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Analfabetismo funcional animalista

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Uma questão que há muito tempo vem me incomodando no movimento de defesa animal no Brasil é a falta de fundamentação teórica dos ativistas dos direitos animais. É impressionante o analfabetismo funcional animalista que os ativistas estão mergulhados. Para essas pessoas o que importa é agir, é tirar os animais não-humanos daquela situação de sofrimento imediatamente. Não conseguem entender que o que colocou os animais ali foi nada menos que 2.500 anos de Filosofia, Teologia e Ciência especistas.

Ação sem fundamento teórico, sem reflexão crítica, não passa de emotivismo. Os animais não-humanos precisam de muito mais que nossa compaixão, amor e atitudes no calor da emoção, eles precisam do nosso respeito.  É mais do que sabido os limites das visões do respeito por amor e compaixão na defesa dos direitos animais1.

O que falta para nossos ativistas é o que tinha de sobra nesses dois ativistas que pegarei como exemplo, mesmo sendo antagônicos.

Primeiro, Ernesto Che Guevara, que arisco afirmar ter sido o maior apologista da revolução armada, não só a defendia em palavras como foi para as vias de fato, ou seja, era um homem de ação no sentido mais amplo do termo, talvez o único homem que levou a sério o conceito de práxis marxiano. No entanto, era um leitor voraz dos principais teóricos do socialismo e do comunismo e, não menos das teorias sacralizadoras do deus capital. “Como líder da guerrilha em Sierra Maestra, Che dava aulas de alfabetização a seus recrutas camponeses, e ocasionalmente lia para eles, de fontes como Cervantes, Robert Louis Stevenson e a poesia de Pablo Neruda. Conta-se que ao retornar à sua barraca, lia Proust, Faulkner, Sartre e Milton. No Congo, dava aulas de francês e de swahili às tropas congolesas, além de aulas de “cultura geral”. Em Cuba, durante a revolução, Che ensinava seus “descamisados” a ler e escrever. E para aqueles que já possuíam a base da lecto-escrita (…) criou círculos de estudos”2 sobre a historia de Cuba, doutrina militar e marxismo. Conta-se que nos momentos de descanso da expedição no começo da campanha boliviana, Che trazia consigo “a Historia da Estória da Liberdade, de Benedeto Croce, a Revolução Permanente e A Historia da Revolução Russa, de Trotsky, e As Origens do Homem Americano, de Paul Rivet”3, e é possível que “tenha lido as memórias de guerras de Charles de Gaulle, ou as de Winston Churchill, bem como A Fenomenologia do Espírito de Hegel e alguma coisa de Diderot”4.

O segundo, Martin Luther King Jr., na esteira de Gandhi, um grande líder do ativismo pacifico, da ação não-violenta. No entanto, não só tinha uma bela formação acadêmica como também era um leitor voraz, recorria a autores de varias áreas para fortalecer sua pregação. Ao falar do período que conheceu King, Coretta Scott – futura esposa – diz que “sentiu-se atraída por aquele rapaz que debatia a doutrina de Gandhi e as filosofias de Thoreau e Hegel com a mesma facilidade com que ridicularizava as pretensões dos pregadores do rádio. Além disso, ele adorava ópera e jazz. E, embora já fizesse parte da elite acadêmica, queria cuidar dos problemas cotidianos de uma igreja negra do Sul”5. Perto de terminar sua tese de doutoramento sobre “Uma Comparação do conceito de Deus no Pensamento de Paul Tillich e Henry Nelson Wieman”, King, com apenas 25 anos, assume como pastor na igreja Batista da avenida Dexter em Montgomery, com o objetivo de fazer um bom trabalho, dedicava dois dias para a preparação dos sermões dominicais. “No inicio, seus sermões eram muito intelectualizados e um tanto áridos, mas, a medida que King foi conhecendo melhor os fieis, começou a dar maior atenção às teorias de seu pai quanto a pregação”6. King dinamizou suas pregações e seus “sermões fluíam sem nenhum esforço, sem nunca reduzir a platéia ao silêncio. O reverendo citava os maiores pensadores ocidentais e orientais, mas de um modo claro e ritmado, que pedia respostas, as quais vinham naturalmente seguindo o ritmo do próprio sermão”7.

Ambos os ativistas e militantes deixaram registrados através de seus escritos e discursos às multidões, a importância de uma boa fundamentação teórica. Foram homens da práxis, seja pela via pacifica cristã, seja pela luta armada ateia. Para Hosea Williams, “Martin Luther King Jr. é o maior batalhador do século XX”, para Sartre, Che era “o mais completo ser humano de nossa época”.

