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Pesquisa busca "segredo" para garantir vida de espécies daqui cem anos

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O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) está desenvolvendo um projeto milionário, que tem por objetivo descobrir, por meio da encubação de anfíbios, insetos, microorganismos e plantas da Amazônia, informações “guardadas” há séculos nos genomas, que podem garantir a sobrevivência das espécies em um cenário previsto para daqui cem anos. O projeto, batizado de Adapta (Centro de Estudos da Adaptação da Biota Aquática da Amazônia, na tradução em português), associa a emissão de CO2 na atmosfera e o aumento da temperatura e terá a duração de cinco anos.

Segundo o diretor do instituto, Adalberto Val, a pesquisa está em fase de testes e as espécies devem ser encubadas em 30 dias, aproximadamente. A adaptação do espaço físico, localizado no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem) do Inpa (avenida André Araújo, Aleixo, Zona Centro-Sul), durou cerca de um ano e custou R$ 1,2 milhões. Outros R$ 5 milhões foram investidos em equipamentos importados dos Estados Unidos. A manutenção dos microcosmos custará cerca de R$ 250 mil ao ano.

Adalberto Val mostra uma das salas onde o projeto será desenvolvido. Foto: Michael Dantas

A verba provém de diferentes fontes, tais como Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (Incts) – no caso do Amazonas, inclui a Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam) -, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Inpa, e recursos extra orçamentários, entre outros.

No total, foram adaptadas quatro salas de 25 metros cúbicos cada, das quais quatro representarão três diferentes cenários copiados do “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas para o Ano de 2100 (Ipcc)”, e uma servirá como controle do projeto. O Ipcc é um experimento internacional que serviu de base para parte do projeto brasileiro e que previu o impacto dos cenários estudados nos organismos, mas sem considerar o aumento do CO2.

Os equipamentos a serem utilizados são de última geração, tais como o americano Solid, quarto aparelho deste tipo no país, onde será analisada toda a evolução do projeto; o espectrofômetro de absorção atômica e os tambores de nitrogênio líquido, onde a temperatura é de -192 graus. Neste último, estarão armazenadas seis mil amostras para análise.

As quatro salas utilizadas no projeto foram isoladas, impedindo a influência externa e com um mecanismo que evita que o ar de fora se misture com o de dentro dos microcosmos.

A estimativa é que dez espécies norteiem o estudo e, a partir da biologia de cada uma, será definida a época em que cada coleta de material par análise será feita. ”A gente já estudou o efeito da temperatura e o efeito do CO2, mas poucos são os trabalhos que associam a temperatura  e o CO2 em um mesmo experimento”, explicou Adalberto Val.

De acordo com ele, nos cenários estudados, a expectativa é que a temperatura aumente entre dois e quatro graus Celsius em cem anos.

“Temos uma média que oscila ao longo do ano e isso continuará acontecendo. Hoje, para a Amazônia, a média é de 26 a 27 graus. Mesmo com a previsão de aumento da temperatura, os organismos já estão acostumados e preparados para tal. Agora, como é que eles vão reagir a esse cenário com o aumento de CO2? É isso o que precisamos saber”, completou.

História

Ao longo do processo evolutivo, que aconteceu há 600 milhões (do Cambriano ao Terciário recente), o nível de CO2 atual na atmosfera, mesmo tendo sofrido aumento nas últimas décadas, é considerado o menor desde que a terra se formou. “Não vamos fugir muito desse nível que está aqui. Os cenários que estamos prevendo não chegam a níveis altos. A diferença é que, hoje, por conta das atividades do homem, estamos tendo mudanças muito rápidas nos níveis de CO2 e os organismos não estão acostumados com isso”, salientou o pesquisador.

Ele explica que, para desenvolver o Adapta, foi preciso o envolvimento de mais de cem pesquisadores, além da contribuição de aproximadamente mil inseridos no IPCC. Ele destaca que, a premissa do Adapta é que, no passado, surgiram os principais grupos de peixe da Amazônia em meio a altas temperaturas e alto índice de CO2. “A hipótese é que esses animais tenham conservado em seus genomas informações para sobreviver a altas temperaturas e alto nível de CO2, pois eles já viveram isso há séculos. Como eles não foram desafiados a usar essa informação (na atualidade), nossa idéia é descobri-lo”, explica Adalberto Val.

À época do surgimento dessas espécies, ele ressalta que os níveis de oxigênio eram baixos, o que explica, por exemplo, porque alguns se adaptaram, como o pirarucu, espécie de peixe da Amazônia, que sai da água para respirar e teve o estômago e intestino modificados para ajudar na absorção do oxigênio. “Eles vão para a superfície, engolem o ar misturado com a água e bombeiam aquilo para dentro do trato digestivo. Lá, eles fazem a troca gasosa. O estômago e o intestino funcionam como se fossem um pulmão para eles”, explica.

À frente do projeto diariamente estão pesquisadores do Leem. Contudo, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ) está interessado em utilizar uma das salas para estudar o desenvolvimento embrionário de anfíbios.

Patentes

Após a identificação das informações escondidas nos genomas dos organismos e testes em outros seres vivos, será verificada a possibilidade de patentear as descobertas, fator positivo do ponto de vista econômico, segundo o diretor do Inpa. Ele acredita que esse novo passo contribuirá para a inclusão social e geração de renda “a partir do coração da floresta”. “Essa inclusão social pode evitar, inclusive, o desmatamento”, assegura, referindo-se a aplicabilidade dos resultados por habitantes das áreas rurais e interior do Estado.

Fonte: A Crítica

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