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Ativismo eficiente: aprendendo com meus erros

11 comments

Como ser mais eficiente como um ativista pelos direitos dos animais? Isto é uma pergunta muito importante para salvar mais animais. Para mim, realmente, é a pergunta principal.

No prévio artigo, escrevi sobre a maneira de entender melhor a quem estamos falando. Neste artigo, quero elaborar mais esta pergunta e vou começar falando sobre o que (segundo a minha própria experiência ) não tem funcionado muito bem.

É muito importante no ativismo avaliar se o que estamos fazendo é ou não eficiente. Isto é uma estratégia para quando se tem recursos limitados: dinheiro, energia, pessoas, tempo etc. Acho que é importante lembrar que o resultado que eu quero, como diretora de uma ONG, pode ser diferente do resultado que outros querem. Cada um de nós tem uma perspectiva, personalidade, meta e método diferentes. Então, neste artigo vou falar da minha experiência, não para criticar os outros, mas para dizer que, ao final de tudo, a coisa mais importante quando estamos planejando ou desenvolvendo ideias para ajudar os animais é comparar o que funciona com o que não funciona. As boas empresas sempre avaliam os programas, gastos etc., como parte do plano de negócio e sugiro que façamos as mesmas coisas como ativistas!

Vou compartilhar o que não foi muito eficiente comigo: o protesto. Sei que, quando falamos de ativismo pelos direitos dos animais, a maioria das pessoas imagina um grupo fazendo coisas para chamar a atenção para alguns assuntos, mas o problema que eu experimentei com essa estratégia é que os que protestam são percebidos como se fossem doidos. Na minha experiência, as pessoas nem escutavam o que eu dizia, e riam de mim ou gritavam contra mim, sem prestar atenção no que eu estava dizendo — ou seja, sem me escutar. Quanto mais eu queria protestar e chamar a atenção sobre as atrocidades contra os animais, mais a minha mensagem estava perdida porque as pessoas me viam como alguém marginalizado. Por quê? Quem sabe… mas tenho uma teoria: acho que, ao final de tudo, todos nós queremos  ser amados e queremos nos sentir especiais e aceitos pelos outros. Então, quando eu estava fazendo ou dizendo coisas que pareciam fora do “normal”, as pessoas me tratavam como se eu estivesse “errada”, e eu me distraía da mensagem principal para discutir ou tentar convencê-los, porque aceitar alguma coisa fora do “normal” poderia ser um risco para eles, no sentido de não serem aceitos ou, pior, não serem amados. Isto é a minha opinião, mas não sou psicóloga…

Uma vez, por exemplo, fiz um protesto contra experimentos com macacos. Os jornalistas das notícias na televisão chegaram e nos entrevistaram. Fiquei muito feliz pensando que essa reportagem daria ao público a informação precisa para que eles também estivessem ao nosso lado nesta causa contra experimentação que usa animais. Sonhei que essa era a minha oportunidade de compartilhar esta informação com muitas pessoas que eram ignorantes sobre esse assunto tão importante! Ao final do protesto, voltando para casa, liguei para a minha família e amigos, contando-lhes que a entrevista apareceria na televisão naquela mesma noite. Quando cheguei em casa e vi as notícias, fiquei tão deprimida (e chateada!) de ver que a história apresentada na televisão nos retratou como se fôssemos completamente alheios ao mundo! Como se estivéssemos num circo! Embora os jornalistas tivessem falado com muitos de nós, quando saiu a entrevista, eles tinham apenas escolhido pessoas que pareciam fora do “normal” (com tatuagem e cabelo em estilo não conservador) . Eu não sabia, mas os jornalistas também  entrevistaram um cientista do laboratório. Eles retrataram o cientista como uma pessoa racional, inteligente, com razão e nos mostraram como pessoas irracionais, estranhas e totalmente sem razão!

Eles incluíram um vídeo em que aparecíamos gritando e com os nossos cartazes e faixas com escritos à mão. Parecíamos lunáticos! Eles sequer usaram o vídeo da parte da entrevista falando com a nossa mensagem inteligente e racional! Foi uma deturpação que não somente nos causou dano, mas também deixou uma ideia na mente dos espectadores do programa que comprometeria o progresso dos nossos esforços de realmente parar com os experimentos.

Na história apresentada na televisão, os cientistas eram bons e nós, ativistas, éramos fanáticos! Em dois minutos na televisão, eu vi uma “história” completamente diferente do que o protesto tinha a intenção de defender, que era a proteção daqueles animais.

