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Quando Nietzsche chorou

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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), decepcionado com a civilização ocidental, dizia em seu último livro Assim Falou Zaratustra (1891) que a humanidade é doentia, feia e infeliz, enquanto os animais livres, ainda não contaminados pelo homem, são sadios, bonitos e felizes. Tido como louco, ele acabou sendo equiparado a um “profeta do mal” ao criticar o falso moralismo e o intelectualismo horizontalista que impedem a ascensão humana. Suas outras obras foram A Gaia Ciência (1882), Além do Bem e do Mal (1885), A Genealogia da Moral (1887) e Ecce Homo (1888).

Na tentativa de decifrar a alma atormentada do filósofo, o psicoterapeuta Irvin Yalon pôs-se a escrever, em 1992, o livro Quando Nietzsche chorou.  A narrativa ficcional trata do encontro entre Nietzsche e seu médico particular Joseph Breuer, no verão de 1882, em Leipzig.  Naquela época Nietzsche, professor da universidade local,  apaixona-se por Lou Salomé sem, entretanto, ser correspondido. Em suas confidências a Breuer, mentor de Sigmund Freud, ele alega que a melancolia faz parte de sua vida e que acredita ter vindo ao mundo antes do tempo, daí a sua irremediável solidão.

Esse livro inspirou um filme homônimo, cujo roteiro é uma profunda sondagem da psique humana na busca do que se pode denominar autoconhecimento. O filósofo- paciente e o médico que se torna, paradoxalmente, paciente do filósofo. A doença que afasta o professor da cátedra e os alunos que o abandonam. O médico que se vê, subitamente, doente da alma.  Conversações. Descobertas. Frustrações. Muros de silêncio. E uma presença perturbadora que se mistura à própria paixão. Amar o amor fugidio e belo, o amor triste e desesperançado, o amor carnal que se imortaliza e morre. Mas depois disso tudo, o que nos resta?

Resta-nos descobrir aquilo que, na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.  A resposta é dada pelo escritor Milan Kundera, nas páginas memoráveis de A insustentável leveza do ser:  “Nas línguas derivadas do latim, compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, ou seja, sentimos empatia por quem sofre. Em outras línguas, a força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo. Essa compaixão designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva”.

Milan Kundera fala desse sentimento sublime no capítulo “O sorriso de Karenin”, ao tratar da doença e da morte da cachorra do casal Tomas e Tereza. Ali ele critica a teoria machina animata de Descartes para demonstrar todo o sentir da pequena Karenin, que se despede da vida com a melancolia de um sol poente. Cabe aqui registrar uma das mais belas passagens desse romance: “A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade são as relações com aqueles que estão à nossa volta: os animais”.

A insustentável leveza do ser descreve, em seguida, a cena vivenciada por Nietzsche um ano antes de morrer, já bastante desiludido com os homens.  O filósofo sai de um hotel em Turim e vê diante de si um cavalo sendo violentamente chicoteado pelo cocheiro.  Nietzsche então se aproxima do animal e, sem dizer nada, abraça-lhe o pescoço e cai em prantos. Foi a partir daí que se declarou sua suposta doença mental, embora para Kundera o significado mais profundo desse gesto – o da compaixão – não tenha sido devidamente compreendido pelos homens.

Milan Kundera mostra assim, pelas lágrimas do filósofo, a insustentável leveza que deveria existir na alma das pessoas: “É este Nietzsche que eu amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de uma cachorra mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastando do caminho no qual a humanidade, ‘senhora e proprietária da natureza’, prossegue sua marcha para a frente”.

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  1. O Milan Kundera dá um recado de forma extraordinária no “O sorriso de Karenin”. Após escutar alguns elogios sobre “A insustentável leveza do ser”, me sinto privilegiado de também ter lido a obra e desembocar naquele capítulo desconcertante. Só posso igualmente recomendar a leitura integral, sem pular os capítulos e sem pressa para não desperdiçar a condução que o autor nos oferece.

  2. O livro é realmente belíssimo. Principalmente pela forma precisa e poética com que Kundera revela (muito mais do que gostaríamos de ver) a decadência humana.

  3. Desculpa… Até vi algo no texto, mas o autor dificilmente leu Nietzsche – o que se comprova não só pelo que diz de suas obras, mas pelo que diz de sua vida. Zaratustra não foi, nem de perto, o último livro de Nietzsche, assim como não foi escrito em 1891 (época em que Nietzsche já tinha perdido a sanidade). Aliás, como ele foi internado 10 anos antes de morrer (e nunca mais deixou de ser interno), ele não poderia estar em Turim um ano antes morrer (afinal, não era lá que o internato ficava). O que de fato se diz é que o tal episódio com os cavalos foi um dos últimos que ele viveu antes de perder a sanidade – mas, como disse, ele só morreria 10 anos depois não antes de morrer.

  4. Prezado Bruno,
    Agradeço-lhe pela oportuna correção no texto, quanto à biografia de Nietzsche. De fato, o episódio com o cavalo aconteceu defronte a um hotel em Turim, em 1889, ano em que – segundo Milan Kundera – foi declarada a insanidade do filósofo: “Foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo” (KUNDERA, Milan. “A insustentável leveza do ser”, Rio de Janeiro: RioGráfica, 1983,p. 292). Eu fico a pensar, todavia, se essa atitude de Nietzsche não foi, no fundo, uma demonstração de extrema lucidez… Muito obrigado, Bruno, pela observação. Laerte

  5. Já espalhei o endereço eletrônico do site e o texto para tod@s da minha lista de e-mails. Sensível e sustentável lucidez… empregada no texto – gostei demais.

  6. Amigos(as), coube-me nesta modesta crônica ser apenas o porta-voz dos pensamentos compassivos de Nietzsche e Kundera, e agradeço a todos pelas manifestações. Quanto à nova edição, se tudo correr bem pode sair ainda este ano.Laerte

  7. Que bom, Laerte, nesse caos (des)humano ter conhecido vc, ainda que através de um artigo lido em um computador.Concordo que Nietzsche não perdeu a sanidade: ele apenas se desligou do mundo, por não sentir-se parte dele.
    Eu o compreendo, pois é assim que me sinto tb.Não tenho afinidade nenhuma com a humanidade. E, por isso, sou tido, até por mim mesma, um ser à parte desse imenso manicômio de homens-feras.
    Obrigado por existirem pessoas como vc.
    Um abraço.

  8. Srs., Estou interessada em saber sobre esta cena, descrita por Kundera, a respeito de Nietzche, buscando compará-la com a de Crime e Castigo, de Dostoiévski (1821-1881), quando a personagem Rakólnikov, sonha estar na em sua infância abraçando um cavalinho, beijá-lo e chorar, ao assistir uma cena em praça pública quando o animal é espancado até a morte, por seu dono. Teriam algo a dizer a respeito?

  9. Se ser sensível e amar os animais a ponto de chorar por eles é loucura, eu aqui declaro a minha insanidade.
    Sou louca de pedra – tomem cuidado comigo – pois amo, amo, amo, com todas as forças de meu coração os animais e tenho vergonha de Deus por pertencer a essa espécie, que entre outros crimes, usurpou entre os outros seres a condição de dono, deus e juiz do universo.

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