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Os princípios da ética ambiental biocêntrica e o design de moda

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Esta pesquisa investiga as propostas do filósofo Paul W. Taylor para uma ética ambiental biocêntrica. A partir destas propostas se levanta a implicação de uma ética ambiental biocêntrica na sustentabilidade ambiental e no design de moda.

Introdução

Esta pesquisa investiga as propostas do filósofo Paul W. Taylor para estabelecer as bases para uma ética ambiental genuína. As propostas para uma ética ambiental biocêntrica podem contribuir na busca pela sustentabilidade ambiental no design de moda.

A formulação de uma ética ambiental é necessária porque as plantas e os animais não são reconhecidos como tendo interesses ou valores que devam ser levados em conta por si mesmos. Para que ocorra a preservação do mundo natural é preciso que seja respeitado o valor inerente das coisas vivas, independente de qualquer valor instrumental que possam ter para os humanos.

Para esta pesquisa, a metodologia utilizada tem como base uma análise teórica exploratória das propostas do filósofo Paul W. Taylor. A pesquisa servirá de referência para o design de moda na concepção de produtos mais adequados ambientalmente.

Ética ambiental biocêntrica

Paul W. Taylor, considerado um filósofo individualista da Ética Ambiental Biocêntrica, apresenta sua teoria para a ética ambiental em seu livro Respect for Nature: a theory of environmental ethics. É uma tentativa de estabelecer as bases racionais de um sistema de princípios morais, por meio dos quais o tratamento humano para com o ecossistema natural e as comunidades selvagens deva ser guiado. Taylor argumenta que, independentemente dos deveres que os humanos possuem para com os outros seres humanos, humanos são moralmente requeridos a se preocupar com certas ações que possam beneficiar ou prejudicar os seres selvagens no mundo natural. O mundo natural não é um simples objeto para ser explorado pelos humanos, nem as criaturas utilizadas como recursos de nosso uso e consumo. Ao contrário, as comunidades de vida selvagens são merecedoras de nossa preocupação moral e consideração, pois possuem um tipo de valor que pertence a elas inerentemente.

Para definir o valor das entidades na natureza, Taylor inicia com a definição do conceito de bem próprio. Para o autor, o tipo de entidade possuidora de bem próprio é sempre entendida como um organismo individual. Uma forma de saber se algo pertence à classe de entidades que possuem bem-próprio, é ver se faz sentido falar sobre o bem ou mal do que está em questão. Se for possível dizer que algo é bom ou ruim para uma entidade, então a entidade possui bem-próprio.

Na teoria da ética ambiental biocêntrica elaborada por Taylor, os humanos devem identificar a sua existência, as suas relações com os outros seres vivos e o conjunto de ecossistemas naturais em nosso planeta, como membros da “comunidade de vida da Terra”.

Metodologia

A investigação teórica acerca dos princípios da ética ambiental biocêntrica, partiu do estudo da proposta do teórico Paul Taylor no livro Respect for Nature. O estudo do livro foi iniciado durante o segundo semestre de 2007 na disciplina Ética Prática, ministrada pela professora Dra. Sônia T. Felipe, no programa de pós-graduação em filosofia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, na Universidade Federal de Santa Catarina. Além da professora, participaram do estudo oito alunos de mestrado e doutorado. No final da disciplina, cada aluno desenvolveu um artigo relacionando a teoria de Paul Taylor com sua área de pesquisa.

Resultados

Do estudo resultou uma questão central para a ética ambiental: antropocentrismo X biocentrismo.
O ponto de vista biocêntrico desemboca em uma visão não hierárquica da natureza. Aceitar tal ponto de vista é comprometer-se com o princípio da imparcialidade entre as espécies. Nenhuma preferência a favor de alguns sobre outros é aceitável. Esta imparcialidade se aplica à espécie humana, assim como se aplica às espécies não-humanas.(5)

Após a publicação da obra Respect for Nature, muitos teóricos ambientalistas, por exemplo, James Sterba, Baird Callicott, Nicholas Agar, Kenneth Goodpaster, Rick O’Neil, entre outros, elaboraram teorias refutando ou aceitando a teoria da ética ambiental biocêntrica proposta por Taylor.

No Brasil, embora não se encontrem textos de teóricos ambientalistas biocêntricos, pode-se observar no texto do ambientalista José Lutzenberger, através das suas argumentações, uma visão que se aproxima ao biocentrismo: (2)

“Se quisermos sair da atual crise ecológica que a humanidade trouxe sobre si mesma, e se não sairmos, não teremos futuro, vamos precisar de uma moral mais ampla, mais completa, de uma ética ecológica. Temos que aprender a ver o todo. Temos que nos livrar deste velho preconceito ocidental, de que o homem é o centro do universo, de que toda criação esta aqui para nos servir, de que temos direito de usá-la e abusá-la sem sentido algum de responsabilidade. Temos que nos libertar da idéia de que outros seres só têm sentido em função da sua utilidade imediata para o homem. Nossa ética terá que incluir toda criação”.