Depois disso, decidi parar de fazer protestos como meu método principal de ativismo. A partir de então, queria apresentar a verdadeira história sem que alguém distorcesse a perspectiva. Como podia fazer isso? Pois bem… decidi que a única maneira de assegurar que as pessoas não deturpassem o que eu queria dizer foi dizendo alguma coisa em que eles também acreditam. Se falo de coisas para que as pessoas estejam de acordo, eles não vão gastar tempo tentando me contradizer. Então, decidi escolher tópicos com que podíamos concordar: saúde, compaixão, benefícios ao meio ambiente, direitos dos trabalhadores etc., e educar em vez de discutir ou fazer protestos.

Agora estou no momento de avaliar o que, como diretora de Vegetarian Solutions, estou fazendo. Sei o que não funciona bem, incluindo o meu site (estou no processo agora de mudar e renovar… desculpem a demora. Estou neste processo de mudar e melhorar o que faço, com novas metas e estratégias). Mas é importante de vez em quando parar complemente e avaliar o que estamos fazendo para saber se estamos sendo tão eficientes quanto podemos ser.

Com esta meta de salvar animais, não faz sentido gastar tempo, energia, recursos, pessoas apaixonadas, etc., com ativismo ineficiente! Os animais precisam que sejamos muito espertos, e que paremos de fazer o que está impedindo o progresso do movimento de defesa dos animais: educar as pessoas ajudará mais os animais e a nossa causa, afinal.

Se o que fazemos como ativistas ajuda o nosso “ego”, mas não está realmente ajudando os animais — e pior, está causando uma percepção pública que nos vê como doidos, marginalizados, estranhos e distrai completamente a atenção de nós, para fora da mensagem que vai ajudar aos animais — então é momento de olhar no espelho e parar.

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  1. Gostei do texto. Senti que a Melissa foi muito honesta no que colocou.

    Mas acho que o protesto não é um erro. A forma como ele é feita, a forma como a msg que queremos trasmitir nele é que deve ser revisada.

    Aliás, existem dois tipo de prostesto pelo meu ver. Um é o que se deve esse nome mesmo, que é o de combate direto, de ir na frente e um rodeio ou de uma churrascaria e tentar ser ouvido. Essa estratégia se adequa perfeitamente ao que foi descrito.
    Mas as manifestações educativas são maravilhosas! Tenho tido uma experiência perfeita com elas. o feedback das pessoas é ótimo, e é lá que agente percebe como as pessoas precisam de informação fora da internet. Lá eprcebemos como na internet as informações ficam tão concentradas em quem vai buscar por elas. QWuando e vai às ruas, com uma abordagem devidamente desenvolvida para aquele público, de forma que ele não se feche á ela, de forma que ele consiga assimilá-la, é extremamente positivo.

  2. Muito legal essa auto-crítica.
    Vejo muito nesse meio as pessoas muito fechadas a mudanças. Comod izia Paulo Feire, somos seres históricos INACABADOS. Vejo pessoas se sentindo acabadas, eprfeitas, sem necessidade de refexão e mudança, e alheias à críticas. Aliás, tomam a crítica e a análsie como uma atitude grave que nunca deve ser feita a alguém que pelo menos está fazendo algo.
    Se você diz: “Não falemos que animais sao propriedades e nós somos seus donos, pois isso demonstra que animais são produtos e são submissos ao ser humano”,, vc toma como resposta: “Isso não tem nada a ver, o importante é o que fazemos por eles”.
    Se vc diz que abrigos educam de forma errada a população e ainda mantém animais em condições que ão são boas para eles, você é impelido a ficar quieto, pois não se pode falar de quem faz algo.
    Se vc analisa algo,vc é tomado como alguém que nãof az nada, que só critica.
    Esse é o Brasil das pessoas acríticas, e isso tem que mudar.
    Estamos em uma época que urge por mudanças para fazermos ações qeu realmente ajudem os animais.
    Fazer por fazer nos leva a uma situação de dar 1 passo afrente e doois para tras.

  3. Gostei mto! E tb concordo. Veja, o protesto pode ser mto eficaz se mantidos certos limites, e é isso que é difícil.É fácil extrapolar e deixar a empolgação subir à cabeça, mas aí passamos exatamente a idéia que não queremos: pessoas que não têm o que fazer, chatas, críticas, malucas enfim.Ou que vivem procurando pêlo em ovo.
    Até nos meus comentários aqui no FB eu tento manter a compostura, até pq tudo aqui é público. Dependendo do que pareça, até a lei pode ficar contra nós. E nada disso ajuda nem a nós nem à proteção de animais, só granjeia mais imcompreensão e preconceitos contra nós.

