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“Quando a população pedir pelo fim dos testes em animais os cientistas se empenharão nisso”

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Foto do Sérgio GreifSérgio Greif é vegano há mais de 10 anos e um dos mais importantes ativistas pelos direitos animais do Brasil. Biólogo formado pela UNICAMP, é também mestre em Ciências da Nutrição pela mesma universidade, onde desenvolveu pesquisa científica sobre os hábitos alimentares vegetarianos. É co-autor do livro A Verdadeira Face da Experimentação Animal – sua saúde em perigo e autor de Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação. Greif pesquisa a bioética, com ênfase nos direitos dos animais, métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino, além do vegetarianismo. Crítico severo ao uso de animais em pesquisas científicas, Greif esclarece que “as histórias das descobertas são resumidas de modo a supervalorizar a pesquisa que foi realizada com animais, quando em verdade tudo o que sabemos deriva de outros métodos de pesquisa, sendo a pesquisa com animais quase sempre irrelevante, ou pior, fator complicador de obtenção de resultados confiáveis”. Com propriedade, ele falou com exclusividade para a jornalista da ANDA Cynthia Schneider sobre experimentação animal.

ANDA – Suas pesquisas mostram uma grande preocupação com a abolição da prática da vivissecção nas experiências científicas e na educação. A vivissecção ainda é a palavra de ordem na ciência brasileira? Qual a dimensão recente do debate em torno do tema?

Sérgio Greif – A experimentação animal, desde 1865 até hoje, é considerada método padrão de pesquisa na área de saúde. Isso é verdadeiro não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo que segue o modelo de medicina ocidental predominante. No entanto, apenas porque é assim não quer dizer que deva ser assim. Quando estudamos a história das descobertas científicas na área da saúde vemos que, embora animais tenham sido utilizados como cobaias na maioria dos procedimentos, não foi isso que trouxe à tona os fatos que são realmente relevantes. As histórias das descobertas são resumidas de modo a supervalorizar a pesquisa que foi realizada com animais, quando em verdade tudo o que sabemos deriva de outros métodos de pesquisa, sendo a pesquisa com animais quase sempre irrelevante, ou pior, fator complicador de obtenção de resultados confiáveis. Recentemente vem crescendo o questionamento quanto ao uso de animais em laboratórios, o que levou muitos vivisseccionistas ao desespero. Nesse desespero eles começaram a se organizaram em lobbies que se escondem sob nomes de entidades em defesa da ciência e têm como único objetivo fazer campanhas em favor das pesquisas com animais e aprovar leis que garantam seu direito a continuar com suas pesquisas tal qual conduzidas antes.

ANDA – Num dos seus estudos você diz que “a ciência não apenas pode ser ética, mas deve ser ética”. Há resultados concretos em andamento para reverter o abuso de animais em experimentos científicos?

Sérgio Greif – O problema do uso de animais em laboratórios não se limita a possíveis abusos que possam vir a ser cometidos. Se formos ficar procurando por abusos provavelmente não vamos encontrar muita coisa, até porque os procedimentos acontecem a portas fechadas. E mesmo que tenhamos informações de irregularidades por parte dos técnicos e estudantes mais sensíveis, faltarão as provas e a disponibilidade de prestar declarações formais, por medo de represálias por parte do pesquisador. Além disso, o que é afinal um “abuso”? Nem mesmo as leis que proíbem o abuso esclarecem o que isso seja. Eu posso considerar que aprisionar um animal e forçá-lo a ingerir determinada substância tóxica seja um abuso. Que submeter um animal saudável a um procedimento cirúrgico desnecessário para sua própria saúde seja um abuso. Outras pessoas provavelmente considerariam que isso não é um abuso, especialmente se as espécies animais utilizadas não gozarem de grande simpatia.
E considerando isso podemos falar em “ética”. Não tenho formação filosófica formal, mas posso dizer que sei o que é certo, o que é bom. Quando penso no que é bom me refiro ao que é bom para o indivíduo. Não pensamos em seres humanos em termos numéricos porque consideramos que seres humanos são indivíduos. Cada ser humano tem seus direitos e não podemos, pela ética, desconsiderar esses direitos ainda que para benefício de um número maior de seres humanos. Não tem porque, quando falamos em animais, deixarmos de pensar neles como indivíduos.
Quando se mistura em uma mesma frase “ética“ e “experimentação animal” vemos já aí uma inconsistência, porque a experimentação animal não considera que animais sejam indivíduos dotados de direitos. O procedimento experimental à revelia, em si, é um desrespeito ao direito do animal enquanto indivíduo. Por isso a experimentação animal nunca é ética, e por isso mesmo não pode ser chamada de uma ciência boa.
A ciência deve ser ética porque acima de qualquer descoberta científica está aquilo que é certo. Poderíamos deter o avanço da AIDS por um método puramente racional e científico, exterminando todos os portadores do HIV. Por que não fazemos isso? Simplesmente porque não é certo, não é aceitável. Quando se trata de seres humanos a ética está acima da ciência, assim também devia ser quando se trata de animais.

