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Animais: engrenagens e ingredientes

16 comments

Foto: Romulo Bernardi / Zero Hora

Pois então ontem mais um cavalo capotou na maior avenida de Porto Alegre, a Protásio Alves. Exausta, a égua foi surrada pelo carroceiro, que fugiu em seguida, e então populares a colocaram na calçada, para que não fosse atropelada. O fato, corriqueiro nas veias abertas do trânsito da Capital, acabou ganhando espaço em sites, jornais e até telejornais locais. O excesso de violência aplicado aos ‘cavalos do asfalto’ tem revoltado até mesmo aqueles que, habitualmente, fazem vista grossa e sempre tiram da manda o argumento-air-bag ‘ah, mas ele está trabalhando’. Não, não está.

Nesse sistema de revirar lixo nas calçadas e amontoar na periferia tudo aquilo que as zelosas donas de casa conscientes separaram para reciclagem, quem tem trabalho garantido é aquele que puxa carroça, estressado pelo holocauso automotivo, sedento, esfomeado e contando com a própria sorte para não se ferir. Pois um ferro no casco, um corte ou pata quebrada não vão lhe dar salvaguarda para o expediente no dia seguinte. Para o carroceiro, é um subemprego com aura glamourosa de autogestão e ecologia, segundo alguns coletivos de gente que não faz a barba e estuda em universidade federal. Quando o prazo derradeiro para circulação das VTA – veículos de tração animal – se esgotar, vou me divertir descobrindo qual será a nova massa de manobra que esses jovens ‘conscientes’ vão usar para brincar de revolução. Porque os catadores estarão em um beco sem saída, e os universitários já vão estar preocupados em tomar banho, fazer a barba e arrumar um emprego, finalmente.

E quem os colocou contra a parede foi justamente a parcela da população que ideologizou a escravidão que capota no asfalto, e a grande maioria que ignora o que quer que esteja além do para-brisa do próprio automóvel. Algum ganho, alguma melhoria, muita esperança, vieram justamente daqueles que, desconfortáveis em suas cadeiras, começaram a desatar o nó social pelo viés dos equinos explorados até depois da queda. Aqueles que justamente são taxados de não se importarem com os humanos, de só se importarem com os animais, de não se importar com a fome dos filhos dos carroceiros – deco acusatório levantado por quem não percebe a própria indiferença. E o estrago que ela causa.

As carroças não nasceram ontem, mas um cruzamento de variáveis fez proliferar sua presença no corre-corre urbano da Capital gaúcha, e junto toda a verdade não romanceada. Pois lembro de um nome da inteligentzia local, em um programa de rádio, dizendo que as VTA eram cultura, não podiam ser extintas. Claro, quem vive da grana pública da Lei de Incentivo à Cultura não está puxando uma carroça atrelado pels dentes, nem está revirando lixo, sem muitos dentes na boca. Mas não quer ficar mal com o público descolado, então demagogiza um pouquinho, e sai como uma voz dos desfavorecidos. Um poeta do povo. ‘Sou burguês mas sou artista’. Ok, e eu sou o Bozo.

Enquanto isso, os abolicionistas fazem muita articulação e correria para que se prescinda dos cavalos como engrenagem. E também para tirar os animais também da condição de ingrediente.

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  1. Comentar o quê? Texto perfeito, leitura bem feita. ahhhhhhhhhhh faça-me o favor! o que comento é a horrorosa situação que não acaba nunca! ANIMAIS E MAIS ANIMAIS SOFRENDO A EXPLORAÇÃO FEITA POR SERES HUMANOS…… ABOMINÁVEL!
    “Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor.”
    (Pitágoras)

  2. Que maldade, pobre animalzinho.Quem comanda o trânsito de POA??? responsáveis tomem uma atitude por favor. Carroças não são cultura coisa nenhuma, são exploração de animais indefesos e entrave perigoso no trânsito. Dizem que o gaucho é machão. Ora , ser machão é ter ética e proteger a vida.Dar de chicote e judiar de um ser indefeso é extrema covardia.Nós pessoas normais trabalhamos com nossas próprias forças e não temos quem proteja nosso emprego.Por que os carroceiros não criam um carrinho com rodas que eles mesmos puxem? Caminhariam muito, mas os carteiros também caminham muito. E devia ser proibido ou multado se espalhar lixo nas ruas, abrir os sacos, escolher e deixar tudo exposto. Olhem só o couro desta égua da foto, chega a ter buracos !!! Não é fácil sair um couro desses!Revoltante. Precisa ter união entre os protetores, fazer equipes, ir semanalmente aos responsáveis maiores pelo trânsito e exigir solução já.Chega de esperar!!!Que vergonha para o RS esta situação!!!!

  3. Nossa Marcio ! Você disse tudo ! Eu acho que se existe reencarnação, na outra vida eu fui cavalo e devo ter sofrido muito porque não aguento ver cavalos sofrendo. Adoro de paixão todos os animais, mas os cavalos, sei lá, são demais ! Não seria o caso de fazermos abaixo-assinado, o Brasil todo, para acabar com essa barbárie ?

  4. Nossa,ROSELI,vc falou por mim,isso que vc disse é exatamente o que acontece comigo.Chego a ter pesadelos quando vejo os atrozes sofrimentos desses pobres animais pois eu sinto a dor e os sofrimentos deles em minha alma e estou disposta a ajudar a ameniza-los no que for preciso,aqui na minha cidade eu vivi abor dando carroceiros ,tentando conscientiza-los ,conversando e entregando-lhes panfletos que mando imprimir,e quando conversa nao resolve eu chamo a policia mesmo, sei que essa é a minha missao aqui na terra e vou cumpri-la a qualquer custo. Abraços abolicionistas.

  5. Perfeito, teus comentários!
    As carroças no transito tem que acabar mais cedo e em pensar que temos que esperar até 2013.
    é uma barbárie!!!

  6. É Rosane, é bom a gente falar com pessoas que entendem exatamente o que a gente está sentindo, enquanto outras não tem o mínimo de compaixão. Esperar até 2013 realmente não dá. Precisamos fazer alguma coisa agora.

  7. Meu Deus! O pior é que essas cenas não ocorrem apenas em POA. Vejo em Brasília, em Curitiba…é um horror! O que foi feito da égua? O que podemos fazer para acabar com isso? Já liguei pra polícia, já escrevi pra político, já briguei com carroceiro. Acho que a saída é escolher bem os políticos. Botar no poder os bons que se preocupam com os animais e escorraçar com um bando de demagogo que acha que justifica como ganha pão atitudes bárbaras como essa. E ainda tem gente que acha esses carroceiros coitadinhos. Miséria não é sinônimo de maldade. É preciso punir que pratica uma atrocidades dessas. Afinal, do que nos adianta a razão se não a utilizamos para o bem?

  8. ALGUEM PODE DIZER QUAL O DESFECHO DESSE CASO? GOSTARIA MUITO DE SABER A SITUAÇÃO DESSA EGUINHA… É DE CORTAR O CORAÇÃO!!

  9. Aqui em Florianópolis a coordenadora do Bem-Estar Animal manda pra delegacia, algemado, quem faz isso; e com a ajuda da população. Vamos fazer pressão para acabar com os VTA!

  10. TRADIÇÃO…sabe, alguns índios sacrificam bebês q nascem c algum problema q possa dificutar-lhes a nas matas e se recusam a “medicina dos brancos”; isso é uma tradição q uma imensa maioria considera barbarie, ações típicas da idade média….

    Desculpa, mas não sei oq vou ensinar aos meus filhos!!!

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