Dádiva

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Ao longo desse ano e meio da coluna “Olhar Literário”, o texto mais significativo que escrevi parece ter sido o menos lido ou apreciado, aquele composto em homenagem à memória de Caio Fernando Abreu: “A morte dos girassóis”.  Ele falava do tempo, da fugacidade do ser, da vida que escoa pelas nossas mãos e da incomensurável interrogação que nos habita a alma. Poderia também se chamar “Crônica do Sol Poente”, voz que se debruçava sobre o poeta dos jardins e das flores. Não sei. Talvez significasse, na realidade, o contrário disso tudo. É porque o texto evocava o sol, a vida, a vontade de recuperar o que se perdeu, a força indestrutível das coisas frágeis.  Mais ainda. A crônica celebrava os girassóis renascidos a cada manhã.

Um ano depois, neste mesmo espaço, eu gostaria de retomar o tema. E desta vez sob outra perspectiva, a do instante. Digo isso porque há alguns anos, já não me lembro quando, eu testemunhei essa imagem única, fugidia e bela. Foram instantes plenos, que apareceram sutilmente em uma tarde de primavera. Há quanto tempo? Já não sei mais. Eu nem estava preparado, nem a esperava, mas a vi. Eu a vi com toda sua sutileza e esplendor, vi sua face serena e inesgotável. Como pétala que se refaz, como estrela que se acende, como névoa que se esparrama, eu a vi. Ela era branca e leve e delicada. Naquele instante eu a percebi e quis retê-la. Em vão procurei eterno sol.  Sobrou-me a memória e nada mais.

Devo então recordar o que se passou. Caminhávamos pela rua, a nossa rua viva, a rua da nossa casa florida, a rua das árvores e dos pássaros. Íamos a pé, minhas filhas ainda pequenas e a vira-lata Coquinha em direção ao jardim da praça central.  Naquela tarde branca, a rua florida parecia respirar. O jardim era vivo e as árvores nos reconheciam.  Um dia que parou no tempo.  Estávamos na praça do jardim, nossa cachorrinha serelepe pelo gramado, quando a nós se juntaram outros amigos caninos – Suri, Billy e Bilinha –, que tantas vezes nos acompanhavam naqueles passeios inesquecíveis. Um dia feliz, em que todos os cães amigos se juntaram em uma tarde branca de primavera. Um dia para não esquecer.

Foi então que, sentado no banco da praça, pude testemunhar o momento em que eu não poderia mais desejar coisa alguma neste mundo. Em meio ao jardim em flor, a alegria das crianças e a bagunça dos cães que subiam em um monte de areia e rolavam, de um lado a outro, para depois saírem em disparada pelo gramado, enfiando-se nos arbustos, chafurdando na terra, brincando de perseguição, mordendo delicadamente uns aos outros. Senti algo sublime naquela cena, um momento perfeito no tempo físico, um instante que gostaria de reter, como pequena dádiva.  Foi então que eu pressenti – ó maldita racionalidade – que aquele momento representava o apogeu, a inocência, a felicidade. Oh tempo, lastima-me e consola-me. Eu havia visto a plenitude nos olhos e nos gestos daqueles seres tão queridos.

Depois, como tudo na vida, isso se perdeu. O tempo passou, as crianças cresceram, mudamos daquela casa.  Tudo se foi. Resta agora a rua morta, com flores extintas e árvores destroçadas.  Os cães amigos, que nos saudavam e corriam pela praça,  nunca mais vimos.  O que terá sido deles? Melhor não perguntar, melhor deixá-los bem guardados na memória dos afetos, melhor ficar com a imagem suspensa daquele dia branco. Billy, Bilinha e Suri – onde quer que estejam – nós os veremos  sempre felizes e companheiros, correndo em um mundo de sonho, em uma tarde branca de primavera, em um belo instante que ficou. Com a alma enternecida, quero encerrar esta crônica transcrevendo um poema de Czeslavo Milovz. Chama-se “Dádiva”:

Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo.
Eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha de pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Endireitando-me,
vi o mar azul
e velas.

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  1. Laerte, suas palavras me remeteram a esses momentos de dádiva em que não precisamos de mais nada. Inesquecíveis e maiores do que tudo. Queria que não fossem tão raros… Poesia pura em forma de texto…

  2. Absolutamente maravilhoso… tão “de dentro”… Tão alma. Todos tem uma vivência desses momentos de alguma manhã ou tarde linda de primavera, parada no tempo da memória, o instante que passou…esse texto encontra essa vivência e grita q estamos vivos.. e que aconteceu… não foi um sonho.. A sensação de plenitude e dádiva se repete.. meio esmaecida.. mas se repete… Texto maravilhoso. Obrigada.

  3. Não há uma só vez que eu leia teus textos nesta coluna e não termine em lágrimas. Você consegue mesmo emocionar com seus relatos de simplicidade, pureza, harmonia. Toca sempre muito profundamente.
    Um abraço.

  4. Não acredito que “A morte dos Girassóis” tenha sido um texto pouco lido e apreciado. Ocorre que, por vezes, o silêncio é também uma das formas mais belas e sensatas de admiração.
    Sua pequena dádiva, em um momento numa praça já está retida em ti…
    O encerramento com o poema de Czeslavo Milovz é tão brutal quanto a flor do girassol que cai por terra(…) 🙂
    Obrigada pelas publicações.

  5. Laerte, obrigada pelos momentos de enlevo e emoção em mim despertados por teu texto e por agraciar-nos sempre com tua sensibilidade.

  6. LAERTE,sou sua fa,quando formei em direito fiz a minha monografia sobre o direito dos animais.poias sou apaixonada pelos animais e muito usei a sua literatura e fiquei encantada.voce e muito inteligente e sensivel,obrigada.sou de Juiz de Fora /MG

  7. Agradeço a todas as pessoas que me dirigiam palavras tão belas, as quais gostaria de dedicar à memória do poeta Czeslavo Milosz (1911-2004). Laerte

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