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Quando 2 + 2 = 0

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Já escrevi em outra ocasião sobre a aversão que tenho às discussões sobre como os ativistas deveriam “se unir” e “esquecer as diferenças” pelo “bem” dos animais. Mas, como o tema é recorrente, permito-me recorrer a ele também. Eu vejo dois problemas básicos com este tipo de opinião: a negação e consequente silenciamento das diferenças; a paralisia estratégica que tem o efeito contrário daquele defendido por seus proponentes – faz o movimento estagnar em vez de progredir. Vou tratar de ambos separadamente.

I. A negação das diferenças

O discurso “aliancista”, como o apelidei, faz tábula rasa das diferenças, enxerga-as como inúteis ou até mesmo nocivas. E, em fazê-lo, comete uma série de graves equívocos no caminho. O primeiro e mais básico deles é essa concepção ingênua, porém muito perigosa, de que toda diferença é ruim, toda discordância é má. Esse tipo de raciocínio é certamente o estofo que moldou muitos regimes autoritários no passado. Só esta questão já daria material não só para um artigo, mas para muitos livros . O segundo, e igualmente importante, é supor que “essas diferenças” são bobagem, artificiais, e que todos devem se tornar miguxos para salvar os animais. Trata-se de uma decorrência do primeiro, e revela toda a ignorância e irreflexão que acompanha o pavor da diferença. Ignorância que alcança seu ápice quando se alega que o debate sobre “bem-estarismo” e “abolicionismo” é falsa polêmica, perda de tempo, disputa de egos ou coisa parecida. No fim, paradoxalmente, o delírio aliancista adota uma postura de “vale tudo”, e se você está fazendo “alguma coisa” pelos animais – mesmo que seja defender o abate humanitário – você “é um de nós”.

Agora, à primeira vista pode parecer que somos nós, que não compartilhamos do aliancismo, aqueles que não toleram as diferenças, querem distância de quem não pensa igual e querem impor seu modo de agir e de pensar. Isso pode ocorrer, sim, mas o fundamento por trás da ideia é, na verdade, reconhecer as diferenças e trabalhar com elas, sem impor. A maior manifestação de respeito às diferenças é permitir que elas sejam explicitadas. Diferenças de opinião e visões de mundo não são como diferenças de cor de pele ou origem étnica. Elas contam, pois as ideias nem sempre são compatíveis. Quando tentamos ignorar a diversidade de pensamento, estamos sufocando-a e, nesse processo, geralmente, sofrerá o grupo minoritário.

Abolicionismo e bem-estarismo: Inversamente proporcionais

Daí que afirmo que o discurso aliancista é típico particularmente dos bem-estaristas. Pois ao sugerir que devemos formar uma Santa Aliança para empreender uma Cruzada em defesa dos animais, eles estão, no fundo, dizendo: juntem-se a nós, apoiem nossas reformas bem-estaristas, e um dia os animais serão verdadeiramente livres.

Pois, raciocinem comigo: suponha-se que exista um grupo de 98 pessoas que têm uma determinada visão de mundo, um determinado objetivo e uma determinada estratégia para alcançá-lo. O que ocorre quando estas 98 pessoas tentam cooptar duas pessoas com visão de mundo, objetivos e estratégias diferentes, sob um falso pretexto de semelhança ou complementaridade de opiniões? A tendência mais óbvia (e eu diria quase inevitável) é que os 98 silenciem aqueles dois, que se veem então rebaixados a adotar e defender as concepções da maioria e abandonar suas próprias concepções, ou pelo menos reduzir drasticamente sua difusão e alcance.

O exemplo de cima é mais ou menos o que ocorre na relação entre bem-estarismo e abolicionismo. Pois o primeiro é, sem dúvida e infelizmente, a concepção de mundo predominante em torno da questão animal. Quando eles tentam atrair abolicionistas para uma “aliança” sob o falso pretexto da abolição futura, da reforma que alivia o sofrimento imediato, o que eles estão efetivamente fazendo é querendo sufocar a difusão e a eficácia do abolicionismo. Pois, matematicamente, quanto mais abolicionistas existirem no mundo, menos bem-estaristas existirão. Menos recursos e poder político, consequentemente, estes terão. Essa é a maior prova de que abolicionismo e bem-estarismo não são complementares, mas irreconciliáveis e diametralmente opostos: o sucesso de um vem, necessariamente, à expensa de outro.

Autoritarismo mal-disfarçado

O problema dessa tentativa de cooptação pela discurso dos “objetivos comuns” começa na falsidade da alegação e termina no sufocamento das diferenças ainda no nascedouro. O aliancismo pode parecer muito generoso, mas não consegue disfarçar sua matriz protofascista por muito tempo. Assim como os bem-estaristas, Hitler e Mussolini também tentaram unificar seus países por meio de um falso pretexto (o nacionalismo, no caso), que levou milhões a uma guerra inútil e exterminou mais alguns milhões.

A única razão para que esta visão estratégica tenha tantos adeptos é justamente pelo horror que muitas pessoas têm à discordância e à divergência. Mesmo que duas tendências sejam complementares, uma vez que decidem unir-se num projeto comum, para que haja alguma esperança de sucesso, uma delas deve prevalecer, ainda que provisoriamente. É por isso que, como percebi com pesar, a concepção leninista de “centralismo democrático” ingressou no terreno da defesa animal – pela porta dos fundos. Vinte anos após o colapso do império soviético e a constatação dos males de tal estratégia política autoritária, é triste ver que essa concepção ao mesmo tempo perigosa e defasada encontra abrigo entre os autoproclamados defensores dos animais.

