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Ética e Animais – Reflexões desde o Imperativo de Alteridade- Parte 3

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3 Da neutralização da diferença à dignidade da alteridade

a) Pó e cinzas

“Após ela (a filosofia) haver recolhido tudo em si…
o ser humano descobre subitamente que ele… ainda está aqui…
Eu, pó e cinzas, eu ainda estou aqui”
Franz ROSENZWEIG

Três “passos”, na verdade dimensões interpenetrantes de um mesmo grande “movimento”, foram acima sugeridos: a “definição definitiva” da impossibilidade do diferente do ser, ou melhor, do diferente que ser; a obsessão pela detenção da temporalidade incontrolável e sua incorporação em uma espacialidade cósmica ou lógica “controlável”; e as formas pelas quais tais objetivos são atingidos, ou seja, os modos de “chancela neutralizante” que se apõem a tais conquistas e que pretendem, com isso, a evitação da recorrência da situação mais original de “caos”, quando a diferença era real e não apenas lógica e metodológica. Com isso, toda realidade nada mais é do que uma questão de “conhecimento”, e conhecimento organizado em torno à procura daquilo que temos chamado de “verdade solitária”, a correlação entre um intelecto cognoscente e um “objeto” de sua atenção cognitiva.
Sintetizemos, portanto, o até aqui exposto:

1) O modelo ocidental de pensamento, sua dinâmica, é já ex origine um grande arco de poderosa afirmatividade, provocado pelo fato originante de que, antes de tudo, dá-se a diferença: todo pensamento, toda filosofia, toda ciência têm aí sua origem mais remota. O logos tem aí seu único e real problema, o problema em relação ao qual todos os outros assumem uma dimensão secundária, e a inteligência como que parte imediatamente para a conquista dessa terra (ainda) incógnita.

2) Tal se dá, ao longo do tempo, pela paulatina domesticação daqueles elementos que podem introduzir, no grande corpo do conhecimento, a sombra da dúvida: o extrapolar de categorias — “não-ser”; o extrapolar da controlabilidade — o tempo que passa e desagrega o todo; e o extrapolar da “inteligibilidade” normal — algo que, atraindo as energias do conhecimento, dá-se por fora ou para além das possibilidades puras do conhecimento.

As últimas energias positivadas desse espírito identificante se dão, na forma exposta, à época dos grandes sistemas totalizantes do pensamento — até pelo menos meados do século XIX. É a partir daí que um grande processo de corrosão interna tem origem. E se o logos se traduz em habilidade extrema na dimensão que identifica as diferenças “externas”, tal não se dá no que se refere aos grandes problemas internos da cultura na qual se move; e o problema que então se propõe é de tal ordem que a totalidade de mecanismos legitimadores da positividade da procura é colocada em questão. A partir da segunda metade do século XIX, pelo menos, o grande problema já se conforma inequivocamente: dá-se a percepção de que, a um Eu claro e distinto, contrapõem-se os “eus” sombrios e indistintos, atuantes do psiquismo “subterrâneo”; a uma compreensão essencialista e formal da realidade, contrapõe-se uma visão “evolutiva”, onde o tempo, por tantos séculos recalcado, faz sua reentrada triunfal; a uma matemática “natural”, a uma geometria intuitiva, contrapõem-se geometrias “artificiais”, que nem por isso têm menos validade matemática do que a euclidiana; a uma música tonal, e, portanto, formalmente controlável a priori, contrapõe-se o princípio de desagregação da tonalidade, que conduzirá fatalmente a sendas desconhecidas; a uma arte figurativa “realista”, contrapõem-se uma multiplicidade de estilos, que criam realidades diferentes daquelas retratadas pela tradição; a uma literatura formalmente bem comportada, propõe-se uma construção literária infinitamente variável; a uma ciência bem-organizada, contrapõe-se uma “ciência” essencialmente indeterminada. Tudo parece fugir ao controle: espaço para o surgimento do grande Medo. Penetra-se, de corpo e alma, na imensa crise civilizatória na qual estamos mergulhados. Na esteira de Rosenzweig, somos obrigados a constatar: filosofias surgiram, filosofias desapareceram e nós, “pó e cinzas”, (ainda) estamos aqui. Após séculos de otimismo e de pretensa obviedade do sentido, a questão do sentido dos sentidos pressupostos pela inteligência do real se re-propõe com inusitada violência, uma violência que é uma contrapartida à altura da violência identificante que habita a raiz da racionalidade solitária, o coração do logos em sua dimensão ancestral.