Essa questão do analfabetismo funcional Animalista me incomoda em demasia pelo simples fato de que vejo o educador vegano como um ativista. Não há lugar melhor para se fazer um ativismo pelos direitos animais que uma sala de aula. É aqui que a situação complica. O educador vegano não deve fundamentar sua pratica político-pedagógica apenas tendo a “Libertação Animal” do Singer e o “Jaulas Vazias” do Regan como base. São obras importantes, mas não bastam.

Uma reclamação comum que ouço é a de que não temos traduzidos para o português nem 3% da grande produção animalista de língua inglesa. E quem disse que eu preciso de 30%, 50% ou 100% da produção teórica animalista britânica e estadunidense? Meu caro educador vegano, quem tem Sônia T. Felipe, Bruno Muller, Luciano C. Cunha, Paula Brugger, Daniel B. Lourenço, entre outros, não precisa ficar refém dos companheiros do hemisfério norte. Se souber ler em inglês, ótimo, leia-os. Se não sabe, sem problemas, temos uma substancial literatura brasileira à disposição, pode ser pouca, mas com um forte conteúdo reflexivo. Volto a afirmar, a obra “Direitos dos Animais: Fundamentação e Novas Perspectivas” do professor Daniel B. Lourenço deve ser leitura de cabeceira do educador vegano.

Outra questão que não posso deixar de ressaltar é, com toda a produção filosófica, científica e jurídica nos países de língua inglesa sobre os direitos animais, eles não têm o que nos temos: educadores veganos que introduzem os direitos animais e sua fundamentação moral, o modo de vida vegano, nas escolas de nível fundamental e médio. O Brasil é pioneiro em educação vegana formal. Nosso país é o único lugar que alguns educadores veganos tiveram a coragem (característica essencial de um ativista) de romper com o currículo oficial (e oculto) especista e introduzir de modo sistemático um ensino antiespecista. Somos poucos? Sim. Mas, somos fortes. De onde vem essa força? Da teoria ética animalista. Leitura, leitura e mais leitura. Diálogo e mais diálogo com os pensadores desse movimento. Só seremos capazes de combater os argumentos, clichês e frases feitas especistas oriundos do capital cultural antropocêntrico, com a força de um raciocínio ético apurado, crítico e autocrítico.

O educador vegano, esse ativista da Ágora quadrada que é a sala de aula, tem o dever moral de se fundamentar teoricamente. O educador vegano precisa constantemente buscar seu aprimoramento espiritual através do desfazer as pregas, rugas, dobras e vincos morais tradicionais. As virtudes que devem nortear o educador vegano são: “discernimento, coerência, justiça, propósito existencial sincero de não-violência contra qualquer ser capaz de sofrer, coragem, serenidade, persistência, humildade, e… vontade sincera de aprender muito sobre a vida dos outros animais”8.

Isso significa que todo educador vegano precisa estudar Etologia? Sim, não só precisa, deve. E nutrição vegetariana, também. Ética animal e ambiental são simplesmente indispensáveis, conhecer a historia do especismo, dos direitos animais e do veganismo é uma obrigação. Todo educador vegano precisa ter consciência que sua ação político-pedagógica não é qualquer ativismo. É uma luta constante contra a epistemofobia e a livrofobia que está no DNA da maioria da população brasileira. Num país onde sua população tem como alimento espiritual futebol e novela, pouco ou nenhum valor tem os tratados de ética e sua aplicabilidade. Por isso a necessidade do projeto político-pedagógico vegano ser coerente, justo e corajoso; o que exige um propósito de vida do educador vegano consciente de que somente com muita persistência ele se efetivará. Dissertando sobre o comprometimento que o ato de ensinar exige o teórico da educação brasileira, Paulo Freire, diz:

“Minha presença de professor, que não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de romper. Minha capacidade de fazer justiça, de não falhar à verdade. Ético, por isso mesmo, tem que ser o meu testemunho”9.

O educador vegano não pode se deixar acomodar, acreditando que só por ser vegano “já está bom demais”. O aprimoramento deve ser constante, ininterrupto. A aversão da maioria esmagadora dos ativistas ao maçante trabalho de debruçar sobre teorias éticas desenvolvidas durante séculos, não pode fazer parte da vida do educador vegano. É a preguiça intelectual que leva ao analfabetismo funcional animalista.