ANDA – Uma parte dos problemas da vivissecção está nas universidades, pois alunos são obrigados a repetir experimentos em animais vivos que poderiam ser evitados. No seu livro Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação você propõe soluções para esta situação. Poderia nos dar alguns exemplos?

Sérgio Greif – Sim, minha defesa é que todo procedimento realizado com animais poderia ser evitado. No caso sua pergunta utilizou a palavra “repetir”, creio que se refira à repetição de procedimentos que são realizados ano após ano e que poderiam ser evitados meramente se em um desses anos alguém realizasse uma filmagem que pudesse ser utilizada para as turmas seguintes. Em ambos os livros citamos essa situação. Mas podemos ainda questionar se a utilização daquele único animal, que evitou o uso de outros tantos depois dele, foi correta. Em meu segundo livro analiso brevemente a questão e a resposta é que, pelo ponto de vista da ética, o correto seria realizar o procedimento no cadáver de um animal morto por outras causas, e não de um animal morto para esse propósito. Outros recursos como softwares, manequins e, em alguns casos, auto-experimentação são também bons recursos disponíveis para o ensino de ciências.

ANDA – Você é formado em biologia, curso em que há relatos de práticas de vivissecção logo no primeiro dia de aula. Como foi a convivência com a experimentação em animais durante o seu curso universitário? Você percebe uma mudança do pensamento utilitarista nas práticas acadêmicas atuais?

Sérgio Greif – Bem, quando entrei na universidade eu já mantinha alguns dos valores que conservo atualmente. Outros não estavam ainda completamente “maduros”, mas estavam em desenvolvimento. Embora a utilização de animais fosse constante em várias disciplinas, eu me abstive de participar de todos os procedimentos que considerava incorretos para os padrões na época, ou seja, quando animais vivos ou recém-mortos eram utilizados. Eu participava das disciplinas onde animais estavam mantidos conservados, sendo utilizados ano após ano. Participei também da disciplina de genética, em que criávamos drosófilas com diferentes características, mas no final eu não as matava, liberava pela janela. Não lembro bem, mas acho que todos os colegas fizeram o mesmo.
A dificuldade que muitos estudantes encontram de se recusarem a participar de procedimentos com animais está, em parte, na forma como essa recusa é feita. Eu evitava afrontar o professor, simplesmente não comparecia à aula. Algum grupo colocava meu nome e eu me encarregava do relatório. O relatório era feito com base nos dados anotados pelo grupo, mas toda a explicação era baseada em livros que eu consultava na biblioteca. Essa foi a alternativa que encontrei na época. Os professores até sabiam que eu não ia a essas aulas, sabiam os motivos, mas não havia atrito, havia respeito mútuo.

ANDA – Medicamentos, vacinas, cosméticos, perfumes e outros produtos da indústria farmacêutica precisam ser testados em animais? Esta é a única alternativa científica e legal? E, além da crueldade implicada nos processos, seus resultados são efetivos?

Sérgio Greif – Medicamentos e vacinas precisam, por lei, ser testados em animais. Cosméticos e perfumes não. A necessidade de realizar testes com animais, no caso de medicamentos e vacinas, reside no fato de a lei estabelecer não apenas quais testes são necessários, mas também de que forma esses testes devem ser conduzidos. Se a lei determinasse apenas quais testes são necessários, mas desse a possibilidade de tais serem realizados seguindo outras metodologias, os testes em animais seriam desnecessários. Vemos então que a necessidade do uso de animais para teste de vacinas e medicamentos é uma questão legal, e não técnica.
Esses testes realizados em animais não tornam medicamentos e vacinas mais seguros ou efetivos para utilização por seres humanos, pelo contrário, quando consideramos seus resultados como válidos e extrapolamos para o caso humano freqüentemente o que temos são danos para o ser humano. Isso porque animais são fisiologicamente diferentes de seres humanos, e o que funciona de uma forma em um poderá funcionar de uma forma diferente no outro. Só saberemos como funciona no ser humano testando em seres humanos, e mesmo assim estamos sujeitos ao erro de variabilidade dentro de nossa espécie.
O que quero dizer é que, por mais que se utilizem animais antes de se utilizar seres humanos, os seres humanos serão as cobaias. A experimentação animal não evita nem ameniza esse fato.

ANDA – A prática da experimentação animal foi legalizada há mais de 100 anos. Como os cidadãos e as classes diretamente envolvidas no processo como biólogos, farmacêuticos, médicos e pesquisadores podem colaborar para a substituição dessas práticas? Há exemplos bem-sucedidos neste sentido em outros países?

