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Sobre a falsa perda de valores

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“Ora, toda tradição se torna mais respeitável à medida que fica mais distante a sua origem, quanto mais distante a sua origem, quanto mais esquecida for esta, o respeito que lhe é tributada aumenta a cada geração, a tradição se torna enfim sagrada, despertando temor e veneração…”
Nietzche

Já há algum tempo tenho ouvido muito estas expressões: “hoje em dia eles [os jovens] já não têm mais valores”, “há uma inversão dos valores”, “há uma falta de valores”, entre outras, sempre no sentido de que a atual juventude já não dá a mínima para os valores propagados pelos pais, pela religião, pela sociedade, etc. Esse pensamento procede? De quais valores se trata?

Bom, os únicos valores, realmente valores, numa sociedade especista são: a sacralidade da vida humana, respeito (ao humano), justiça (para o humano), compaixão (ao humano), dignidade (do humano), não-violência (com o humano), entre outros.

Trabalho com um público de 15 e 16 anos, em sua grande maioria. E com o desenrolar de minhas argumentações em sala de aula a favor da abolição de todo tipo de uso que tradicionalmente se faz dos animais não-humanos para benefício humano, comecei a perceber que tal acusação – comumente feita por pais e professores – de que os jovens não têm mais os valores (cristãos- burgueses) que regem nossa sociedade, não procede, não tem o mínimo fundamento, ou melhor, se fundamenta numa má interpretação da realidade juvenil.

Pois bem, o que leva pais e professores à conclusão de que seus filhos e alunos não seguem os valores por eles ensinados?

1) Os jovens têm uma forte tendência a se rebelarem contra as imposições dos pais e o autoritarismo dos professores;

2) Jovens se opõem aos pais e aos professores, não cumprindo o que mandam ou fazendo o oposto;

3) Ou sua maneira de se opor é fazendo-os acreditar que tudo que falam não quer dizer nada (o que não é muito difícil).

O desdém praticado com tanta maestria pelos jovens aos ensinamentos familiares e escolares leva seus responsáveis à falsa idéia de que não dão importância aos valores, tão caros a nossa sociedade especista.

Agora vamos às experiências que me fizeram chegar à conclusão de que é falsa a idéia da falta de valores (antropocêntricos) na juventude.

Bom, procuro em sala de aula levar às últimas conseqüências aquilo que acredito ser a base da filosofia: a dúvida. De omnibus dubitandum, principalmente do óbvio. E é aqui que está o ponto central da questão: duvidar do óbvio. “É óbvio que os animais não pensam, só o homem é racional”, “É óbvio que Deus fez os animais para nos alimentar”, “É óbvio que estamos no topo da cadeia alimentar”, “É óbvio que sem testes em animais voltaremos à Idade Média”, “É óbvio que sem leite de vaca terei osteoporose”, “É óbvio que sem carne ficarei anêmico e sem proteína”. Todos esses óbvios e muitos outros são ditos pelos alunos como forma de rebater os argumentos que apresento em defesa do veganismo e do direito animal. E é óbvio que esses óbvios foram ensinados pelos familiares e professores aos jovens desde a mais tenra idade.

Opa! Esqueci de um pequeno esclarecimento conceitual: quando uso o termo óbvio, refiro-me ao “com certeza”, do pai que diz ser essencial para a saúde do filho o copo de leite pela manhã e o bife no almoço. Ao “é indiscutível” que Deus os fez e os pôs a nossa disposição, pois está na Bíblia como dizem os porta-vozes de Deus na Terra. Ao “não seja bobo” fulano, os bichos agem por instinto, só o homem fala e pensa, só ele é racional, como dizem tantos docentes aos seus alunos durante anos.

Portanto, é no momento que questiono nossos hábitos alimentares, nossos lazeres, nossa higiene, nossa ciência, ou seja, nossos costumes, é que fica claro o quanto esses jovens são herdeiros da tradição antropocêntrica, especista passada pela moral tradicional, injusta e insana, no seio familiar e nas unidades escolares. A quase totalidade dos alunos defende a moral tradicional com extrema revolta contra os questionamentos que o veganismo nos impõe, contra a proposta de mudança de atitudes e pensamentos.

Os pais parecem não ter noção do peso de seus anos de maciço discurso pró-leite, laticínios, carnes, zoológicos, etc. O mesmo acontece com os professores, na defesa da experimentação animal, da superioridade humana etc.

A moral tradicional continua sendo passada de maneira explícita em algumas situações e sutil em outras. Ao término das aulas muitos alunos me acompanham pelo corredor dizendo: “Professor, como o leite pode não ser benéfico? A vida inteira eu ouvi que faz bem, que é essencial”. “Professor por que até hoje eu nunca ouvi nenhum professor falar do impacto ambiental causado pelo uso que fazemos de carnes e outros produtos de origem animal?” “Por que os livros que usamos na escola não falam dos bastidores da ciência?” Ou dizem, “meu pai falou que o senhor é louco”, ou “minha mãe disse que é normal o senhor falar essas coisas, pois filósofo é tudo doido, só falam besteira.” Há também os comentários de outros professores aos alunos: “O professor Leon fica defendendo bichinho em vez de dar aula de Filosofia”, “ele tá falando essas coisas [direito animal/veganismo] mas ele já falou de Sócrates, da vida dos filósofos?”, sem contar os tantos, “ele deveria cuidar da sua matéria, e não ficar se intrometendo nas outras”. Esse último comentário é referente aos meus questionamentos ao ensino geográfico, biológico e químico que ignora os impactos da pecuária, avicultura, suinocultura, e outros sobre o solo, os lençóis freáticos e a atmosfera, e não menos a incapacidade dos historiadores de fazerem a mais básica analogia entre racismo, sexismo e especismo.

Em suma, caros pais, educadores, adultos em geral, não se aflijam. Nossos jovens não negaram (o que é uma pena) os valores especistas, biocidas, cristãos-burgueses. Eles apenas não gostam de demonstrar o quanto vocês são influentes em suas vidas, não querem dar o “braço a torcer”, querem ser do contra, mas apenas para provocá-los. Com certeza eles fazem jus ao clássico refrão musical: “Minha dor é perceber que apesar de tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Para concluir, caso o jovem tenha um bom professor vegano, você pai, corre um sério risco de que seu filho e você professor, que seu aluno, comece de fato a objetar conscientemente toda a sandice biocida que vocês propagam como o valor com tanta naturalidade.

Leon Denis – Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo, co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, articulista da ANDA e pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.

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