José Lutzenberger foi um dos ambientalistas brasileiros mais ativos nas décadas de 70 e 80. Formação acadêmica como engenheiro agrônomo, ex-vendedor de produtos químicos, foi conferencista sobre questões ligadas à preservação ambiental. Em 1971, proferiu a conferência “Por uma ética ambiental ecológica”, considerada um marco do movimento ambiental brasileiro.

Entre os argumentos apresentados por Lutzenberger, como causadores dos problemas ambientais está “a ética ocidental, que hoje domina o mundo, independente de ideologias políticas e religiosas, é exclusivamente antropocêntrica, não reserva nenhum lugar para as demais criaturas”.

Discussão

A ética como princípio para sustentabilidade ambiental

O ponto de vista ético da sociedade humana é predominantemente humano-centrado (antropocêntrico). Desta forma, os princípios básicos de uma teoria de ética ambiental biocêntrica serão, a princípio, confundidos por muitos. A condição moral da ética humana é o “respeito pelas pessoas”. Em adição as obrigações morais que humanos tem entre seus pares, os humanos, também possuem deveres para com os demais seres da comunidade viva da Terra. As obrigações com as formas de vida não-humanas estão baseadas no seu status de entidades possuidoras de bem inerente. Estas possuem um tipo de valor que pertence a elas por meio de sua própria natureza, e é este valor que torna equivocado tratá-las como se existissem apenas como meros meios para possibilitar ações humanas. É pelo bem destas entidades que seu bem deve ser promovido ou protegido. Assim como os humanos devem ser tratados com respeito, as formas de vida não-humanas também devem ser tratadas.

Códigos de ética são criados para estabelecerem padrões e regras que definem os direitos e deveres que regem a conduta entre os humanos. Para cada área são estabelecidos códigos com padrões e regras específicos.

Segundo Kapaz, é a postura ética que alicerça o respeito que precisa-se conquistar e manter. Respeito entre colegas de profissão, que, ao aditarem padrões reconhecíveis e comuns, passam a atuar de maneira justa e consistente em relação ao mercado. Respeito entre designer e cliente, para que os modelos de conduta profissional assegurem direitos e deveres das partes, estabelecendo claramente os compromissos com a qualidade e a construção de relações maduras. Definir as diretrizes de comportamento foi o primeiro passo para a consolidação da atuação profissional do designer, porque sem ética não há estética. (1)

Observa-se que não se estabelecem regras específicas que regem a conduta profissional em relação a uma ética de respeito pela natureza. Na verdade, regras específicas só terão valor real para a natureza, quando se estabelecer uma ética ambiental biocêntrica, onde os seres vivos do mundo natural possuem um valor simplesmente em virtude do fato de serem membros da comunidade viva da Terra. Tal valor não deriva da possibilidade de uso dos mesmos pelos humanos.

A complexidade em estabelecer regras de conduta para as atividades dos humanos, diante da visão ambiental biocêntrica, tem desfiado os teóricos. Estes buscam formular teorias que apresentem regras coerentes para guiarem as ações humanas, permitindo um desenvolvimento ambientalmente sustentável, com menor impacto possível para a natureza.

Moda no contexto da sustentabilidade ambiental

O vestuário de moda é um produto efêmero, está associado ao consumismo. Para o vestuário de moda, a cada estação se propõe novos produtos, com modelagens, cores e tecidos diferentes. Há um grande apelo para que o consumidor se mantenha na “moda”, substituindo as roupas que ainda então em bom estado por modelos desenvolvidos de acordo com as novas tendências apresentadas pelos grandes escritórios de estilo e pelas feiras internacionais de moda. É tão rápida a relação entre consumidor e roupa, que não há tempo para a roupa carregar a memória da pessoa que a veste. A roupa, enquanto vestuário de moda, não passa uma mercadoria rapidamente descartável, é trocada quando são lançadas as novas tendências e, muitas vezes, se paga caro pela novidade, não pela roupa em si.

Assim, uma dicotomia se estabelece ao se falar em sustentabilidade ambiental e moda. O produto de moda é efêmero, símbolo do consumismo, e para a sustentabilidade ambiental é preciso um consumo consciente de produtos, que devem ser desenvolvidos para um ciclo de vida mais longo, ou serem substituídos por serviços. Entre as propostas que podem ser explorados como alternativas para a moda está o aluguel de roupas para o dia-a-dia, oficinas de customização e reparos, roupeiros coletivos, feiras de trocas, vintage (uso de roupas antigas) vendidas em brechós, entre outros.

