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Gastronomia social ou ‘desplugue o ADSL agora mesmo e pisoteie o modem’

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Como é que eu vou explicar para esse pessoal que tudo comemora à volta de uma mesa, que o veganismo prescinde de um bom churrasquinho para que a felicidade seja completa? Aqui no RS, a conhecida ‘farta gastronomia italiana’ não passa do momento familiar do dia, o evento social da semana. Hora de dar risadas, debater alguns problemas da casa, reclamar da falta de dinheiro, mandar o filho cortar o cabelo, e no sábado encontrar outras famílias com o mesmo ritmo. Aí eu vou mandar dispersar, como uma tropa de choque, justamente no único momento de relax do dia, da semana, do mês. ‘Não espete essa asinha de frango, vó!’. Não vai ser fácil.

Trabalhando – também – no Centro de Porto Alegre, diariamente eu cruzo com dezenas de pessoas, humildes, que saboreiam os famigerados churrasquinhos na saída do trabalho, naquele intervalo entre o serviço e o metrô ou o ônibus. Saboreiam com tal gosto – sem se importar se os demais passantes estão prestes a ter o olho furado com o espeto de madeira – que eu penso o quanto de informação e conscientização e educação será necessário até que vejam com o mesmo nojo e indignação com que eu vejo. As barraquinhas fervem de clientes, a fumaça sobe, a farinha passa de mão em mão, a pimenta lambuza, o troco voa, às vezes cai no chão mas o povo não se acanha e continua a comer, depois de uma limpada na calça.

Pulamos para algum lugar bem sofisticado, no sentido intelectual do termo. Todo mundo ali tem acesso a livros, filmes, discos, viagens, ideias, eventos. Não comem espetinhos em pé no Centro porque estão sentados em mesas de ‘cafés’, tal como já viram em fotos em preto e branco em livros bacanas, e estão fumando com ar de profundidade, usando óculos levemente esquisitos e tênis All-Star. Alguns laptops ligados. Não há desculpa para a desinformação. Cada quiche de frango para acompanhar o café ‘marroquino’ ou ‘irlandês puro’ ou ‘carioquinha’ – ou qualquer outro pega-trouxa do momento – tem uma história de confinamento e marretada em animais, goste-se ou não.

Mesmo que o senhor cabelo-igual-ao-cara-do-Strokes finja ignorar, eu estou ligado na ignorância dele, e sei que ele é uma elite neste país, por ter acesso à informação, à informática, à Internet. E só usa para bobagens, ocupando espaço neste já apertado planeta, gastando luz e a sola do próprio Converse, gerando lixo e fazendo tatuagens de Playmobil e outras coisas ‘descoladas’. Um pouco de conteúdo na cabeça? Seria pedir demais.

Os ‘gringos’ do Interior ainda têm a desculpa da pressão social e da ignorância histórica, as classes menos favorecidas têm a opressão econômica, medo do desemprego etc., mas logo o povinho ‘in’, que frequenta os Cadernos B da vida, precisam me decepcionar tanto? Já ouviram falar de tudo, menos de especismo, menos de veganismo, de libertação animal, de seres sencientes, do que acontece além do mundo descolado, onde os caras são sempre esqueléticos e as minas são lolitas versão Orkut. Tudo bem, que cada um grite pelo seu direito de não tomar conhecimento de nada, mas que então desplugue o ADSL agora mesmo, e pisoteie o modem, aí eu aceito. Não vai ser fácil.

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