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Risco de extinção do cagarro gera mobilização em Portugal

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Foto: Luís Silveira/ Wikicommons
Foto: Luís Silveira/ Wikicommons

20h45. A noite já está cerrada quando um grupo de 20 pessoas se reúne na praia do Pópulo, São Miguel, para mais uma missão. Objetivo: salvar cagarros, a ave marítima mais emblemática dos Açores. Atraídos pelas luzes da cidade e dos automóveis, muitos acabam por morrer atropelados.

“É importante proteger os cagarros, uma vez que o número de espécimes está em clara regressão”, afirma Diogo Caetano, presidente da Associação dos Amigos dos Açores, a associação ecológica voluntariamente responsável por criar brigadas de salvamento da ave.

O cagarro é a ave marítima mais abundante dos Açores, com a peculiaridade de só permanecer nos meses de fevereiro a novembro para acasalar e nidificar. Mas, neste período, as ilhas açorianas tornam-se o lugar mais importante para esta espécie, abrigando 74% da população mundial.

A ave monogâmica, escolhe um parceiro para o resto da vida. Em outubro, os progenitores abandonam os ninhos, numa migração transequatorial, viajando para regiões tão distantes como o Brasil ou o Uruguai, onde passam o inverno. Emancipados, os jovens, de tamanho e plumagem já adulta, saem pela primeira vez do ninho, em direção ao mar, à procura de alimento (peixes, lulas e crustáceos), acompanhando os pais nesta aventura em direção às terras quentes do sul. “Aqueles que sobrevivem à migração ficam entre cinco e seis anos no mar antes de regressar à colônia de nascimento e demoram pelo menos mais dois ou três antes de nidificar pela primeira vez”, explica o biólogo Joël Bried, da Universidade dos Açores.

A espécie humana é uma das grandes responsáveis pela diminuição das populações da espécie, predação por mamíferos introduzidos nos habitats (ratazanas, furões, cães e gatos assilvestrados), quer pela destruição dos seus habitats quer capturando algumas aves jovens para alimentação. Mas o maior perigo é outro: “Confundem a luz das estrelas com as luzes artificiais dos carros e das casas, o que acaba por resultar num grande número de atropelamentos”, explica Diogo Caetano.

Todos estes fatores têm contribuído para um grande declínio da espécie, classificada como vulnerável nas últimas décadas. Para reverter esta situação, a Associação dos Amigos dos Açores (criada em 1995, no âmbito da campanha SOS Cagarro, promovida pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar), está ativa anualmente nos meses de outubro e novembro.

“Constituída apenas por voluntários”, concentra-se nas ilhas de São Miguel e Santa Maria e, todas as noites, em zonas já delimitadas, procuram cagarros desorientados ou feridos. Uns são libertados na manhã seguinte,outros são tratados para posterior reintrodução na natureza. A brigada conta com a ajuda dos Vigilantes da Natureza e do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, que se encontra disponível 24 horas por dia para ir ao encontro de pessoas que encontrem cagarros, recolhendo-os e procedendo sua libertação.

Este ano, salvaram-se até agora 350 cagarros, 150 a mais que no ano passado. “Salvar mais cagarros não é sinônimo de sucesso. O menor número de mortos encontrados e a quantidade de voluntários são os verdadeiros indicadores de sucesso”, diz Diogo Caetano.

O número de aves encontradas mortas diminuiu para 50 e o número de voluntários duplicou, devido à SOS Cagarro. A campanha estendeu-se a todas as ilhas do arquipélago com sessões de sensibilização nas escolas, distribuição de apostilas que explicam como salvar um cagarro, sensibilização porta a porta e colocação de cartazes refletores nas estradas, de forma a alertar os condutores para a presença das aves. O trabalho também ajudou a conscientizar  as populações para a importância desta ave no ecossistema dos Açores.

“É a espécie mais notável e apaixonante dos Açores”, afirma Diogo Caetano. Por isso hoje foi instituído, ainda que não oficialmente, o Dia do Cagarro. “Era necessário enaltecê-la.”

Fonte: Diário de Notícias

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