Notas:

1. CUNHA, Luciano C. Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte VII). In: WWW.pensataanimal.net/
2. MCLAREN, Peter. A pedagogia de Che Guevara – Pedagogia crítica e globalização trinta anos depois de Che. In: Utopias Provisórias. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 99-100.
3. Id. p. 100.
4. id. p. 100.
5. SHUKER, Nancy. Martin Luther King. São Paulo: Nova Cultural, 1985. p. 31-32.
6. Id. p.35.
7. Id. p.36.
8. FELIPE, Sônia T. Direitos Animais: desdobramentos das pregas morais. In: ANDRADE, Silvana (org.). Visão Abolicionista: ética e direitos animais. São Paulo: Libra três, 2010. p. 17.
9. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p.98.

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  1. olá Leon!
    Ainda lembra de mim? O marcos de óculos lá do 1 colegial do jácomo?
    Eu sei que aqui nao é um espaço para isso, mas como eu me tornei vegetariano a 1 ano e meio, e mesmo com pouco tempo estou cortando alguns produtos com insumos animais, ou que sejam testados porque em breve pretendo me tornar um novo Vegan nesse mundo de tanta crueldade, entao gostaria de saber se vc teria um contato seu para me passar, como orkut, msn, ou algo do tipo porque gostaria de algumas dicas que me ajudassem, e alem de tudo trocar informações sobre o assunto, sobre palestrar, e prostestos que eu pudesse estar participando, e como vc já foi meu professor e eu lhe acho incrivel, apesar de que eu nao dei muita atenção para isso no começo, mais agora que sou vegetariano, eu consigo perceber como essa situação de horror, de crueldade, e muito importante de ser discutida, e que vc faz um diferença enorme diante dessa sociedade que é comandada pelos mais poderosos, tornando-se pessoas de cabeça fraca de serem influenciadas tao facilmente e de nao pesquisarem para saber o que realmente acontece por tras de toda essa midia.
    Qualquer coisa me envie um e-mail: marcos_vinicius1994@hotmail.com
    Fiquei muito feliz de reencontra-lo aqui.
    Abraço!

  2. Olá, Leon! Mais uma vez, excelente texto! Que bom que você tocou nesse ponto. Justamente por ser uma coisa da qual pouca gente fala, a falta de reflexão crítica para guiar as decisões é um dos principais erros não só dos ativistas, mas de cada agente moral em geral. Essa confusão fica evidente (presente em alguns comentários ao seu texto) na idéia que alguns ativistas fazem da teoria ética: pensam que é algo desvinculado da prática. Esquecem de que a função de uma teoria ética é justamente orientar as decisões práticas. Mesmo aquele que toma suas decisões na base do impulso acha que suas decisões estão corretas. Há uma fundamentação oculta por trás de suas decisões, que, justamente por não ser analisada criticamente à luz da razão, fornece a maior possibilidade do agente errar eticamente (agir injustamente, causar maiores danos) ao tomar as decisões. Concordo totalmente com a observação que o Monge A. R. R. fez: uma conclusão em um raciocínio ético implica na sua imediata aplicação prática; do contrário, estamos errando por omissão. Ótima observação. Essa tendência (presente também, infelizmente, em muitos ativistas), de assumirem responsabilidade apenas por ações (e não, por omissões) é, ao meu ver, outro dos problemas principais que impedem que se mude a situação que os animais se encontram. E isso não apenas com relação a se omitir de fazer ativismo, mas principalmente porque os animais sofrem terrivelmente também de danos provenientes não da exploração humana (e sim, porque a vida na natureza já é por demais danosa a eles). Penso que só quando for superada essa distinção irrelevante entre ações e omissões, as coisas vão realmente mudar pros animais. Fica aí a sugestão de um próximo tema para um artigo: a tendência de não se assumir a responsabilidade por omissões. Mais uma vez, você está de parabéns, Leon, como um exemplo de integridade, em unir a teoria à prática. Grande abraço!

  3. Oi Luciano,
    Obrigado pelo elogio. Eu vou “combatendo o bom combate” sempre seguindo o movimento dialético do mundo. Não consigo pensar em bons resultados no meu trabalho sem unir a teoria à prática. Minha formação filosófica foi marcada por dois pensadores: Aristóteles e Marx. Ambos, filósofos da práxis. Infelizmente, parece-me, a filosofia da práxis morreu com Che (Gramsci e Sartre também merecem nosso respeito).

    Muito boa sua sugestão de tema: A TENDENCIA DE NÃO SE ASSUMIR A RESPONSBILIDADE POR OMISSÕES. A omissão é outro problema crônico dos avessos ao mergulho no mundo das teorias éticas. Você já abordou esse tema nas entrelinhas de vários de seus artigos, o que eu posso fazer é levá-lo para o campo da Educação e mostrar as implicações danosas dessa atitude.

