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Trote para a humilhação: calouros e porquinhas numa cajadada só

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A confusão deu até na TV: “porcos utilizados em trote geram transtornos na Universidade de Brasília”. A manchete diz respeito ao trote realizado para os calouros do curso de Agronomia da UnB, em que foram utilizados duas leitoas filhotes, com placas que traziam piadas relacionadas à gripe suína. A mídia falou sobre a suspensão das aulas, a interrupção das atividades do Departamento de Agronomia, e também da multa imposta a Ninguém (isto é, ninguém se identificou como responsável pelas porquinhas) por levar animais ao campus sem autorização de transporte exigida pela Lei de Crimes Ambientais.

Muitos aspectos da confusão foram destacados, mas, os oprimidos, estes continuaram oprimidos. Refiro-me aos calouros, que participavam de um rito de humilhação apelidado de “trote”, e das leitoas, que serviram apenas como instrumentos para um divertimento de mau gosto e como expiação para o erro alheio. Esta é a situação exemplar em que os mais frágeis e vulneráveis são subjugados e desrespeitados – pelo simples fato de serem frágeis e vulneráveis. No caso das porquinhas é ainda pior, pois não são capazes de verbalizar que não estão gostando da “brincadeira”.

As boas vindas aos ingressantes de uma universidade podem ser feitas de diversas formas, desde empoderá-los de todas as possibilidades que um universitário passa a usufruir, até humilhar e subjugar, como condição para não se sentir discriminado no grupo do qual passará a fazer parte. O trote, ou qualquer outro sinônimo para um ritual de recepção dos ingressantes, pode ser um espaço para apresentar o universo acadêmico, e pode inserir os calouros não em atividades humilhantes e vexatórias, mas em atividades solidárias, inclusive para com os animais não humanos. O fato é que, em vez de promover a proteção ou a adoção de animais abandonados, o trote do curso de Agronomia optou por desperdiçar a chance de promover a solidariedade e, de quebra, expôs duas porquinhas a situações nas quais não tinham nenhum interesse, coisa que os grunhidos, a agitação e a defecação, mostravam “com todas as letras”.

Com o protesto das porquinhas, o que era para ser um trote se transformou em confusão. Acabou dando polícia e as leitoas foram apreendidas pela Secretaria de Agricultura, uma vez que o responsável não se identificou.  Não foram elas que inventaram a brincadeira, mas, pra variar, as porquinhas por serem mais fracas é que “pagariam o pato” pela irresponsabilidade alheia: caso o dono não comparecesse na Secretaria de Agricultura para pagar uma multa e assim retirar os animais, estas seriam abatidas em questão de poucos dias. Mas esta novela teve um final feliz, o Núcleo de Estudos Vegetarianos de Brasília e a Associação Protetora dos Animais de Brasília – ProAnima, realizaram uma extensa articulação e hoje as porquinhas estão sãs e salvas, vivendo num lar adotivo, onde não serão mais alvo de piada e nem menos serão abatidas.

Leonardo Ortegal é coordenador do Núcleo de Estudos Vegetarianos de Brasília – SVB, assistente social, e mestrando em Política Social pela UnB.

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