeos sobre rodeio,abandono,tráfico de animias e o resultado foi positivo.Muitos choraram,teve uma aluna que contou que a mãe tinha abandonado a cachorra dela e que nunca mais ela ia deixa-la fazer isso.Muitos prometeram que jamais participariam de festa de Rodeio,circo com animais.IDespertar em uma criança amor e respeito aos animais mudaria com certeza a Educação no Brasil para melhor.Amei o seu texto.

  5. Muito oportuno o seu texto, Leon.

    O bullying é um fenômeno que tem repercutido cada vez mais nos anos recentes. Não suponho que ele seja mais frequente hoje do que no passado, simplesmente passou a receber a devida atenção. Mas é sintomático que isso venha acontecendo numa época em que nossa sociedade cada vez mais se pauta pela competição desenfreada de um capitalismo insensível ao sofrimento daqueles indivíduos deixados pra trás na corrida pela sobrevivência. Aliás, o bullying, entendido como intimidação, violência e humilhação, está longe de ser apenas um problema infantil. Ele ocorre nos locais de trabalho, nos círculos de amizade, em todos os meios de convivência humana.

    Contrário ao que muitos colegas diriam, pra mim é mais uma mostra da escola como espaço de exercício de poder, hierarquização e violência, enfim, como aparelho ideológico do Estado. Como ex-aluno e ex-professor via a indiferença de professores, coordenadores e diretores à intimidação e humilhação que crianças submetiam a outras e a omissão de pais e responsáveis. Talvez seja auspicioso que agora o venha recebendo a atenção devida. Está mais do que na hora de desmistificar a escola como panaceia para os problemas da humanidade – discurso tão em voga no Brasil contemporâneo.

    Parabéns.

  6. Obrigado pelo comentário Bruno.
    Espero não ter passado a ideia de que o bullying é um problema especifico do mundo infantil/juvenil e na escola. O bullying se faz fortemente presente “nos locais de trabalho, nos círculos de amizade, em todos os meios de convivência humana”.
    Concordo plenamente contigo de que a escola não é essa maravilha toda que todos os cidadãos que vivem alheios ao que acontece lá dentro pensam. Indiscutivelmente ela é um aparelho ideológico do Estado como disse Althusser; ela é reprodutora (legitimadora e mantenedora) das desigualdades sociais, econômicas e culturais como disse Bourdieu/Passeron; ela é intensificadora de neuroses como disse longinquamente A. S. Neill.
    Fico feliz com sua frase: “Está mais do que na hora de desmistificar a escola como panacéia para os problemas da humanidade – discurso tão em voga no Brasil contemporâneo”. Poucas pessoas têm coragem de apontar isso. Dentro desse modelo neoliberal de ensino, acredito que a escola não contribuirá em nada para resolver qualquer problema da humanidade, pois ela mesma é um problema.
    Abs,

  7. Oi, Leon.

    De modo algum você passou essa impressão. Só quis fazer esse destaque porque vejo que ele está fora das discussões sobre o tema que vemos na imprensa, na TV, nos livros. Os adultos, do alto da sua empáfia e autoimagem adulatória, não enxergam ou não querem enxergar sua responsabilidade neste, como noutros fenômenos.

    Quanto à educação como salvação da humanidade, esse discurso é conveniente e apenas contribui para a reprodução dos males sociais. Porque com essa ideia os professores se acomodam com a forma como são explorados (inclusive desenvolvem um certo prazer masoquista em ser mártires da educação); os pais se desobrigam de educar seus filhos e estimular sua formação ética e cidadã; e os políticos escondem seu descaso e seu dever de promover a justiça e equidade, passando a ideia de que basta construir escolas e empilhar jovens nelas, e que assim todos os problemas da sociedade desaparecerão espontaneamente. Como a educação é um projeto de longo, se a promessa não é cumprida, basta alegar que ainda não decorreu o tempo necessário para essa mudança. E assim, continuamos perpetuando as injustiças, geração após geração.

    Abraço

  8. Olá Leon, sou vegana e sinto muita dificuldade com relação à minha família, que não aceita de forma alguma esta minha filosofia de vida. Deixei de comer carne aos 13 anos, por vontade própria, mas até internada por eles eu fui. Difícil, né? Meu ponto de equilíbrio está numa arte marcial, o TAEKWONDO, que vc não citou, mas que é uma belíssima herança dos coreanos para a cultura mundial. A tradução para o português, do nome desta arte, é: “caminho espiritual dos pés das mãos”. Abcs. Paula

  9. Oi Paula,
    Com certeza o TAEKWONDO é uma arte fantástica. O fato de não tê-la citado não a desqualifica como uma ferramenta contra o Bullying; meu irmão me ensinou algumas técnicas do TAE quando eu era adolescente. Também não citei outras artes que pratiquei, fiz referencia àquelas pelo fato delas terem na sua origem o principio da não-violência (ahimsa).
    Quanto a oposição da sua família, bem vinda ao clube, são raros os veganos que tiveram um apoio 100% de uma família de dieta padrão.

    Abs,

  10. Achei interessante o texto citar as artes marciais,mas eu mesmo nunca sofri bullying por ser vegetariano,exceto quando eu treinava jiu-jítsu,o professor e atleta da nova união de Aracaju disse que odiava vegetariano mim chamou de idiota e outras coisas mais.lamentável.

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