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Por que incomodo tanto? Parte 2

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Tenho sido bombardeado pela força hercúlea da tradição moral antropocêntrica em uma das escolas que leciono. Digo em uma das duas, porque, na escola A o problema de apresentar a teoria dos Direitos Animais (Abolicionismo/Veganismo) está no desdém da grande parcela dos alunos a questão, quanto ao corpo docente ficam no plano das piadas que todo vegetariano e vegano conhecem bem. Ou seja, com conhecimento e jogo de cintura dá para caminhar dialogando.

Na escola B é que a situação é complicada. É essa escola que tenho sido, diariamente, bombardeado pelos pais e corpo burocrático (com corpo burocrático me refiro a direção, vice-direção e coordenação pedagógica). É impressionante como professores “instruídos” podem dizer tantas sandices. Realmente é mais fácil reproduzir o que foi dito, difícil é descobrir o que não foi revelado. Com uma ressalva: difícil para aqueles que não querem descobrir. Des-cobrir.

Estamos no mês de maio e eu apenas usei como recurso para introduzir a teoria dos Direitos Animais e o Abolicionismo, uma apostila e a minha voz. Isso já foi o suficiente para que vários adolescentes adotassem o vegetarianismo e alguns o veganismo como estilo de vida. Esse é um dado feliz para quem tem a cabeça na expansão do círculo da moralidade. Mas para os pais que tem uma cabeça na Idade Média e uma incapacidade intelectual de ver além de si mesmos, essa é uma péssima constatação. Novamente, “como meu filho vai ficar sem carne”, “minha filha não aceita nada: carne, ovo, nem leite ela quer tomar, que absurdo”.

Muitos jovens recuam numa mudança de paradigma devido à repressão em casa. Infelizmente, soube de casos em que pais ameaçaram com agressão física os filhos que “virassem vegetarianos”. Os pais e o corpo burocrático não conseguem entender que eu não quero que seus filhos (alunos) tornem-se vegetarianos; meu objetivo é apresentar e discutir a teoria abolicionista dos Direitos Animais, que tem o veganismo como fundamento moral para que depois desse contato, eles, os alunos possam tomar uma decisão que é só deles: opto ou não por uma vida sem financiamento a biocidios e impactos ambientais diretos.

O incômodo provocado pela minha “doutrina”, pela minha “pregação” (é assim que o corpo burocrático se refere as minhas aulas) tem levado os pais a fazerem uma pressão fortíssima na Direção da escola para que eu pare com essas aulas. Descobri há poucos dias qual é o medo maior desses especistas de plantão: “não deixem ele exibir os documentários que ele exibe e nem realizar as palestras que ele organiza na escola”. Esse pedido é corroborado pela seguinte dúvida de uma aluna do 1ºano: “Professor é verdade que o senhor não vai mais dar aulas para nós? É o que estão dizendo por aí. Falaram que os pais querem fazer um abaixo-assinado para lhe tirar da escola”.

Eles sabem que os documentários trazem uma verdade nua e crua, além de ser composto por depoimentos de especialistas reconhecidos (ex: “Não matarás”). No caso do “Earthlings” as imagens falam por si só.

“Depois que minha filha assistiu a esses vídeos que ele passou na escola, ela não come mais nada (tirar as carnes do cardápio na linguagem dos pais significa não comer mais nada), não usa os xampus que usava…”

Pais e corpo burocrático sabem que calar a boca de um professor é fácil, ameaça daqui, ameaça dali e o rumo das aulas muda de direção. Eles ainda não entenderam que ameaçar um professor vegano engajado só o estimula a continuar lutando. Como disse uma aluna há poucos dias: “eles acham que ti proibir de dar aulas de Direito Animal e Ética Animal vai impedir os alunos de adotarem as teorias. Agora não tem mais jeito, você já plantou a semente e o solo é fértil”.

O incômodo das aulas e dos vídeos se estendeu para as palestras que organizo nos finais de ano na escola. Recentemente uma mãe disse: “a Direção da escola tem que tomar uma atitude séria, esse negócio de fazer palestras na escola é um absurdo. A minha filha mudou radicalmente depois que assistiu um médico, uma jornalista e me parece que um psicólogo, que veio aqui defender o estilo de vida dele”.
Novamente a incapacidade de compreender e entender que não é o estilo de vida de fulano ou beltrano é um princípio ético que está sendo passado para os filhos (alunos). Uma teoria discutida e produzida por filósofos, médicos, biólogos, juristas, nutricionistas, psicólogos de vários países.

Os pais não querem que os filhos tenham contato com os médicos, advogados, jornalistas, filósofos… que defendam o abolicionismo animal.
Como disse à revista dos Vegetarianos em fevereiro (ed. 28) o contato pessoal dos alunos com os especialistas que eles viram nos documentários causa-lhes um impacto muito grande, eles vêem que é um assunto sério por envolver pessoas de várias áreas do conhecimento.

Pois bem, por ser um assunto sério que tem representantes de peso em todas as áreas, os pais já pediram ao corpo burocrático o fim das palestras que organizo na escola. “Não podemos deixar que nossos filhos vejam essas cenas exibidas, não podemos deixar que nossos filhos tenham contato com essas pessoas (nutricionistas, advogados) que pregam essa coisa (veganismo)”.
Será que sou eu que incomodo tanto ou será que é a verdade?

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  1. Quem incomoda tanto é a verdade e você, pois você está sendo a voz da verdade.
    Sei o que você sente, pois passei por isso no semestre passado quando não encontrei nenhum professor que quisesse me orientar em minha monografia. Sou aluna de Direito, estou finalmente entrando no ultimo semestre, e tive que ser obrigada a mudar meu tema de monografia por que nenhum professor quis me orientar. Ao argumento que não é um assunto pertinente ao Direito, que eu não teria literatura suficiente para escrever meu projeto.
    Mudei então o projeto para falar do projeto de lei que proibe animais em circo. Melhorou um pouco, mas não tenho ainda professor que me oriente. Por isso fui reprovada em TCC2, ou seja, vou ter que pagar a matéria novamente, e/ou mudar meu tema.
    Agora imagine: eu comecei a estudar direito para defender os animais, vou fazer monografia sobre o que? Estou me sentindo esfaqueada, sei lá se esse é o termo, decepcionada, apunhalada…
    Enfim, gostaria de ter essa apostila que você criou para seus alunos.
    Angélica Bessa
    angelica.bessa@globo.com

  2. Apoiado irmão. Tb sou professor de filosofia no Estado SP.Não há argumentos contra o veganismo, e isso obriga os professores de filosofia a, no mínimo, se calar em relação aos que o mesmo professam. Falar contra é exponenciar o erro já primordial de dizer-se filósofo enquanto se esquece os outros seres pra fora da metafísica(obs: “esquecer” foi ironia…).
    abraço

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