A redefinição dos objetos do vestuário de moda, a substituição do “consumo” pelo “uso”, a ética na relação dos humanos com a natureza, deve ser a base para o paradigma da sustentabilidade ambiental, para tanto é preciso muita pesquisa, investimentos e mudanças de valores.

Um impulso dado hoje pode trazer resultados concretos no prazo de dois a cinco anos, mostrando, assim, que não é necessário esperar a próxima revolução tecnológica “limpa” em um hipotético futuro. Nossa sociedade precisa dar um enorme salto criativo: isso deverá acontecer por meio dos objetos concebidos para tecer um novo vínculo do homem e a natureza. (5)

Na verdade, segundo alerta de vários cientistas e pesquisadores do meio ambiente, não há tempo para esperar por mudanças culturais, por uma revolução tecnológica ou de valores. Estas mudanças podem levar anos, e a crise ambiental gerada pelo desenvolvimento humano, se aproxima de um cataclisma.

Para muitas pessoas, este alerta não passa de um exagero, sensacionalismo dos ambientalistas. Contudo, já é possível observar nas mudanças climáticas, na extinção de diversas espécies de animais e plantas, nas pandemias, entre outros, que o ser humano precisa rever sua relação com a natureza. E esta mudança pode ocorrer de uma forma ou outra, por caminhos traumáticos ou, uma transição por escolha.

Praticar a sustentabilidade ambiental significa cuidar das coisas, das pequenas coisas até o planeta inteiro. Como podemos imaginar a transição para a sustentabilidade? Por caminhos traumáticos, uma transição forçada por efeitos catastróficos, que de fato obrigam a uma reorganização do sistema, ou, a mais indolores, uma transição por escolha, isto é, como efeitos de mudanças culturais, econômicas e políticas voluntárias que reorientem as atividades de produção e consumo. (4)

Diante deste contexto, como conciliar a moda com o desenvolvimento ambientalmente sustentável se os indivíduos atomizados, absorvidos consigo mesmos, estão pouco dispostos a considerar o interesse geral, a renunciar aos privilégios adquiridos; a construção do futuro tende a ser sacrificada às satisfações das categorias e dos indivíduos do presente (3). Indubitavelmente se está diante de um grande desafio, tanto para moda, quanto para toda sociedade humana.

Agir com ética, tanto na relação com os demais humanos, quanto com a natureza, pode ser a atitude desencadeadora para a real possibilidade de um desenvolvimento ambientalmente sustentável. Sem o reconhecimento, pelos humanos, do valor inerente da natureza, a partir de uma ética ambiental biocêntrica, proposta por Taylor, onde há o respeito por todas as formas de vida, será praticamente uma utopia preservar a espécie humana no planeta Terra.

Diante deste contexto, a moda precisa explorar novas propostas, utilizando materiais com menos impacto ambiental, evitar a produção exagerada de novos produtos e a geração de resíduos que poluam o meio ambiente. A moda, dentro da estética contemporânea, com um ciclo de vida mais longo das roupas, a redução de consumo, o uso matéria-prima renovável e de fibras orgânicas, entre outras ações, poderá ser mais adequada a alguns princípios de uma ética ambiental.

O estudo permitiu o conhecimento da base da teoria biocêntrica proposta por Paul Taylor no livro Respect for Nature, em que fica evidenciada a visão antropocêntrica na relação do homem com a natureza. É necessário aprofundar o assunto, com estudos para identificar de que modo é possível aplicar as propostas de uma ética ambiental biocêntrica para um desenvolvimento humano mais sustentável.

Referências bibliográficas

ADG Brasil. O valor do design: guia ADG Brasil de prática profissional do designer gráfico. 2ª ed. Editora Senac São Saulo; ADG Brasil Associação do designer gráfico, 2004. (1)
BONES, Elmar; HASSE, Geraldo. Pioneiros da Ecologia – Breve História do Movimento Ambientalista no Rio Grande do Sul – Porto  Alegre, Editora Já, 2002. (2)
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Cia das Letras, 1989. (3)
MANZINI, E; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis. Os requisitos ambientais dos produtos industriais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005. (4)
KAZAZIAN, Thierry. Design e desenvolvimento sustentável: haverá a idade das coisas leves. São Paulo: Editora SENAC, 2005. (5)
TAYLOR, Paul W. Respect for Nature: a theory of environmental ethics. 2. impress with corrections. New Jersey, Princeton: Princeton University Press, 1987. (6)

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