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Devo(ra)ção canina

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Andaram passando a faca na goela da cachorrada em São Paulo. Alguns policiais chegaram ao local do holocausto a tempo de tirar da coleira um exemplar canino bem robusto – um rottweiler. Era grande o tal bicho, quase um boi. Uma hipérbole-metáfora bem representativa, se alguém ousasse proferi-la naquele pátio imundo.

É fato que a nossa hodierna e humanista civilização de ascendência tupiniquim já está alegadamente desacostumada com o sacrifício. – Ah, foi-se o tempo em que a cena antropofágica era pop na quase extinta Mata Atlântica! Já não temos mais tupinambás nestas zonas e sem nossa velha guerra aborígene paramos de devorar uns aos outros! O tempo passou e nossa pulsão por sangue sacrificial é descontada lá no super (dizem os mais modernos). Ali se compra de tudo: desde o prosaico “coraçãozinho” de galinha, até os tipos mais viscerais: morcela, estômago, fígado. Ou, quem sabe, miolos e línguas. Até imagino a Ana Maria Braga embaixo da mesa, em pleno júbilo.

Foi curioso saber que a cena do abatedouro canino revoltou tanto. Aquelas imagens, de fato, eram lamentáveis. Eu pensei que o alarde fosse por causa da sujeira e do despreparo dos carnífices. Mas não era isso. O fato causal era mesmo a espécie do mamífero imolado: Canis familiaris.

Ora, que diferença faz! Um comensal de paladar menos aguçado nem notaria, já que, depois de morto, ninguém faz au-au. Aliás, mesmo antes do último golpe do verdugo, acredito que ovelhas e cães, para ficar numa só comparação, já estão em pé de igualdade. Lembro perfeitamente da cor do sangue que escorria da garganta da ovelha que um dos meus tios matou na minha frente, quando eu era bem jovem.

Com pouco esforço, consigo imaginar na mesma posição um cachorro de médio porte. Um cusco branco, então, fica igualzinho na foto. Os dois mamíferos, olhos expressivos e igual potencial para inspirarem modelos de pelúcia fofinhos, morrendo de cabeça para baixo.
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Tomei ciência dos fatos ocorridos em São Paulo sem uma mínima alteração na minha palpitação ou pressão arterial. Muitos, porém, ofegaram e enrubesceram. Pesar, revolta ou vergonha? Será que escondem algum tipo de incompreensão sobre as suas próprias escolhas, debaixo das unhas ou também na goela? O problema é com o cão. Ele, não pode.

Fico com pena do cordeirinho, que até agora não sabe quando vai poder tirar uma folga. A vaquinha, já mais calejada, eu imagino que esteja aproveitando a época de danação dos cães para descansar. Para ela, enquanto estiverem confundindo devoção aos cães com devoração canina, está tudo ok. Afinal, a piedade e a adoração nunca chegaram ao seu cercado mesmo!
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Porém, já se antevê o sinal de que tudo não passou de um episódio maluco e logo o terror vai voltar para o curral. É que o tal rottweiler que encontraram no abatedouro, colega da turma nutritiva, não ia acabar na faca do magarefe. Ele era de estimação, ufa!

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