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A cruel e vergonhosa caça às baleias já tingiu de vermelho o litoral brasileiro

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Santa Catarina

De acordo com historiador Vilson Farias, as armações baleeiras eram empreendimentos comerciais de abate de baleias. Tinham alto custo e mão de obra artesanal. Exigiam frotas de navio, fábrica de transformação do óleo e estrutura suficiente para captar e abater a franca.

A perseguição às baleias era feita em lanchas impulsionadas a remo e à vela em alto-mar. Os animais eram arpoados com um arpão rudimentar de ferro batido com farpas e uma haste de madeira, preso à lancha por um cabo. Após arpoada, era comum que a baleia arrastasse a lancha por várias horas, antes de, exausta, morrer.

A morte das baleias podia demorar até 24 horas, quando eram levadas até a praia, e descarnadas à meia-água. Escravos retiravam as fatias de toucinho e derretiam o óleo.

As seis unidades em Santa Catarina funcionaram de 1740 a 1850. Conforme lembra o historiador Fernando Bitencourt, o consumo da carne nunca foi o objetivo das capturas de baleias. Elas foram dizimadas por causa da espessa camada de gordura que reveste o corpo. Derretido, o óleo era destinado a iluminação e lubrificação. As barbatanas eram vendidas para fabricação de espartilhos e utilizadas como liga na produção de argamassas para igrejas e fortalezas.

Segundo o curador do Museu Oceanográfico da Univali, Jules Soto, as carcaças reveladas em Garopaba são do período das armações. Ele afirma com base no descarte empregado.

– Para aliviar o peso da baleia, a primeira coisa que se fazia era cortar a cabeça dela. Depois, era deixada no local, no mar, à meia água. As cabeças eram sempre deixadas juntas no mesmo local.

Paraíba

As águas do litoral paraibano registraram durante mais de 70 anos um duelo covarde entre o homem e os maiores animais vivos na atualidade. Nesse período, os animais saíram perdendo. As tripulações dos barcos da estação baleeira da praia de Costinha, no município de Lucena, caçaram aproximadamente 22 mil baleias, segundo dados Companhia de Pesca do Brasil (Copesbra), empresa nipo-brasileira que administrou a unidade a partir de 1958 até 1987, quando houve a proibição da pesca.

E a matança deve ter sido bem maior, pois antes a empresa havia pertencido a grupos do Brasil, França e Noruega e não existem registros da quantidade de animais capturados.

Enquanto para os defensores das baleias o funcionamento da estação baleeira de Costinha representava uma ameaça de extinção aos vários tipos de baleias que vinham do Pólo Sul em busca de águas quentes do litoral nordestino; para a população de Lucena à caça dos cetáceos (baleias) significava uma importante fonte de renda e emprego, atraindo trabalhadores de várias cidades.

A quantidade de baleias caçadas por temporada variava. Inicialmente eram 300 exemplares capturadas durante a temporada de pesca que ia de julho a dezembro. As cotas foram subindo para 500, 700, 900, chegando até 1,1 mil animais mortos numa única estação. Esses números decaíram pouco antes da proibição da caça à baleia, um reflexo da retração da população desses animais. As espécies mais caçadas foram a Minke, a Sei e Jubarte.

Atualmente, a estação baleeira está abandonada. O cais de madeira onde atracavam os barcos está vazio. O maquinário usado para arrastar os enormes mamíferos continua exposto, sendo deteriorado pelo tempo, parecendo uma vingança da natureza.

A pesca da baleia terminou há 20 anos. Em 18 de dezembro de 1987, a Lei Federal nº 7.643/87, assinada pelo então presidente José Sarney, tornou ilegal à caça aos cetáceos. “Fica proibida a pesca, ou qualquer forma de molestamento intencional, de toda espécie de cetáceo das águas territoriais brasileiras”, diz o texto. A pena: 2 a 5 anos de reclusão e multa.

Caça à baleia

A estação de caça à baleia ocorria entre os meses de julho a dezembro. No auge da temporada de pesca a indústria chegava a empregar 600 pessoas, desde tripulantes dos barcos, passando pelo pessoal responsável pelo corte da carne, retirada do óleo, ossos e barbatanas, além do armazenamento e conservação dos produtos.