b) Crises, arqueologias e novas descobertas: finitude e temporalidade

As formas de resistir a tal embate são variadas; desde o conservadorismo filosoficamente inócuo, porém culturalmente impiedoso, até arqueologias radicais em busca da melhor circunscrição da questão do sentido conforme acima sugerida, e desde uma vigorosa retrovisão arcaizante até prospectivas inusitadas no encalço do Novo. O fato é que nenhum pensador digno deste nome, no século XX, pode pensar ignorando esta situação de crise, de colapso de uma Totalidade de sentido. A temporalidade faz sua reentrada triunfal no campo do possível, e no século XX já não é possível ignorá-la: esta não-ignorância é o proprium dos discursos filosóficos contemporâneos.

Com o Tempo, ressurge a Diferença: com o colapso do Conceito identificante, que retira da alteridade apenas e tão somente aquilo que é intelectualmente compreensível, reassume seu lugar a questão da Alteridade real enquanto dimensão que não pode ser, simplesmente, representada ou mesmo “intelecualizada”, mas remete às profundezas de uma “indeterminação” original, onde nada é suficientemente “claro”, porque a clareza não é a questão original, mas, exatamente, é a diferença que é a questão original.

A percepção da radicalidade desse problema não escapa a alguns contados pensadores extremamente agudos: todos sabem que precisam defrontar seriamente com este problema. Investem na dilatação da estrutura original de compreensão do real. Filósofos os mais diversos concentram o melhor de suas energias em torno a esse problema. Suas soluções variadas contemplam paradoxalmente inquietações de origem bastante semelhantes, que são propriamente as inquietações filosóficas da contemporaneidade.

Conhecemos a história da filosofia contemporânea: a reproposição da questão original da temporalidade é compreendida inicialmente como finitude ou mesmo como náusea, assim como a emergência da alteridade original é compreendida como negatividade; nada impede que se consubstancie um novo terreno propício a novas caminhadas e novas descobertas.

Na particularidade da fenomenologia e de suas derivações, Husserl “resolve” a questão da intencionalidade intelectual, reabrindo o campo da imponderabilidade do real; e, como vimos, Heidegger supera a tradicional proposição lógica da diferença “invertendo-a” e “positivando-a” enquanto diferença ontológica. Está refeito um terreno filosófico que se presta a uma re-aproximação filosófica da questão da diferença.

c) A reafirmação da dignidade da Alteridade

Superamos, porém, a etapas das ingenuidades bem-intencionadas: se há uma lição que dois mil e quinhentos anos de história e de filosofia bem nos ensinam, é a de que, pela via do intelecto iluminante, podemos ir até aos limites do iluminado pelo intelecto, e não mais além. Se isto é o que concebemos como sendo a totalidade das possibilidades de pensar e do conceber, então chegamos realmente aos limites da filosofia e ao fim da história; se, porém, ao estilo da primeira frase da Negative Dialektik de Adorno, percebemos aí uma unilateralidade que envia, por sua vez, a uma estranha e provocativa obscuridade, a uma “má consciência”, a uma outra história, a um outro tempo que o tempo da sincronia, então estamos talvez preparados para ousar enfrentar o receio do desencontro, do paradoxo, do desvão, do fulcro que “incide” na construção do corpo dos conceitos. Desde a cinza da era das catástrofes, estaremos, em outros termos, finalmente preparados para retornar à questão original: a questão do sentido do real. Porém, não o faremos apenas com as armas da tradição, mas com tudo aquilo que a linha hegemônica da tradição nunca ouviu nem soube identificar.