    Abraço,
    Leon

  4. Oi Vânia,
    A obra do Daniel deve ser leitura de cabeceira para o docente vegano; para os alunos, eu acredito que a obra “Direitos dos Animais” do amigo Laerte F. Levai, por ser de uma linguagem não muito técnica, é melhor para ser adotada em sala de aula. Estou me referindo ao ensino médio. Os alunos ficam com a obra do Laerte e o professor complementa em aula com a do Daniel.
    Esse é um metodo que já usei e deu certo.

  5. “Uma reclamação comum que ouço é a de que não temos traduzidos para o português nem 3% da grande produção animalista de língua inglesa. E quem disse que eu preciso de 30%, 50% ou 100% da produção teórica animalista britânica e estadunidense? Meu caro educador vegano, quem tem Sônia T. Felipe, Bruno Muller, Luciano C. Cunha, Paula Brugger, Daniel B. Lourenço, entre outros, não precisa ficar refém dos companheiros do hemisfério norte.”

    As vezes eu fico chocado com o que eu leio por aqui!

  6. Oi Pedro,
    Eu também fico CHOCADO com que lê Veja, O Globo, Folha de São Paulo e se deleita assistindo a belíssima programação da televisão Brasileira.
    Como vossa sapiência se choca com quem se fundamenta em Sonia Felipe, Bruno Muller, Luciano Cunha, Paula Brugger e Daniel B. Lourenço; poderia me indicar fontes dignas de nota? Não quero continuar sendo um educador – se é que posso me denominar assim depois de saber que minhas fontes são tão chocantes –, mal formado.

  7. Não Leon, o problema não são esses colunistas ou escritores tupiniquins. O problema foi dizer que você não precisa da produção teórica estrangeira. E pior usar a expressão que distorce um tanto a questão: “não precisa ficar refém dos companheiros do h. norte.”

    Curiosamente esses mesmos que você citou não concordam com você, pois eles mesmos não abdicam de usar, ou melhor, em suas palavras de estar “refém” dos pensamentos estrangeiros. Sò ver a bibliografia que eles usam. E que bom, pois isso não é apenas estar ciente de novas idéias, mas também de dar os devidos créditos a quem primeiro publicou-pensou tais idéias.

    Saber do que pensam e o que falam os autores estrangeiros é tão importante quanto conhecer os pensamentos tupiniquins quando originais e de interpretação diferente. Restringir os pensamentos só a um grupo, e/ou pior, té-los como filtros de pensamentos estrangeiro é muito perigoso.

  8. Engraçado que para alguns não se faz necessário estudos e mais estudos sobre a ética/moral no trato dos animais-não-humanos. Mas para outros se faz necessário horas e horas de estudos, literatura, etc. Jesus foi tão simples nas suas palavras, fazia todos entenderem com simples e profndas metáforas. ESTUDAR sempre é importante. Mas existe uma coisa chamada ALMA quem direciona as escolhas. Nossa especie humana comete todas as atrocidades não por falta de literatura, mas pq é gananciosa, egoísta e indiferente. A religião, a cultura, a politica e ciência sempre existir para atender os interesses humanos. A compreensão está mais na alma do que no cérebro.