Porém, o trabalho das tripulações começava algum tempo antes, na preparação dos barcos. Com a chegada do período de caça, o trabalho seguia de domingo a domingo, com as embarcações partindo de Costinha antes do nascer do sol e só retornando à noite.

Outro ex-tripulante de barco baleeiro, José dos Santos, 52 anos, ressalta que durante a permanência em alto mar todos mantinham a vigilância na expectativa de avistar uma baleia, até porque o homem que o fizesse garantia uma premiação extra em dinheiro caso o mamífero fosse capturado. Essa possibilidade aumentava quando se estava de vigia no mastro. Ele recorda que numa única temporada cerca de 900 baleias foram caçadas.

O professor, jornalista e fotógrafo Arion Farias, que acompanhou em duas ocasiões na década de 50 jornadas de caça à baleia, lembra que no momento em que um animal era avistado, o capitão do barco posicionava a embarcação e seguia a toda velocidade rumo ao alvo. O barco balançava fortemente ao ultrapassar as ondas em alto mar com o motor a toda força.

O artilheiro se posicionava junto ao canhão, na proa do barco. A cerca distância os motores eram desligados, a tripulação fazia silêncio absoluto, enquanto que o barco se aproximava da baleia. O disparo ocorria durante uma das subidas do enorme mamífero à superfície para respirar, quando a embarcação estava há cerca de 30 metros.

Com o tiro certeiro, o animal tentava, em vão, se desvencilhar do arpão encravado em seu corpo e preso por uma corda ao navio baleeiro. A baleia, ferida mortalmente, arrastava a embarcação ou mergulhava o mais fundo possível numa luta agonizante para se soltar. Os tripulantes aguardavam pacientemente a rendição do mamífero, que aos poucos perdia a força, a vida.

José Dantas de Oliveira conta que, então, a tripulação puxava o animal até a lateral do barco. Com um objeto cortante era feito um buraco na barbatana da baleia, onde era presa uma bóia-rádio, que emitia um sinal de localização. O navio baleeiro deixava à presa enquanto que se dirigia rumo ao sul, em busca de nova pesca.

No final do dia a tripulação retornava, prendia o mamífero à amurada do barco e voltava para a estação de Costinha, onde tinha início algumas horas de descanso para os caçadores do alto-mar.

Para outros trabalhadores da estação baleeira começava o trabalho do corte, limpeza e armazenamento das baleias, atividade que entrava pela madrugada. A indústria da caça à baleia funcionava 24 horas. No dia seguinte, os baleeiros levantavam âncoras.

Grande parte dos produtos derivados das baleias pescadas em águas paraibanas era exportada. Em João Pessoa, a carne de baleia era comercializada nos açougues do Mercado Central.

Baleias mais caçadas

Inicialmente, as gigantes Cachalotes com média de 21 metros de cumprimento, eram as preferidas. Quando se tornaram mais difíceis de serem achadas, resultado da diminuição da sua população; as Jubartes, com 16 metros de comprimento e pesando até 40 toneladas, passaram a atrair a atenção dos baleeiros.

Mas estas também começaram a escassear e o tipo Sei, com comprimento idêntico as Jubartes, mas com peso menor, variando de 20 a 30 toneladas, tornaram-se as mais caçada. Em seguida, foi a vez das Minke virar alvo preferido dos caçadores.

Apesar de serem mais raros, outros tipos de baleias também foram caçados na costa paraibana. O ex-baleeiro José Dantas de Oliveira lembra da captura de duas baleias da espécie Azul, com aproximadamente 27 metros de comprimentos: “Eram dois animais gigantes, raros de serem encontrados”. Essa espécie de baleia é o maior mamífero da Terra e pode atingir até 40 metros e peso de 100 toneladas. Atualmente existem pouquíssimos exemplares vivos.

Séculos de extermínio

As gigantes do mar se tornaram alvo dos humanos ainda na Idade Média. Entre os séculos XII e XVII o óleo de baleia servia à iluminação pública das cidades que surgiam. Países como Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal dominavam a captura destes animais. A Coroa portuguesa decretou, em 1614, o monopólio da pesca da baleia no Brasil Colônia.