Não reiniciamos, portanto, nosso itinerário à maneira de identificação de representações, mas auscultando os vestígios do irrepresentável; não decaímos em irracionalidades desesperadas ou apocalípticas, mas também não identificamos a racionalidade com a Razão onipotente. Não ignoramos que, do Outro, somente captamos o que se dá à nossa representação, e que sua alteridade se refugia para além da própria estrutura de cognoscibilidade e de manipulação do logos — e também não desprezamos o fato de que, sem esses cuidados, nos tautologizamos em uma Totalidade autofágica, beco sem saída de qualquer lógica do absoluto.
Mas, antes e acima de tudo, não hipotecamos nossa confiança a alguma estrutura onde o tempo se dissolve em algo categorial ou logicamente “maior” do que ele, tal como o Ser, mas articulamos a possibilidade de compreensão do real justamente à temporalidade real que se dá apesar de nós, do Ser e de nossa imensa capacidade sintetizante. Assim, desarticulamos a equação congelada em torno ao presente do indicativo de ser, perguntando simplesmente pelo sentido de ser; sentido que é outro que ser e que ser algum re-presenta ou pretenda esgotá-lo sem o violentar, uma vez que não é questão de ser ou não-ser, mas se sugere exatamente na diferença entre esses e quaisquer outros pares de conceitos. Dá-se a pluralidade de origem, e procurar o sentido do real significa, exatamente: construir a relação entre, no mínimo, dois diferentes — no famoso dizer de Levinas, “a ética é a ótica” primigênia, e a origem de todo o sentido, ou seja, a própria possibilidade de pensá-lo. O sentido do estabelecimento da ética como filosofia primeira não é mais do que isso: construir a compreensão de que o mundo, a terra, o universo se dão como um imenso “palco”, no qual se deve desenrolar um drama ético enquanto fundamento da realidade e teoria pré-original de todo conhecimento possível. Muito provavelmente é essa a racionalidade original da existência humana, e não a exploração obsessiva de quarks e de quasars e galáxias distantes. Assim, se é verdade que “…A diferença entre o velho e o novo pensamento expressa-se… na necessidade do Outro e, o que dá no mesmo, no levar a sério o tempo”, então a crise civilizatória em que nos encontramos nada tem de misterioso, nem em sua origem, nem em seu desenvolvimento; trata-se, em suma, das imensas conseqüências da pertinaz fidelidade a uma muito bem determinada lógica de princípios, que se propôs pensar e resolver o mundo desde a dimensão da identidade e da identificação. Grandes conquistas daí advieram; mas também daí provêm os imensos impasses em que nos encontramos. O seqüestro do “infinito” no presente, transformando a terra em um pretenso almoxarifado inesgotável e em um gigantesco depósito de lixo; a idéia suicida de que, de tanto rodar em torno a si mesmo, o frenetismo tresloucado acabará por se encontrar com suas razões; os automatismos e neutralizações bem pensantes, a violência e exploração desmedidas que habitam todos os níveis de realidade — tudo reenvia a um vício de origem: a obsessão solitária por uma “verdade solitária”, a do tautológico e idêntico a si mesmo.