  9. Oi Pedro,
    Eu não estou encontrando no meu texto onde digo que NÃO PRECISAMOS dos escritores estrangeiros. Uma coisa é não ficar “refém”, ou seja, eternamente DEPENDENTE do que foi produzido lá fora, outra é dizer que não precisamos deles.
    No final do parágrafo anterior ao qual você destacou um trecho, eu digo que as obras de Singer e Regan (traduzidas) são importantes, acredito que isso é reconhecer seu mérito, mas não pode ser a única referencia de um EDUCADOR VEGANO. No mesmo parágrafo que destacou, eu digo: “Se souber ler em inglês, ótimo, LEIA-OS.”
    Quando digo, por exemplo, que “todo educador vegano precisa estudar Etologia? Sim, não só precisa, deve”; o educador terá que recorrer à produção estrangeira; ainda estou ciente da minha sanidade, e não diria que são descartáveis num parágrafo e noutro que devemos lê-los da primeira a ultima página. Novamente para quem sabe ler em inglês é importantíssimo: Donald R. Griffin, Marc Bekoff (temos apenas uma tradução), Carolyn A. Ristau, Jeffrey Moussaief Masson (temos algumas traduções), Frans de Waal, Jane Goodall… No campo da neurociência temos em português as obras do Antonio R. Damásio. Para quem tiver o interesse em ler como uma cientista especista relata a vida emocional dos animais, temos “O Bem-estar dos Animais” da projetista de matadouros Temple Grandin pela editora Rocco.
    Pedro, novamente, ficar refém é uma coisa, não precisar é outra. Ainda não temos etólogos veganos brasileiros produzindo trabalho original sobre a mente, as emoções, ou seja, sobre a vida espiritual da fauna brasileira. Enquanto essa produção não começa a surgir, recorreremos à internacional, sem problemas.
    Vou lhe dar outro exemplo: no campo da educação vegana, temos o Gary Francione que sempre bate na tecla de que esse é o caminho, porem a realidade estadunidense dele é totalmente diferente da nossa, ele se restringe na educação informal, na conversa na fila do banco. Aqui eu desenvolvi uma grade curricular de EDUCAÇÃO VEGANA FORMAL, não tem essa conversa de que quando for possível eu toco no assunto; o veganismo e os direitos animais são a espinha dorsal do currículo escolar, tudo o que é discutido em sala de aula durante o ano letivo gira em torno deles. Isso é inviável nos EUA e na Europa. Não tiro o mérito da produção filosófica do Singer, Regan, Francione, mas minha prática político-pedagógica ativista tupiniquim é totalmente original meu caro.
    O pensador Enrique D. Dussel teceu severas críticas a esse pensamento “periférico” que você defende. Segundo Dussel a America Latina em termos de produção intelectual ainda não se libertou de ser a periferia da Europa.
    A outra questão que toca é a de que os meus amigos citados no texto não concordam comigo por eles citarem em suas bibliografias os pensadores euroamericanos. Não acredito que eles se consideram reféns do pensamento estrangeiro como VOCÊ DIZ, apenas por tê-los citados em bibliografia. Penso ser curioso você citar a bibliografia deles dando a impressão de que conhece a produção animalista deles, mas não conseguiu perceber no corpo dos seus trabalhos a originalidade de suas reflexões “tupiniquins” (como chama), sempre contextualizando coma nossa realidade que é bem diferente dos euroamericanos.
    Quando você diz “estar ciente de novas ideias”, me leva a crer que você está um pouco desatualizado do que vem sendo produzido em direitos animais. Pergunte a qualquer teórico brasileiro que esteve no ultimo congresso de bioética em Salvador, e ficará sabendo que os gringos estão simplesmente repetindo o que disseram há décadas; você quer algo novo, então fique atento com os animalistas brasileiros (ou tupiniquins como gosta de dizer) nos próximos anos.
    Novamente, não consigo encontrar no meu texto onde restrinjo o pensamento animalista a um único grupo. Digo que se não sabe ler em inglês fundamente-se na literatura nacional. Temos muito trabalho pela frente, não podemos esperar as traduções. Acredito Pedro, que você não sabe que 90% dos educadores brasileiros não conhecem a língua inglesa, isso se aplica aos veganos. O que fazer? Vão deixar de ler os “tupiniquins” esperando as traduções ou inscrever-se-ão em cursos de inglês para poder ler Regan, Francione, R. G. Frey, Carol J. Adams, etc… enquanto isso milhares de adolescentes não são introduzidos na temática?

  10. Nádia,
    não tem nada de engraçado na postura dessas pessoas humanas que acham desnecessário estudar ética animal. Concordo que para um especista isso é pura perda de tempo, já que sua espécie tem um lugar de destaque no universo e o resto, é resto. Um detalhe: ética animal é uma reflexão sobre o humano e o não humano, não há dicotomia. Aqueles que acreditam que são necessárias horas de estudos, são os que lutam para mudar essa mente especista moldada por uma cultura milenar de coisificação da vida. Não se muda uma tradição bárbara apenas com boa vontade e fé no espírito santo.
    De onde tirou a ideia de que as metáforas ditas por Jesus eram entendidas por todos? Até com uma leitura superficial dos evangelhos (incluindo os apócrifos) fica evidente que nem os apóstolos entendiam as parábolas dele. Você ignora a questão político-econômica romana da época, por isso, ele recorria as metáforas. Diga-me qual “cristão” hoje entende o que ele disse? Não entendem nem compreendem, sendo assim, não praticam o que ele ensinou.
    “O ÚNICO CRISTÃO MORREU NA CRUZ”, Nietzsche.
    Concordo com você que é a alma que direciona as coisas, mesmo sabendo que meu conceito de alma é diferente do seu, já que o seu é o judaico-cristão. O meu é científico por isso não se distingue de cérebro.
    Abs,

  11. Nádia,

    O que te faz pensar que existem pessoas que não precisam de estudos sérios sobre questões morais? Ninguém possui todo o conhecimento moral do universo. Existem muitas (mas muitas mesmo!) questões éticas que até hoje ninguém conseguiu resolver. Tem outras que as pessoas estão começando agora a pensar sobre. Você menciona Jesus. Só porque Jesus difundiu e tinha conhecimento de um princípio ético básico (a regra de ouro), isso não significa que ele tivesse um conhecimento moral infinito e não tivesse que aprender sobre ética; não significa nem mesmo que ele tenha discutido todas as questões morais que poderia ter feito, mesmo na época em que viveu.