  4. Oi Melissa, parabéns pela tua LUCIDEZ!

    Teu outro texto já havia sido ótimo.
    Só fico aqui pensando se agora não sofrerás a marginalização às avessas…
    Meu trabalho é 100% voltado a educar e tenho conseguido fazer isto de maneira lúdica, leve e, muitas vezes, até indireta. Sou muito melhor recebida, meu blog deu um salto em acessos, inscritos no feed e recebo muito mails e-mails. Com isso, tenho conseguido ajudar a castrar, cuidar, curar, resgatar e muito mais, em todo o país e ainda com o prazer de manter uma energia leve e positiva. Energia atrai energia, se só focamos no lado ruim, na boa, não atrairemos outra coisa. Até animais de rua doentes ou em situações em que eu pararia para recolher não aparecem mais na minha frente, enquanto CHOVEM no caminho de muitas conhecidas minhas cada vez que elas saem de casa…

    Tenho visto muita coisa absurda na proteção animal, o que só me faz trabalhar mais e mais de maneira independente.

    PARABÉNS!

  5. Eu me identifico com isso que li. Devo ser considerada louca, mesmo. Mas não me importo tanto. Acho que para mudar o ” status quo”, temos que ser loucos também. No movimento de libertação animal devemos contar com pessoas articuladas, mas também com doidos. E estamos crescendo!! Cada vez somos mais!Mas ela tem, sim, razão.

  6. Realmente, parando para pensar bem; muito bem, tem sentido. O mal das pessoas é que só acreditam no que as convém, nos próprios interesses, sejam momentâneos ou sei lá, próprias ideologias (não sei quais). Enfim, domadas ou não, como ativista não sei como fazer para reeduca-las, pois com tudo que está acontecendo no mundo de errado, nos achar lunáticos ;e fora de cogitação, porque fora da realidade são esses tipos de pessoas que estão!

  7. Muito obrigada por ter tantos comentarios tão bons. Acho que pelo menos, é bom conversar sobre métodos de activismo e tomar uma oportunidade de refletir sobre “o quê” estamos fazendo (sem questão, estamos de acordo do “por quê”!).

  8. Cara Melissa, achei o seu texto muito pertinente. É sempre engrandecedor para nossas ações a vontade de melhorar e de alcançar uma maior eficácia no que buscamos comunicar. Aproveito para manifestar uma crítica relacionada ao comportamento de algumas pessoas que defendem os animais. Aqui no Anda, sempre que se divulga uma notícia que fala de alguma pessoa que praticou crueldade contra animais, diversos leitores não economizam palavras para descrever, com muita raiva, o que fariam com o criminoso. “Se pudesse, eu mesmo o mataria”, “Deveria ser esfolado vivo”, entre outras pérolas. Eu fico consternada com as notícias sobre crueldade, mas também fico triste com os comentários, embora entenda que, como seres humanos, estamos sujeitos a emoções negativas e descontroladas, principalmente diante de certos atos. Entretanto, percebo que, agindo dessa maneira, o que permanece entre nós é a violência, ainda que verbal.

  9. Melissa você é 10. Os ativistas ainda são necessários, para sacudir, acordar esse povo insano.
    Queimar soutiens e gritar contra a situação das mulheres, hoje parece até que foi ridículo, mas à época, foi impactante e muito importante, inclusive para nós mulheres, pois a maioria não tinha consciência de como era explorada, aviltada. Da mesma forma com os indígenas e animais.
    O protesto ainda se faz necessário. Serve como respaldo e pressão às organizações legislativas, judiciais educacionais. O caminho é longo, mas o importante é que já estamos caminhando e crescendo. Parabéns.

  10. otimo texto. Eu mesma estou passando por essa experiencia, agora que tenho condicoes de adotar um cachorro recebo oposicao ate de alguns membros da familia (claro que nao desisto e nao vejo a hora de adotar um amigo que precisa de mim). Eu apenas enviei um email para uma ong dizendo que sonhava com o dia de buscar meu cachorrinho, a mesma respondeu “continue sonhando..” eu fiquei chateada com aquilo. Qdo divulgo sobre abaixo- assinados, reportagens sobre crueldade -c/animais, etc, sinto que realmente nao funciona e comecam a achar que estamos indo alem, ou estaremos a beira de um fanatismo (coisa que odeio eh fanatismo de qualquer especie). Entao Melissa esta super certa. Eu conclui que o negocio nao eh falar (eu como pessoa individual, solitaria sem ong nenhuma, isso que quero dizer), o negocio eh FAZER, praticar, ajudar e sabe de uma? nao deixar ninguem saber, acho que eh melhor no meu caso, sei que assim encontrarei pessoas que pensam como eu. So pensar nos animais e nao no nosso orgulho proprio. obrigada pela materia, valeu!

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