4 A alteridade dos animais

Chegamos assim ao término de nossa breve incursão pela história do logos identificante, e podemos retornar agora à questão central que aqui nos interessa. Quem têm sido os animais ao longo da história do poder humano? Podemos iniciar caracterizando o que, por efeito dos impulsos de conquista humanos, de seu ímpeto no sentido de tentar “transformar o universo em um gigantesco campo de caça”, os animais não têm podido ser: co-autores da sustentabilidade ético- ecológica do planeta, ou seja, “outros”. Máquinas vivas, alvos fáceis da vontade de destruição racional, objetos de exploração de todos os tipos, de tortura, de decoração e uso, sem falar em alimento sempre à mão, os animais experimentaram desde sempre todo tipo concebível de violência humana. Incapazes de argumentar senão com sua existência nua, expostos a todas as agruras por existirem sem poderem se contrapor a seres empenhados não apenas em reduzir obsessivamente a existência da realidade externa a uma função sua, mas em determinar absolutamente o valor de realidade do Outro que si mesmo exclusivamente a partir de categorias destiladas por seu próprio cérebro, algo mais desenvolvido em suas funções cognitivas, os animais não-humanos ocuparam sempre o lugar de alvo predileto de uso violento-objetificador da vida pelos animais humanos. Se é verdade que em todos os níveis da vida, da relação ser humano-natureza, evidenciou- se uma contínua disposição de transformação da natureza para fins poucos sustentáveis — situação que ninguém hoje ignora exatamente pelas reações da própria natureza como um todo, por exemplo, na questão do aquecimento global —, é ainda mais verdade que em relação aos seres animados, e especificamente aos animais superiores, uma tal violência contínua cultivou e deu à luz os piores frutos da mania objetificante do homo sapiens. É uma questão de justiça histórica, e de justiça para com os vencidos em estilo benjaminiano e derridiano, lembrar que, até não muito tempo atrás, filósofos subiam a cátedras para explicar que as expressões de dor de animais vivissecados e torturados não eram de dor, mas reações maquínicas de uma máquina, já que aos animais faltaria a razão — talvez a razão de que se serviam tais filósofos para destilarem tais argumentos.

Todos esses fatos nos ajudam a perceber de forma cabal que, se é verdade que a crise que ora vivenciamos tem proporções inusitadas — e tudo leva a crer que tal se apresenta mais e mais como límpida verdade, como se pode observar pelas exigências que a natureza como um todo faz à ação humana, ultimato cuja alternativa é o extermínio dessa doença — o homem — que grassa sobre a pele da terra, como diria um Nietzsche — então é hora que se perceba finalmente, como já se sugeriu bem ao início do texto, que a categoria filosófica realmente adequada para conceber a existência dos animais é a Alteridade. Como toda realidade — não apenas a realidade humana — também os animais estão infinitamente além da capacidade de representação que deles se tenha, e o ônus da objetificação é exclusivamente de quem objetifica.

Assim, a frase de Adorno, epígrafe deste texto, assume ainda um novo sentido: repositório de Alteridade desconsiderada pelos grandes tratados, os animais olham-nos desde o fundo da existência mesma, particular e não-intercambiável, totalmente singular por mais que sejam multidão, irredutível a generalidades ou ontologias gerais. Sua vida fala de outro modo que meramente existindo: chama- nos a atenção, de modo pertinaz e infinitamente repetível, para a banalidade dos assassinatos, cometidos em série ou não, que têm, além de objetivos pragmáticos, objetivos crípticos de anular outras modalidades de existência, e evidenciam de modo definitivo os limites da capacidade representacional do intelecto identificante. Pois, ao contrário do que diz Levinas, também os animais podem ser assassinados (e não meramente “mortos”), e não apenas os homens, e o são tanto pelo menos tanto quanto os homens o são.

Concluamos, portanto: está mais do que na hora de nos despirmos de nossos preconceitos antropomórficos e entendermos finalmente que a percepção ética da Alteridade dos animais não é uma veleidade intelectual, ou um capricho contemporâneo, mas — além de um imperativo ético radical — uma questão de sobrevivência, e sobrevivência não apenas dos animais não-humanos, mas muito especificamente do único animal sobre o qual recairá a responsabilidade do fracasso absoluto, se a antevisão da catástrofe ético-ecológica que se insinua nas consciências lúcidas se realizar.

 
Ricardo Timm de Souza é professor e ensaísta, nascido em Farroupilha, RS, em 1962; doutor em Filosofia pela Universidade de Freiburg, Alemanha, é autor de 20 livros e cerca de 140 artigos, capítulos de livros, livros organizados, traduções e outras publicações. Membro-fundador da Sociedade Brasileira de Fenomenologia, do Centro Brasileiro de Estudos sobre o pensamento de E. Levinas (CEBEL) e da Internationale Rosenzweig Gesellschaft. Atualmente é Professor Titular da FFCH/PUCRS, atuando principalmente nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e Ciências Criminais; consultor de revistas e órgãos de fomento nacionais e internacionais e membro de sociedades científicas brasileiras e estrangeiras.

 

Fonte:Pensata Animal

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