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Que os sofrimentos se transformem em carinhos

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Quanto sofremos durante a vida? Sofremos por não conseguirmos crescer na sociedade, por sermos analfabetos, por sermos crianças abandonadas nas ruas, por sermos mulheres e termos nos apaixonado por companheiros violentos, por sermos animais indefesos, por sermos árvores, montanhas, rios e oceanos, por sermos dependentes de drogas, de álcool, por perdermos o sentido de viver, por sermos sós, por não termos aprendido a envelhecer. Não é à toa que existem 276 mil entidades civis, as ONGs, que dizem cuidar dos nossos sofrimentos. Mesmo que muitas delas não cumpram o que declaram, a quantidade de organizações não governamentais e fundações sem fins lucrativos mostram quantos sofrimentos existem entre nós.

Com certeza a vida não é feita só de sofrimentos, mas eles são mais frequentes do que imaginamos. Alguns são pequenos e repetitivos e fazem da gente pessoas amargas e sombrias. Outros são raros, mas são como um terremoto, marcam de forma profunda, fazem perder o rumo, paralisam, doem muito e queimam para sempre. E todos eles influenciam de forma decisiva nos caminhos que tomamos na vida.

Os sofrimentos não existem por si. Alguém causa em nós, nós causamos em alguém. Somos vítimas e também autores. Se não gostamos de sofrer, por que fazemos o outro sofrer?

Não temos culpa por alguns desses sentimentos que causamos, pois muitas vezes não somos responsáveis pelas falsas expectativas que as pessoas guardam para nós. Mas os sofrimentos que provocamos em quem não sabe se defender, como em crianças e nas vidas animais, são um crime pelo qual deveríamos pagar um alto preço. Contra crianças, porque elas carregarão para sempre as marcas que deixamos, desviamos as suas vidas e ceifamos a possibilidade de serem felizes. Contras as vidas animais e a natureza, porque perpetuamos a violência social e condenamos as gerações futuras a pagar pelo que fizemos. Mas por que fazemos isso?

Quando temos dificuldade de dialogar com os sofrimentos, imaginamos que nos trará alívio se descarregarmos as nossas emoções que não estamos mais suportando. Para isso, escolhemos, de preferência, transferir o que nos incomoda para quem tem menos condições de reação. Se nas épocas primitivas avançava-se contra os mais fracos pela necessidade de sobrevivência, hoje avançamos contra eles para nos livrarmos de algo que queima dentro da nossa imaginação e do nosso mundo interior. Fazemos isso porque somos emocionalmente imaturos e vivemos aprisionados em uma vida pequena, onde o ter é mais importante do que o ser.    

A forma de expressarmos os sofrimentos tem origem nos valores, nos princípios e numa intricada combinação de sentimentos que aprendemos e vivenciamos na infância e na adolescência, e que continuamos a reproduzir na idade adulta. Em casos normais, primeiro somos vítimas. Depois, ao não sabermos como reagir e na dificuldade de entender as razões daquilo, passamos à tentativa de transferir aquela dor. É assim que os sofrimentos se multiplicam e é por isso que precisamos dar um basta às nossas atitudes de promotores desse tipo de violência psicológica.

Entre diversas formas de começar a interromper esse reinado de violência social, aprender a combater o sofrimento em seres animais é uma das formas mais eficientes para combater os sofrimentos pessoais e sociais. Não nos alimentarmos do sofrimento de outras vidas e perceber a sensação de paz e leveza que essa atitude solitária produz dentro de nós é começar a reconstruir as nossas relações emocionais com a vida. Onde os sofrimentos se transformam em carinhos, como deveria ter sido todo o tempo.

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