Sérgio Greif – Creio que existem muitas frentes de atuação, algumas colaborando entre si, outras obstando. Um exemplo de “ajuda que atrapalha” são as instituições e indivíduos que se empenham na promoção dos “métodos alternativos” dentro do espírito dos 3 R´s (Reduction, Refinement e Replacement), na promoção dos “Comitês de Ética na Experimentação Animal” etc. Isso porque todas essas idéias são confusas e servem apenas para confundir a população.
Mas há formas de o cidadão promover a substituição efetiva de animais em experimentos, em primeiro lugar fazendo uso de seu poder de consumidor, consumindo apenas produtos não testados em animais e, em segundo lugar, se empenhando na divulgação de campanhas contra a vivissecção e na revisão das leis e normas que de alguma forma exigem ou embasam a experimentação animal.
Quanto ao cientista, este tende a acompanhar as tendências da população na qual está inserido. Quando a população demandar pelo fim dos testes em animais, os cientistas se empenharão nisso. Não podemos esperar que essa iniciativa surja das próprias instituições científicas.
Infelizmente as iniciativas que existem em outros países são mais tendentes à normatização do uso de animais, à sua regulamentação, e não à abolição de seu uso. Embora regulamentar pareça um passo em direção à abolição, em verdade essa prática tem efeito inverso.

ANDA – Você é vegano há vários anos. O que foi prioridade para esta decisão: as premissas éticas, o impacto ambiental da produção de carne, a saúde ou o consumo consciente?

Sérgio Greif – Sou vegano desde 1998, mas não comia carne de nenhum tipo desde 1980. O que me levou ao vegetarianismo foi exclusivamente o conceito de direitos animais e posso dizer que até hoje esse é o único motivo. Ao longo dos anos e especialmente após 1994 tratei de estudar o impacto da pecuária para o meio ambiente e para a saúde da população, além de outros aspectos relevantes utilizados por outros na difusão do vegetarianismo (alguns dos quais posteriormente considerei improcedentes).

ANDA – O veganismo é um indicativo possível de que a sociedade desperta para o respeito aos animais?

Sérgio Greif – O veganismo é o único indicativo possível de que uma pessoa reconhece os direitos animais. Não é possível falar em respeitar um animal, amar um animal, ter consideração por um animal e ainda assim fazer uso prejudicial desse animal. Consumir um animal é a melhor forma de desrespeitá-lo, mesmo que esse consumo seja feito seguindo determinado ritual que, pelo ponto de vista do consumidor, demonstre algum respeito. Pelo ponto de vista do animal só há prejuízo e é o ponto de vista do animal que tem de ser considerado nesse caso.

ANDA – Poderia deixar uma contribuição pessoal para o debate sobre o tratamento ético dos animais pela ciência?

Sérgio Greif – Sim, posso. Não existe tratamento ético de animais pela ciência, porque se animais são “tratados” significa que eles são “usados”, e se eles são usados isso acontece sem seu consentimento. Diferente de seres humanos, animais não podem se oferecer para a pesquisa. Eles não podem ser instruídos sobre os possíveis benefícios e malefícios de um tratamento e não podem escolher deixar a pesquisa em qualquer momento. Se animais fossem capazes de entender os propósitos de um experimento e se voluntariar faria sentido falarmos em tratamento ético, mas não havendo essa possibilidade toda forma de utilização de animais em experimentos científicos resulta em uma atitude antiética.

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  1. Parabéns pela entrevista Sérgio, esperamos que a sociedade cada vez mais tenha consciência que os testes em animais devem acabar e métodos alternativos serem desenvolvidos.

  2. Temos sim que avaliar os métodos utilizados pelas pesquisas e sempre melhorarmos.

    Contudo na maioria dos casos é necessário sim utilizar animais. E hoje em dia os critérios são muitos evitando que os animais sejam expostos a agressões, portanto falar em agressão e métodos cruéis aos animais é puro charlatanismo para chamar a atenção da população leiga.

    Sou também biológo, doutor em ciências e utilizo de maneira racional os animais em pesquisa.

    Sou contra os que se dizem ativistas e enganam a população com frases pesadas e ataques à profissionais. Inclusive estes que se dizem ativistas, vegan, é que agem como nazistas ou terroristas modernos.

    Luis Alberto Souza
    UFG

    1. Sérgio Greif disse na 5ª resposta, 2º e 3º parágrafos:

      “Esses testes realizados em animais não tornam medicamentos e vacinas mais seguros ou efetivos para utilização por seres humanos, pelo contrário, quando consideramos seus resultados como válidos e extrapolamos para o caso humano freqüentemente o que temos são danos para o ser humano. Isso porque animais são fisiologicamente diferentes de seres humanos, e o que funciona de uma forma em um poderá funcionar de uma forma diferente no outro. Só saberemos como funciona no ser humano testando em seres humanos, e mesmo assim estamos sujeitos ao erro de variabilidade dentro de nossa espécie.
      O que quero dizer é que, por mais que se utilizem animais antes de se utilizar seres humanos, os seres humanos serão as cobaias. A experimentação animal não evita nem ameniza esse fato.” Logo, os testes são desnecessários.

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