    Eu gostaria muito que as “pessoas que não precisam estudar ética” resolvessem os problemas filosóficos relacionados à ética que há milênios atormentam os filósofos e até hoje ninguém conseguiu resolver. Por exemplo: “quando pesamos as consequencias de uma decisão, qual o peso exato que os principios da beneficencia, não-maleficência, igualdade, prioridade e justiça devem ter no raciocínio?”. Ajudaria muito o mundo como um todo (e todos os indivíduos que nele vivem), se essas coisas fossem resolvidas. E é aí que está o ponto crucial: as pessoas que pensam que não precisam estudar ética (porque acham que já possuem conhecimento moral suficiente) são geralmente aquelas que simplesmente seguem suas intuições sem nunca colocar um ponto de interrogação nelas; e, por isso, além de não conseguirem sequer imaginar o quão difíceis são certas questões morais (talvez nem façam idéia de que tais questões existam), correm o maior risco de errar e cometer injustiças, achando que estão agindo corretamente (o que geralmente acontece). O bom raciocínio ético começa com a percepção de que todos temos muito o que aprender sobre ética.

    Você afirma que: “Nossa especie humana comete todas as atrocidades não por falta de literatura, mas pq é gananciosa, egoísta e indiferente”. Eu penso o contrário. Penso que os humanos são geralmente gananciosos, egoístas e indiferentes justamente porque não tiveram uma formação filosófica sólida, que mostrasse o quão indefensáveis são as posições gananciosas, egoístas e indiferentes. A própria idéia de que não existem argumentos racionais contra o egoísmo, e que ser ético é uma coisa puramente emocional vêm dessa carência de leitura sobre o assunto.

    A própria confusão em se pensar que, se dermos ouvidos à razão (que você está chamando de cérebro), então não utilizaremos as emoções (que você está chamando de alma) é uma falsa dicotomia. Qualquer pessoa que leu algum livro introdutório à ética sabe do papel fundamental que a razão possui em ajudar a nos revelar o conteúdo da moralidade. Afinal de contas, posições que são incoerentes, se baseiam em critérios irrelevantes, cometem contradição, etc. (ou seja, ferem exigências da razão) não são posições morais válidas. Todo mundo sabe também da relevância das emoções na questão do agente criar em si uma motivação adequada para dominar as inclinações egoístas e conseguir agir moralmente. Uma coisa (a razão) não exclui a outra (a emoção).

  12. Nádia,
    Amém! Vamos trocar estudos sérios, as ciências e ficar só lendo a bíblia!? A religião judaico-cristã não ajudou em nada a humanidade, só fez o ser humano ser egoísta, por ser a “imagem e semelhança de Deus”; uma prova maravilhosa do retrocesso que sofremos foi a Idade Média, onde o centro das preocupações era o destino de nossa “alma”, além disso, o cristianismo dos dias de hoje esta lado a lado com o capitalismo selvagem (ganancia) e a indiferença surge muitas vezes, quando se usa a Bíblia, que “autoriza” o “homem” a consumir carne em alguns de seus trechos, como desculpa.
    Então veja bem, tudo o que você diz sobre “as atrocidades da espécie humana” está liga a religião judaico-cristã. É uma pena que Jesus tenha sido um homem tão fabuloso, como Gandhi e companhia e ninguém seguiu nada do que ele pregava nas suas parábolas “tão simples” que ninguém entende até hoje (creio que o Leon já escreveu o suficiente sobre isto).
    Pergunte a qualquer padre, pastor e companhia se eles acreditam que os animais não-humanos possuam a “alma” que tanto faz questão de mencionar, por isso eles dizem aos seus alienados que não tem nada de errado de se matar animais não-humanos, pois estes não vão para o céu, são seres maquinas; assim como nós mulheres até século retrasado não possuíamos “almas” e era permitido o nosso “uso”, e ainda até hoje nossas “almas” estão abaixo da dos homens na religião judaico-cristã (pois “foi Eva que comeu o fruto do bem e do mal e conduziu Adão ao pecado” [não venha me negar essa frase clichê que se usa nas igrejas, pois desde crianças até hoje a escuto]). O dia que as pessoas humanas pararem de querer se esconder atrás desses seres irreais quando “a barra ficar pesada” é o dia que teremos mudanças.