Embora alguns abolicionistas possam, eventualmente, deixar-se seduzir por esse canto da sereia, o mais preocupante é, sem dúvida, o efeito que ele tem sobre o contingente de simpatizantes, novatos e indecisos, pessoas que não estão familiarizadas com a questão animal e tendem a ver, portanto, os seus defensores (ou supostos defensores) como uma grande massa indistinta – que, via de regra, é a imagem que a maioria dos indivíduos tem, vindo de fora, de uma comunidade ou movimento social e político. Por isso torna-se fácil dizer que “judeus são mesquinhos”, “índios são indolentes” ou “comunistas comem criancinhas”. E, claro, esse estereótipo, como tudo aquilo que dispensa o ser humano da triste e trabalhosa tarefa de pensar, torna-se um recurso bastante útil e frequente para grupos dominantes e conservadores que não querem ceder um milímetro do poder e da ordem estabelecida. Ou, inversamente, àqueles que querem tomar-lhes o poder a qualquer custo. Já foi dito que a complexidade e o juízo crítico não ganham eleições, nem fazem revoluções. A força do marketing político na nossa sociedade do espetáculo parece, infelizmente, confirmar essa opinião – ainda que, esperamos, apenas provisoriamente.

II. Paralisia e estagnação

O segundo grande problema do aliancismo é a paralisia que acaba transformando-o numa negação de si mesmo. A incapacidade de chegar a um acordo – a menos que ele seja “leninisticamente” imposto por uma vanguarda – inevitavelmente leva a disputas e discussões intermináveis, que podem acabar por levar à autofagia e às inimizades desnecessárias, aí sim eliminando qualquer tipo de colaboração possível. Outro paradoxo do aliancismo.

A chantagem emocional

O que eu considero mais irritante no discurso aliancista é o apelo emocional barato, a chantagem rasteira, que com frequência é exposta da mesma forma, com poucas variações, pois seus portadores têm mesmo pouco conteúdo e poucos argumentos: “os animais estão morrendo hoje, eles não podem esperar”.

Se os animais estão morrendo hoje, tanto mais importante e louvável que haja diferentes grupos, com diferentes visões, trabalhando para o mesmo fim, isto é, impedir que eles sejam mortos ou continuem sendo mortos. Cada um a seu modo estará contribuindo para que a causa avance, seja difundida, conhecida, debatida. Veganos straight-edges terão uma receptividade entre grupos de jovens punks muito maior do que hare krsnas. Mas, se você quiser ir a um templo ou centro de meditação para divulgar o veganismo, talvez seja melhor fazê-lo com um vegano que entenda do assunto e esteja capacitado para demonstrar a relação entre veganismo e não violência, ou o motivo por que o consumo de leite definitivamente não é uma forma de louvar a vaca, que terá seu filhote roubado e será morta para que seus adoradores possam adorá-la em seus rituais sagrados. Straight-edges e hare krsnas, ambos, dificilmente serão as pessoas indicadas – e capacitadas – para argumentar com cientistas que trabalham com a biologia, a nutrição ou a medicina.

Evidentemente que não há a divisão rígida que os exemplos sugerem, mas, ainda que possa haver um biólogo que também seja straight-edge e hare krsna, a abordagem que ele irá empregar será diferente de acordo com o grupo social em que está inserido naquele momento. Eu poderia me estender por milhares de outros exemplos, mas creio que já deixei claro o que quero dizer.

Desperdício de tempo e energia

Outra forma de demonstrar meu ponto de vista – e isso eu testemunhei de perto – é quando, por algum motivo, pessoas que tenham essas visões distintas insistem em tentar formar “grandes alianças”em vez de fazerem, cada um de um lado, o trabalho de base. As horas gastas tentando conciliar perspectivas políticas, espirituais, científicas, ambientais, são horas que poderiam ser investidas no ativismo vegano em cada uma dessas esferas da vida social. Juntar pessoas de raízes e inserções sociais tão distintas é, como dissemos, mais garantia de confusão – dentro e fora do movimento – que união e alcance das metas.

Quem viu a famigerada passeata contra o aquecimento global no Rio de Janeiro em 2007 saberá do que estou falando. De um lado, o Greenpeace gritando “vá de bike”. Do outro, hares entoando mantras e distribuindo balinhas – com leite. E quem estiver observando de fora entenderá, vagamente, que ambientalistas e hare krsnas são contra o aquecimento global. Vegetarianismo? Ah, sim, tinha uma faixa. Esses vegetarianos são todos doidos: um bando de fanáticos patrulheiros querendo salvar a Mãe Terra e reduzir o karma…

Enfim…

Por isso, quando se trata de ativismo político, 2 + 2 nem sempre é igual a 4. Levando-se em conta que pode antes enfraquecer que fortalecer a causa; a perda de energias; a paralisia em horas e dias de debates, sempre inconclusivos; as brigas que inviabilizam a possibilidade – pontual – de colaboração… Bem, nesse caso a equação mais correta é: 2 + 2 = 0.

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    1. Sim, a união faz a força. A força do opressor.
      O texto está muito bem explicado, basta o ler com atenção, longe dos ditados populares.

      Centralização, homogeneização, personificação de causas não trás mudanças.

  1. O artigo é muito bom e contundente, mas achei que vazaram alguns juízos de valor, algumas expressões que retratam indignação e inquietação.

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