Além do óleo, os cetáceos serviam como matéria-prima para a fabricação de sabão, velas e tintas. As baleias eram abatidas com arpões e armas de fogo no Brasil Colônia e arrastadas às praias do Recôncavo Baiano, onde escravos as dissecavam.

No final século XIX, com a revolução industrial e a concorrência de expedições britânicas, americanas, japonesas, russas e norueguesas, que vinham caçar baleias na costa brasileira, a atividade decaiu. Porém, no início do século XX voltou a crescer com o funcionamento de importantes estações baleeiras espalhadas pelo litoral brasileiro: Costinha, na Paraíba; Cabo Frio, no Rio de Janeiro; e Imbituba, em Santa Catarina.

O caráter industrial adquirido pela caça à baleia na década de 20 do século passado acelerou o processo de matança dos animais, reduzindo drasticamente as populações de cetáceas, ameaçando a própria sobrevivência das empresas baleeiras. Em 1946, a Comissão Baleeira Internacional (CBI), criou um “efeito dominó”, pois quando um tipo de baleia fosse desaparecendo os países deveriam passar a caçar outra espécie. A extinção era inevitável.

Um exemplo foram as baleias-fin, estimadas em 100 mil exemplares, atualmente não chegam a 2 mil no Oceano Antártico. Já as baleias azuis eram 250 mil indivíduos. Este número não chega a 400 indivíduos na mesma região, havendo risco real de extinção. Estima-se que mais de 2 milhões de baleias foram caçadas em todo o mundo no século passado. A média de animais mortos durante o período de pesca mundial de cetáceos, cujo auge ocorreu em 1961, ano em que foram mortos 70 mil indivíduos.

Em 1986, para conter a matança das baleias, a CBI declarou uma moratória da caça por tempo indeterminado. Contudo, mais de 14 mil cetáeas foram mortas após este período, sendo o Japão responsável pela metade deste número. A indústria baleeira japonesa apresenta ao mundo o argumento de “caça científica” para a captura dos animais, dizendo que o objetivo é reunir informações sobre o tamanho e a estrutura das populações desses mamíferos. Porém, os estudos podem ser feitos sem a necessidade da morte das baleias.

Já a Noruega não aceita a moratória e mantém a caça comercial de aproximadamente 500 baleias minke por ano e pretende ampliar sua cota comercial para 2 mil animais. A Islândia, outro país que prática a caça às baleias, retirou-se em 1992 da CBI.

A natureza em recuperação

A proibição da pesca da baleia foi a luz no fim no túnel para estes animais. Após duas décadas livres da perseguição dos barcos baleeiros no litoral brasileiro e, particularmente, paraibano, a população de cetáceas dá sinais de estar aumentando. A boa notícia é dada por ambientalistas e comprovada por antigos caçadores do mar.

“Com a proibição da pesca, dá para perceber que a natureza está repondo lentamente a população de baleias”, comenta Leandra Gonçalves, especialista da organização ambientalista não-governamental Greenpeace no Brasil. Mas vale a ressalva de que crescimento da quantidade dos maiores mamíferos da Terra é vagaroso. Ela lembra que o ciclo reprodutivo é demorado: “Uma fêmea na idade adulta só dá a luz a um filhote a cada dois, três anos”.

Mas as baleias estão vencendo a luta pela vida. Depois de serem perseguidas impiedosamente pela indústria baleeira em áreas de caça como o litoral paraibano e terem suas populações bastante reduzidas, já há relatos do aparecimento delas próxima à costa da Paraíba.

“Realmente próximo à proibição estava muito reduzido o número de baleias encontradas durante a pesca”, conta o tripulante de barco baleeiro José Dantas de Oliveira, acrescentando que atualmente é até possível ver baleias se aproximando do litoral do município de Lucena.

Ameaças do presente

Porém, a garantia da proibição da caça não representa segurança total para essas gigantes no mar territorial brasileiro. Outras ameaças existem para os cetáceos, apesar de fazerem menos vítimas que os barcos baleeiros que zarpavam de Costinha. A ambientalista Leandra Gonçalves aponta que a pesca com as chamadas redes de espera é um dos principais fatores para registro de mortes de baleias no litoral brasileiro.