  13. Concordo com a Sarah quando ela aponta, sobre as parábolas de Jesus, que são ““tão simples” que ninguém entende até hoje”. Apontar isso é bem importante, pois muito do motivo pelo qual a interpretação de ensinamentos feitos através de parábolas e metáforas é tão sujeita a distorções reside justamente no fato de não serem argumentos expostos claramente. É a própria forma da parábola e da metáfora que cria essas confusões. O mesmo acontece em textos filosóficos onde os autores usam uma linguagem rebuscada, pois isso tende a confundir o leitor, e com isso, impedir a discussão crítica pública das idéias ali contidas. O bom raciocínio e o debate sério começam justamente quando os argumentos são expostos claramente. Muitos autores que adotam uma linguagem rebuscada fazem isso justamente para não darem a cara pra bater (ou ainda, para apresentar uma falsa erudição).

    O preceito “ama o teu vizinho (ou, ao próximo, em algumas versões) como a ti mesmo”, embora contenha um princípio ético fundamental (a regra de ouro) é um bom exemplo de falta de clareza conceitual, pois não define bem o que é “próximo” ou “vizinho”. Tanto é, que alguns interpretam “o próximo” como “meu país”, ou “minha família”, ou ainda “quem eu amo”, ou “toda a humanidade”. Raros pensadores cristãos têm interpretado isso como “todos os seres sencientes” (uma exceção é Andrew Linzey). Se fossem discutidas seriamente as razões pelas quais alguém necessita se importar com o outro, obviamente que alguém intelectualmente honesto não poderia negar que “próximo” teria de ser definido como todos os seres sencientes, dado que a razão pela qual alguém tem o dever de dar igual consideração ao outro é que esse outro pode sofrer dano.

    Mas, obviamente, isso não é discutido em parábolas. Justamente porque as parábolas, por não terem os argumentos bem definidos, não abrem espaço para a discussão crítica, séria e sistemática de idéias. Obviamente que, compreendendo o contexto histórico no qual surgiram esses preceitos, entende-se que é melhor que um povo siga certas regras curtas e simples do que não ter nenhuma regra e tudo acabar na barbárie. Assim, a gente pode dar um desconto e compreender o motivo pelo qual se optou por ensinar regras de conduta básicas a um determinado povo dessa maneira, naquela época. Agora, daí a dizer que quem entendeu uma parábola cristã aprendeu somas enormes sobre ética, e que não necessita de “horas de estudo”, como a Nádia apontou, tem uma distância enorme (tão enorme que boa parte – mas não toda – da idéia de que seres humanos são superiores vêm justamente da tradição judaico-cristã).

  14. Pedro, para concluir, pois já vi que a coisa não está fluindo. Diga-me “de boa”, quem, seja brasileiro ou estrangeiro, conhece TODA A AMPLA DISCUSSÃO INTERNACIONAL? Sinceramente você tem noção do que escreveu? Se um físico não conhece TODA a física ele não é um físico de verdade, se um filósofo contemporâneo não conhece TODA a vasta historia da filosofia ele não é um filósofo de verdade. É essa a lógica que você segue?

  15. Leon, já ouviu falar em Sinédoque? È óbvio que não é preciso conhecer TODA a discussão internacional, aliás, ninguém teria essa capacidade seja que matéria for, nem mesmo um doutorando onde precisa conhecer um pocadinho de todo o histórico e uma gama enorme de discussões, muitas que, inclusive já foram abandonadas. Sinédoque é uma figura de linguagem que usamos normalmente, as vezes, sem perceber que permite generalizações que todos sabem que não é uma generalização de fato. Por ex.

    “Brasileiro adora futebol”. Ou ainda “americanos adoram hamburguer”. Ou ainda, “estudem toda álgebra pra o exame anual”. Ou ainda “Nossa, estou com uma fome de leão, vou comer tudo o que eu ver pela frente”. Ou ainda “Hobbes era muito sábio e conhecia toda as teorias políticas”.

    Não precisa conhecer TODA, mas é claro que deve conhecer os principais, a grande e maior parte, o que caracteriza o tudo – é isso que permite a generalização tão absoluta do sinédoque. Acho que não vem o caso de dizer “filosofo de verdade”, primeiro porque ou você é filosofo ou não é, e para ser filosofo necessita de um básico, e mesmo tendo esse básico precisaríamos discutir o que é “ser filosofo”; no Brasil tem gente se formando em “história da filosofia” e não em filosofia e tem muitos que confundem filosofia com chauvinismo e vamos-dar-palpite-usando-de-obscurantismo-ou-relativismo-em-tudo. Mas isso não vem ao caso.