“Os animais ficam presos nas redes e acabam morrendo exaustos”, comenta Leandra Gonçalves. Ela observa que foram constatadas ocorrências de baleias encontradas encalhadas mortas com marcas de redes no corpo, principalmente no rosto.

Com informações do Diário Catarinense e o Norte online

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  1. A história da caça de baleias no Brasil.
    Como resgatar uma história esquecida em um país com tão pouca memória, seja histórica ou recente, como o Brasil? Foi este o desafio que os historiadores William Edmundson e Ian Hart enfrentaram ao pesquisar uma atividade que, apesar de abranger mais de 380 anos da história brasileira, permanece negligenciada nas escolas e distante da mente do cidadão comum. Tal fato é nada menos do que surpreendente quando constatamos que esta atividade – a caça às baleias – chegou a ser um poderoso lobby do governo, estreitando as relações Brasil-Japão, e uma importante atração turística, responsável até mesmo por fomentar a criação de linhas aéreas.
    No entanto, isso é apenas uma ínfima amostra das preciosidades que o livro “A história da caça de baleias no Brasil: De peixe real a iguaria japonesa” traz à tona, vindas das profundezas de um vasto mar de arquivos, bibliotecas, museus, revistas antigas e conversas com especialistas de renome, fruto de uma pesquisa sem igual feita por Edmundson e Hart no Brasil, Reino Unido, Noruega e Estados Unidos. Com linguagem acessível e um rico acervo de raras imagens, eles nos guiam através do surgimento das primeiras estações baleeiras na costa, denominadas “armações” durante o Brasil colonial, e da modernização da atividade no início do século XX, quando imigrantes britânicos e holandeses, com uma pequena ajuda de mãos norueguesas, substituíram os barcos a remo e vela com arpões manuais por navios a motor com canhões que disparavam arpões explosivos.
    O uso de tais técnicas atingiu seu auge com a chegada dos japoneses nas estações localizadas nos litorais da Paraíba e Rio de Janeiro, que trouxeram também inusitadas estratégias de marketing pelo consumo de carne de baleia e o inacreditável caso do arpoador que, até se aposentar, matou 30.000 baleias e errou apenas 1 tiro ao longo da sua carreira. Destas histórias ora prosaicas e às vezes bizarras da exploração das baleias, os autores passam à mudança de consciência da população brasileira com relação a estes animais, num momento quando personagens aparentemente tão díspares como um adolescente gaúcho e um Almirante Vice-Chefe das Forças Armadas uniram-se para fortalecer o movimento “Salvem as baleias!” no país.
    É neste movimento que repousa o germe de projetos como o Baleia Franca, Baleia Jubarte e Monitoramento de Baleias por Satélite, que se dedicam à pesquisa e conservação dessas espécies nos dias atuais e dos quais boa parte da informação sobre a biologia destas disponível no livro se origina. Em um ano onde o Brasil comemora a saída da baleia-jubarte – um dos alvos favoritos dos baleeiros no passado – da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, a prodigiosa obra de Edmundson e Hart serve como uma prova dos avanços pela conservação da biodiversidade que somos capazes de fazer quando aliamos o conhecimento científico à educação do público. Quem sabe, ao ficarmos alertas quanto aos erros do passado, possamos estar mais inspirados e esperançosos para enfrentar os desafios ambientais ainda maiores da atualidade e os que, por ventura ou não, o futuro traga.
    Igor Morais é biólogo formado na Universidade Federal de Pernambuco e Mestre em zoologia pela Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus, no sul da Bahia. Durante o mestrado, desenvolvido em parceria com o National Marine Mammal Laboratory da NOAA, em Seattle (Estados Unidos), realizou uma avaliação inédita da população reprodutiva de baleias-jubarte da costa brasileira ao incluir, pela primeira vez, os dados de capturas dos baleeiros no século XIX. É pesquisador colaborador do Projeto de Monitoramento de Baleias por Satélite e membro do Comitê de Bem-Estar Animal da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil.

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