    Sendo filosofo ou vc vai dar aula e seguir uma grade e portanto “pode” se limitar só aquilo, ou você promove pesquisas filosóficas, e daí é competição não muito diferente do que acontece na biologia. E vence o melhor, isto é aquele que fornecer o maior campo de indícios, lógica e coerência sobre aquilo que alega. Então não vem o caso de “filosofo verdadeiro”, pois ciências não é messianismo ou Igreja e eu sei disso perfeitamente. Mas é óbvio que existirá bons profissionais e profissionais ruins, cujo a própria “competição ideológica” há de selecionar.

    Mas vamos pegar outras matérias. Se uma pessoa que não sabe inglês ou não conhece toda a discussão sobre neurociências ou filosofia da mente, ela NÂO È que ela não será um “neurocientista ou filosofo da mente de verdade”, ela simplesmente NÂO será um neurocientista ou filosofo da mente. Não tem jeito, ninguém se torna neurocientista sem ler nada(e sim, se ignorar a produção internacional, nessas áreas é quase o mesmo que ler nada), ou se limitando apenas alguns grupos ou tendo-os como filtro de idéias estrangeiras e ninguém consegue produzir com qualidade sem precisar se atualizar em tudo o que passa em sua área. Não tem como ver ciências de forma relativa onde não importa o trabalho do outro. Não dá.

    Se você for um filosofo da mente e não conhecer o que , por ex. chalmers tem a falar, acho que nem diploma você consegue, não que diploma significa muita coisa, mas quem tem diploma corresponde, ou deveria corresponder, com um mínimo necessário para poder pensar sobre o determinado assunto. Porém em português não tem quase nada de obra e papers traduzido dele. Tanto que pega teses de mestrados e doutorados de filosofia da mente e você verá quase que esmagadoramente a bibliografia em inglês.

    Aliás, no conteúdo da pós em filosofia da unesp, vc encontra lá bibliografia inglesa. Aliás, fazer pós em áreas de pesquisa cientifica e teórica sem inglês ao menos para entender um paper, é quase o mesmo que não fazer. Os Direitos Animais não está longe disso, aliás, pior são os Direitos Animais que ainda está no seu berço em prática e em teoria, e ainda não tem algo mais fixo dentro de nossa cultura que possa servir de base. Então mais necessário se torna experimentar o funcionamento da mente de pessoas de outras culturas, pois eles podem avacalhar com tudo o que até então pensamos e achamos. E talvez, pode até mesmo corroborar. Ou ter pensado e publicado antes que nós, algumas ideias.

    Portanto, eu repito se um “educador vegano” não conhece toda a discussão internacional sobre os Direitos Animais é melhor ele continuar aluno, ao menos, ele evitará em confundir ainda mais a cabeça de algumas pessoas sobre um assunto que ele não domina amplamente e que já é um tanto confuso e cheio de esteriótipos com emoções a flor da péle, sectarismo e uma onda de pseudo-cientificismo e misticismo, o qual já tomou conta de parte do ANDA(incluso tive comentários-críticas apagadas aqui, apesar de permitirem comentários sociopatas e xenofóbicos em artigos de touradas e afins)chegando a lamentáveis cursos de pseudo-ciências médicas pela guiavegano.

  16. estude toda algebra está correto. só existiria figura de linguagem em estude toda “a” algebra.
    aqui com formação de segundo grau, essa discussão não me diz respeito, mas além do texto ser dirigido a educadores e ambientar o cenário da sala de aula, os comentários igualmente refletem os desafios do professor que apesar de graduado em varios niveis recebe criticas sem fim.
    sou só visitante do site, mas foi o que o autor disse, se não conhece profundamente a lingua, melhor ler renomes brasileiros.
    a falta de tradutores de alemão levaram a que as obras de freud tenham sido tão mal traduzidas com erros grosseiros, e por isso estudiosos devem recorrer a trabalhos de mestrado /doutorado que tratam desses erros. aprendem mais do que num livro.
    mas isso é discussão pra voces do meio.
    porque tem sempre que alguem achar que os artigos dos especialistas só podem ser lido por igualmente especialistas e nao por visitantes. e ainda acha que está ofendendo falando em guia de bolso vegano. nem isso eu li. muito grande. kkkk.

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